terça-feira, 28 de junho de 2011

Cidade de ironias

Há visões que não nos deixa fechar os olhos.
Há situações que nos acorda da passividade.
Há rotinas que nos impede de se esconder.

'No meio do caminho tem várias pedras'.
Na rua de todo dia, no trânsito nosso de cada dia, é difícil se omitir de sentir o efeito do conto real de nossa cidade sobre nós mesmos.

Cenas inquietantes que te ironizam, minha cidade, e que desafiam nosso olhar, nossa sensibilidade, nosso ser.

A caminho da aula, vê-se dois lados de uma mesma calçada. E entre tantos outros, há uma ladeira para baixo muito íngreme encravada na calçada, um beco de uma só saída para a esquerda. Ironia boba ser para esquerda, triste metáfora ter uma só saída. Esse beco parece ser a entrada de uma comunidade conhecida como favela do Iraque. Pelo que ouvi recebeu esse nome porque sua ocupação aconteceu na época das invasões do Iraque, em 2003. Talvez um nome colocado por brincadeira, talvez por ignorância dos fatos, já que os "invasores" nesse caso são as reais vítimas. Entristece o fato de eles precisarem encarnar invasores para morar, abrindo espaço no chão. E na maioria dos casos não é questão de preferência, mas de, literalmente, só ter um caminho a seguir.

Em viagem boa a uma ilha urbana na zona sul, da ponte de entrada a ela, se vê que à beira do rio estão construindo um centro de compras. Ao lado desse futuro pólo de consumo e lazer ficam habitações fincadas nas águas duvidosas do rio. Nelas sobreviventes 'da lama e do caos'. Imagem desconcertante na beleza histórica da cidade.

Continuamos nosso passo, e nas calçadas de uma alta torre de negócios dorme um filho teu, cidade. Mais a frente um terreno vazio abriga outdoors. A propaganda mora segura para ganhar nossa atenção, um filho teu perece na calçada, à espera de que?

E quando vem a chuva, o campo de futebol das crianças da comunidade vira lama e a beira de todos os lados de rios fica o lixo que teus filhos deixaram cair. Os carros boiam nas consequências do descaso com o meio ambiente e contigo, cidade minha. A mesma chuva boa que aconchega de noite quem dorme tranquilo sob o cobertor. A mesma chuva boa que dá letra para minhas canções e corda para vagar meu pensamento.

Imagens. Estranhas ironias. O bom se torna cruel no mesmo dia, na mesma paisagem, na mesma cidade. Teus filhos tem culpa, cidade minha? Talvez. Mas arranjar culpados não me cabe. Até porque não é teu privilégio ser irônica. Em todos os lugares ainda se vê infinitos lados, bons e maus, de um mesmo plano. Mal me cabe a tentativa de nos fazer enxergar o que tu mostras tão claramente. Nos fazer atuar com responsabilidade universal, nome grande para um conceito simples: ame e zele pelo que/quem dá algo de essencial para ti. Assim, sem escancarar em colorido tuas ironias, sem citar nomes, endereços ou culpados, só tento que te vejam melhor, minha cidade e que façam mais por ti, por nós... E que prevaleça a tua magia.


De encantos, de desencantos. De carnaval, de luto. De belezas, de tristezas. De São João, de zé ninguém. De 1 milhão, de mal 10 reais. De Veneza, de Guiné Bissau. De Nassau, de Henrique Dias. De mascates, de usineiros. De arranhacéus, de habitações sem andar pro céu. De barulho, do meu sossego... Desconfio que a música nasceu dos sons da rua em harmonia com os sons da natureza. E no fim, no conflito, se encontrou a beleza, serena e inocente. Mas às vezes há uma lágrima que sufoca a voz na garganta e corta essa bela sinfonia. É quando se mostra a ironia. Ela não te deixa feia, mas tua beleza já não me parece mais tão inocente. É beleza madura. E tu vives e persistes.


Essa caolha encravou em ti como erva daninha em um 'baobá'. E agora tu pareces indissociável da fria desigualdade que corta a espinha dos que no teu chão se deitam para descansar (será que eles conseguem sonhar?). Tu, minha cidade, és parte responsável por meus olhos terem se aberto e eu não conseguir mais fechá-los. E é assim que nas tuas pontes vejo divisão, união e poesia. Nas tuas calçadas enrugadas vejo tema para minhas entrelinhas. Num filho teu do chão ou num filho teu do prédio de milhões, que assiste a esse espetáculo de uma das pontas singelas de tua versão de cidade antiga, vejo suplica para minhas frágeis revoluções textuais. Mas é também no teu pôr-do-sol, que assisto de uma de tuas pontes, do alto de minha janela ou no ônibus que te circula como sangue nas veias, que acordo pela segunda vez no dia e meu dia começa dourado e poético outra vez.


Decerto que tens, cidade minha, infinitas ironias que não cabem nas minhas palavras atropeladas. Mas nem por isso te amo menos, pois aprendi que o lugar que abriga a nós, aos que nos gostam e aos que gostamos é o lugar que estamos em paz, independente de onde seja, ou como seja. Até digo não ser fã do barulho, da fuligem e dos arranhacéus, não é mentira. Mas nessa rede caótica encontro paz nos meus dias e, já que sustentas meus olhos abertos, é também em ti que inflo meu coração de tema para os meus cordéis, na vontade que percebamos "quanta mudança podemos todos nós" a fim de consertar tuas ironias e te fazer sorrir um riso sereno todo dia. Sem talvez(es), sem dois lados da mesma calçada. A fim de te ver inteira.


Enquanto minha voz é baixa e não é chegada a hora do teu riso pleno, vou te fazendo poesias, tu vais dando bordado para minhas rimas às avessas e por ti prezo e peço para que melhores da tua ironia.

E, ainda uma vez, não pense que te renego. Pois é em ti que, por ser lugar meu, encontro o pão de todo dia, as pautas das minhas músicas, as letras que me alimentam, o amor nas entrelinhas, a nobreza de certos olhares, pano para meus pensamentos e melodias, o ensinamento que há nas saudades que sinto e paz para minha trilha. Tua magia penetra. Em ti acordo e digo bom dia. Em ti respiro ao pôr-do-sol. Em ti me aconchego e sob o luar desejo que 'durmam os medos teus' e que tu sonhes em paz.


Durma bem, cidade minha, e que possam sonhar todos os filhos teus.

Manuella Mirna

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Devaneios permitidos

Quarta à tarde. Aula de Teoria Literária. Pouco mais de trinta cabeças sedentas por arte, mas também por tudo que não fosse aula. Um homem distinto lá na frente disposto a falar tudo que sabia e um pouco mais. A teoria do dia não era a melhor de todas, não era melhor que práticas artísticas ou experiências a viver; naquele momento era só teoria, que só desabrocharia anos mais tarde no cotidiano encantado da língua em que escolhemos viver. Mas numa aula assim tudo que não é teoria é vida, é pensamento, é sentimento. Numa aula assim há a meta do assunto a cumprir contra um caminho misterioso e atraente a percorrer. Ficamos com os dois, mas certos dias gostamos mais do segundo. São devaneios permitidos pelas paredes respeitadas de uma sala de aula, devaneios a que nos permitimos por gosto a enxergar o algo a mais, as pequenas grandes coisas, os detalhes apagados pela correria do nosso olhar desatento, o brilho que há em cada coisa, em cada um, em cada...

E desconcentrada do todo, como criança, brinco com versos de mestres:
"o essencial é invisível aos olhos"...
mas muito nítido para o olhar.
porque entre tantas palavras belas eu escolho 'sodade', e ela se vê em meu olhar.
"gosto muito do pôr-do-sol, vamos ver um"...
mas se você não aparecer a tempo de vê-lo,
se meu pôr te parecer o nascer,
e meu nascer parecer futuro para ti,
não faz mal,
podemos ver então as estrelas e nos fazer lua para elas 'espiar'.
"se tu vens às três da tarde desde Às quatro começarei a ser feliz"...
mas se não é sensato falar em felicidade nesse mundo,
falo de algo assim mais sadio que ansiedade e mais pleno que alegria,
algo assim sem razão aparente;
razão: coisa que não existe no meu sonho, mas no dia prende meus pulos de criança.

E imersa de novo nas quatro paredes feitas de metas e artes, sou apenas uma entre as mentes que se permitem devaneios instigados pelo homem distinto lá da frente:
"adoro o som dos sinos e o som da máquina fotográfica, congelam o tempo"...
verdade, quando o sino bate seis horas, tudo que ocorre dentro das seis horas se congela, de alguma forma se imortaliza, de alguma forma se percebe a importância dessa hora, paramos sem perceber contemplando aquele momento de agora, aquela tempo que o som de um badalo insistente quis imortalizar e nos fazer dar valor não só para a importância daquele momento, mas para todos.
Verdade, quando a máquina faz 'clic', ela diz que guardou aquele momento para sempre. Como diz Quintana, os momentos são belos justamente por serem finitos, mas são tão belos que queremos tê-los para sempre de alguma forma e para sempre lembrar dos sorrisos e dos sentimentos que ilustram uma fotografia, que marcaram uma vida.
E sem saber bem porque me vem uma vontade humana de não perder esses momentos, de não deixar que eles passem sem que notemos suas ilustres presenças. Pois sem nossos mosaicos de momentos o que seria a vida? Nossa colcha seria vazia, e toda furada não nos acalentaria nos dias de frio. Porque sem percebermos são esses momentos, essas lembranças e essas pessoas das fotografias que nos protegem do frio dos nossos medos e se abrigam conosco das tempestades do caminho.

E entre outros, um devaneio final fecha nossa respeitosa permissão de aula de arte:
"as intervenções da arquitetura na cidade"
O homem distinto lá na frente disse essa frase ao contar uma história que aconteceu com ele. Um amigo seu, que fazia arquitetura na época, o fez observar como as luzes de um prédio se apagavam e se acendiam, o fez ver esse movimento e entender que arquitetura era mais que fazer prédio, era intervir na cidade e na percepção das coisas e o disse essa frase.
E me lembrei de como é bom ficar na varanda observando esse movimento, quase bobo, das luzes de um prédio ao longe. E agora senti também a saudade da saudade de uma pessoa que sente falta de olhar as luzes dos postes e dos carros à noite, o movimento das pessoas, o corre-corre de vidas tão cansadas, que acreditam por vezes estarem invisíveis. Ato quase banal, mas tão singelo, tão vivo. São vidas. São histórias. São pessoas e seus pensamentos, suas conversas, suas progressões de cena. É como contemplar o mundo respirando, se renovando a cada apagar de luzes para um novo acender em outro cômodo... nada será do mesmo jeito que foi de um apagar e acender há segundos trás. E aí, nada parece tão confortante quanto olhar para a vida de frente e assim percebermos que nossa vida vira obra de arte se quisermos vê-la assim, se quisermos perceber que para um outro, na varanda da sua casa, num ônibus, passando de noite pela cidade, somos focos de luz e história, momentos de vida e sossego para ele. Movimento, vida, poesia. Saudade.

E eu me pergunto: Devaneios?!
Não, doces verdades. Elas só pedem olhos atentos, olhos sensíveis, olhos que vejam o algo a mais da vida, olhos como os dessa pessoa que conseguiu me fazer sentir a saudade que ele sente de observar a vida de ângulos tão 'bobos', tão poéticos, tão vivos.

Manuella Mirna

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O peso de um "e se..." - abra suas janelas

"Querida Clair,
Eu não sei como a sua história terminou, mas se o que você sentia naquela época era amor verdadeiro, então nunca é tarde demais. Se era verdadeiro, então por que não seria agora? Você só precisa de coragem para seguir seu coração.'e' e 'se' são palavras que por si só não apresentam nenhuma ameaça, mas se colocadas juntas, lado a lado, elas têm o poder de nos assombrar a vida toda: 'e se...', 'e se...', 'e se...'
É difícil imaginar um amor como o de Julieta, um amor que nos faça abandonar entes queridos, que os faça cruzar oceanos. Mas eu gostaria de acreditar que se eu um dia sentir esse amor, terei coragem de persegui-lo. E Clair, se não o fez naquela época, espero que ainda o faça um dia.
Com todo amor, Julieta." retirado de cena do filme "Cartas para Julieta"

Começamos com uma carta. O tema? Amor. Sim. Aqui estamos nós de novo falando de amor, se é que é possível falar. E por que não? Este filme é definitivamente uma carta direto para o coração, porque não tem endereço mais apropriado e receptivo. A maioria das pessoas, no entanto, tem uma visão estreita sobre o amor ou sobre amar. Teimo em chamar atenção para que amemos, nos apaixonemos: por alguém, por um sonho, por uma causa, pelos dias, pelas estações ou por uma só, pelo ser, pela vida. Então, partindo do amor mais óbvio e apaixonante, mais popular e sentido, lá vai um exemplo do filme para ficarmos bem amolecidos:

Pedaço da cena em que ela está no balcão de Julieta refletindo e ele chega e sobe numa árvore para alcançá-la.
Ele: - [...] o mais importante é que só tem uma Sophie [...] Presta atenção, presta bastante atenção, eu moro em Londres, uma cidade histórica, linda e vibrante, na qual eu amo viver. E você em Nova York, que é super estimada [...] Como o Atlântico é largo demais para atravessar todos os dias a nado, de barco ou de avião, vamos decidir na moeda [...] Mas se você não quiser aceitar isso, eu deixo Londres com todo prazer se você estiver me esperando do outro lado. Porque a verdade, Sophie, é que eu te amo, loucamente, profundamente, verdadeiramente e apaixonadamente. [...]
Olhos e sorrisos falam mais que palavras e neste momento ele cai da árvore.
Ele: - Por favor, me diga que ninguém viu isso. Ela: - Ninguém viu. (mas todos olhando) Ele: - Que bom, é muito bom. Ela: - consegue se mexer? Ele: - só os meus lábios (eles se beijam).

Você deve estar pensando: "ela acredita mesmo em contos de fada!" Não, acredito no conto da vida. E realmente acredito na incrível capacidade de contistas que temos cada um de nós. Vejo isso nos contos de não-fada, nos contos da vida, de formas únicas e bonitas, às vezes até estranhas e engraçadas. Esse é apenas um exemplo hollywoodiano, mas que sai das telas para amolecer nossos corações e nos dizer para sermos roteiristas melhores das nossas histórias de amor. De amor sim, mas no sentido amplo da palavra, no sentido que não se esgota e toca todos os cantinhos e áreas das nossas vidas.
E aí, não só no cantinho mais restrito e popular de amor, mas em todos os cantinhos, é importante tentarmos evitar os 'e se...'. Pararmos de imaginar o que poderia acontecer e fazermos o que acreditamos ser certo, ser necessário; o que sentimos que devemos e queremos fazer. O poder de mudar o rumo das histórias vem de nós, da caneta que escreve as nossas páginas todos os dias, e as deixarmos sentir o peso de um ' e se...' é muito doloroso e desnecessário para o ser que pôde chegar na lua.
Para mim esse filme, como tantos outros, é só uma dica, que se resume em quebrarmos as barreiras que criamos; em corrermos atrás do que acreditamos e amamos, ou sabemos que podemos vir amar; em contornar algumas dificuldades, como a água faz; em derrubar as que precisam ser derrubadas, como os heróis fazem; em ousarmos mais e nos culparmos menos; em fazermos mais e calcularmos menos; em evitar nossos tão presentes 'e se...'.
Não é que devemos agir sem pensar. Não se trata de impulsividade, mas de coragem. De permitir a nós mesmos sair da redoma aparentemente segura e enxergar as possibilidades, provando para a vida que sabemos, ou mesmo tentamos, dar valor a ela e escrevemos direitinho seus capítulos.
E fazer isso pela simples razão de que quando decidimos dar vazão ao amor, abrir as portas para seus encantos, seus mistérios, suas lições, seus confortos... quando decidimos aplicar a maior capacidade humana, a de amar: pessoas e não pessoas, momentos e natureza, sonhos e ideais, atitudes e sociedade, a vida veste seu sentido pela raiz e se encarrega de trazer do inesperado as suas magias.

Manuella Mirna

Tua face, Minha face... na face do Mundo

Como um dia comum.
Como uma tarde dessas.
Sem uma razão convincente.
Somos uma face não tão boa de nós.
Perdemos o tato ou o olhar, meigo, atento.
Perdemos a audição ou a atenção, fiel, leal.
Nos perdemos do que somos nós.
Daquela face rara.
A melhor.
E tratamos com indiferença ou insensibilidade o diferente de nós.
Não melhor ou pior.
Mas diferente.
Tendência humana cega que encontra o erro só no oposto. Encontrando todas as razões para justificar a razão própria. E se desconhece o significado de "compreensão"... ou só de um pouco mais de humanidade.
Muitas vezes não se quer falar nisso.
Muitas vezes não se encontra ''tempo'' para pensar nisso.
Muitas vezes não encontramos oportunidades de agir assim.
Muitas vezes justificamos a nossa falta de vontade com qualquer uma dessas coisas.
Não se trata de incapacidade, ou predisposição genética; nem mesmo de maldade.
Não. É somente a nossa cegueira, pelo orgulho bobo e egocentrismo imaturo.
E quando nos recusamos a observar o que está na nossa frente, nos perdemos de nós mesmos, esquecemos do que somos, ou poderíamos ser; esquecemos o melhor que somos ou poderíamos ser.
Quando passamos pelas ruas, pelos momentos, pelas pessoas... sem tentar notar a necessidade dos olhares ou o brilho dos sorrisos, perdemos oportunidades de sermos a luz de alguém ou de deixar que alguém seja a nossa luz naquele dia.
Às vezes precisamos olhar para fora para então olharmos para dentro com maturidade. Às vezes precisamos enxergar o outro para nos enxergamos na proporção certa. Às vezes precisamos nos permitir, não tratar uns aos outros como lobos desconfiados, mas como aliados de um mesmo ideal. Por mais impossível que pareça, se começa dos próximos mais próximos.
Não é tão difícil. Às vezes basta um espelho iluminado pelo sol e inclinado na diagonal. Às vezes basta que se admita os próprios defeitos e limitações para compreender os dos outros. Que se pise no chão sem pedestais ou saltos de madeira. Que nos percamos de si... Sim, mas dos nossos medos, dos nossos entraves, dos nossos argumentos, dos nossos "nãos". Que se encare o próximo com humanidade, face a face. Que nos encaremos com maturidade, face a face.
Que entendamos que muitas vezes na tua face, está refletida a minha, e na minha face está a do mundo.
Olhe. E queira ver.

Manuella Mirna

sábado, 12 de fevereiro de 2011

... Sem se perder de si

...E enquanto agente deixa os sentimentos correrem à solta pelas horas, surgem PaLaVrAs ao VeNtO:

...Não mude a essência mais bela de você por medo de encarar o novo,
o inesperado,
algo com o qual você não imaginava se deparar,
sendo bom ou ruim.

Não tema qualquer novo sentimento,
nova situação,
nova pessoa,
novo problema,
nova oportunidade,
novos caminhos a trilhar.

Lembre-se que acima de tudo isso há você,
com seu mais íntimo jeito de sorrir pra vida.
Não esqueça isso,
nunca.

Muitas vezes,
o novo,
com o qual você tem medo de lidar,
é muito melhor do que você imagina,
sendo bom ou ruim,
tem consequências mágicas,
inesperadas e edificantes.

Do lado de lá do rio,
que parece medonho vendo de cá,
existem coisas que você precisa tanto.

Mas só vai saber disso depois que estiver lá,
depois de você ter passado por toda a imensidão de águas desconhecidas.

Aí então descobrirá que não pode mais viver sem essa nova verdade.

Mas não esqueça de você,
de quem você é,
de como você sorri tão feliz,
do quanto você faz rir,
do olhar que sonda aos outros e a vida com discrição e intimidade,
com entusiasmo e novidade.

Mude,
mas não seja outra pessoa que não você mesmo,
de quem tanto outros precisam,
de quem tanto você mesmo precisa,
para que jamais esqueça seus valores e seu próprio valor.

Mude os defeitos,
porque ''para vencer as trevas lá fora você tem que vencê-las dentro de si mesmo''.
Mas não mude sua essência,
porque o mundo precisa das particularidades que só você tem.

... Viva... Sinta... Queira... Mude... sem jamais se perder de si!

Manuella Mirna

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Trechos de uma história real - olhe em volta

"Há um ano atrás eu conheci um homem que estava numa maré de azar e achei que poderia ajudá-lo. Não sei se ajudei. Sim, agora meu amigo Sr. Ayers tem um teto. Ele tem uma chave. Tem uma cama. Mas sua condição mental e seu bem-estar são tão precários atualmente quanto no dia em que nos conhecemos. Há quem diga que eu o ajudei. Especialistas em saúde mental dizem que o simples fato de ser amigo de alguém pode mudar a qualidade de seu cérebro, melhorar sua funcionalidade com o mundo. Não sei se foi o caso do Sr. Ayers. Talvez nossa amizade o tenha ajudado. Talvez não. Eu posso, entretanto, falar por mim. Posso afirmar que ao testemunhar a coragem do Sr. Ayers, sua humildade, sua fé no poder de sua arte, aprendi a dignidade de ser leal a algo que você acredita. E acima de tudo, manter tudo isso, se prender ao que se gosta, acreditando, sem dúvida, que isso o levará para casa." Fala final do Sr. Lopez no filme "O Solista"

No dia a dia das grandes cidades, como Los Angeles ou mesmo como uma Recife, imersos no caos de fumaça e barulho que nos rodeia, tapamos nossa visão aos detalhes, aos olhares, aos anônimos das ruas, dos ônibus ou dos metrôs. Simplesmente e, muitas vezes, sem perceber nos fechamos aos nossos semelhantes, às diversas histórias que cabem em cada ser do nosso mundo. Tentando apenas sobreviver a mais um dia, resolver nossas questões, dissolver nossos problemas, a maioria de nós se tranca numa bolha individual que nos deixa impermeáveis ao mundo, às pessoas e aos dramas delas. Quando alguém, um simples homem, sem nenhuma capacidade ou dom de outro mundo, decide sair da sua bolha e enxergar o próximo, o meio que o rodeia, ele pode mudar muitas coisas e de um pequeno núcleo fazer essa mudança irradiar para influências maiores, fazer com que menos uma história seja inteiramente triste.
Sr. Lopez, um jornalista americano de Los Angeles, segundo mostra o filme, baseado em fatos reais, é o tipo de cara que tenta extrair dos dias os detalhes, os trechos do cotidiano que inspiram instigantes matérias na sua coluna. Em um dia qualquer, em mais uma tentativa de se inserir no mundo de forma mais convicente, ele se dapara com o Sr. Ayers, um morador de rua com um admirável talento para música e uma singular sensibilidade para ver as pequenas coisas. Ele, no entanto, tinha uma mente frágil que o fazia passar por louco. Não acho que chegava a tanto, mas uma mente saudável era tudo que ele não tinha. Essa condição o impedia de fazer progredir sua vida.
Sr. Lopez achou neste homem o tipo de história que ele procurava naquele momento, do tipo que não podia passar em branco, além de uma oportunidade para inserir Sr. Ayers de volta ao mundo dos homens sãos. Mas o que ele pensou ser apenas mais um forte relato de vida e uma ajuda casual, uma lição para seus leitores, na verdade, de modo mais completo, complicado e sensível passou a fazer parte da história dele próprio. Não que todas as outras histórias que ele contasse não tivesse relação na sua própria. Só que a do Sr. Ayers, de alguma forma, tocou mais esse jornalista e fez com que a vida dele nunca mais fosse a mesma.
Me parece que o Sr. Lopez, como um típico homem urbanamente ocupado, costumava deixar as histórias de vidas que ele contava em algum lugar que não estivesse tão próximo a ele, para não ter maiores envolvimentos. Sem julgamentos, pois cada um que tenta se resguardar em sua própria vida vê uma razão nisso, embora não seja, vendo com um pouco mais de sensibilidade, tão belo assim. Com a história de vida do Sr. Ayers, contudo, seu senso humanamente solidário não o permitiu se afastar e largar mão de alguém que precisava de ajuda. Foi assim que um típico homem urbano, querendo ajudar alguém de alguma forma permanente ou eficaz, se envolveu profundamente com a vida intrigante de um pobre desconhecido.
Mesmo assim, Sr. Lopez não conseguiu tudo que pretendia. Sr. Ayers não foi um músico famoso. Não se curou mentalmente. Não passou a levar uma vida com responsabilidades e progressos como qualquer outra. Mas tenho certeza de que ele é mais feliz hoje. Tenho certeza de que em algum lugar de sua mente obscura a vida passou a gritar em mais cores, passou a ser melhor elaborada para ele, a música foi mais bem satisfeita e seu coração tornou-se mais vivo.
Com esses trechos de uma história real que relato para vocês agora, não posso deixar de perceber o poder que cada um de nós tem. A influência positiva que podemos ser para pessoas até então anônimas para nós. Algumas não precisam palavras, apenas um gesto gentil ou um sorriso ou um olhar atento. Outras apenas precisam de uma palavra cortês, algo que as faça se sentir parte de um grupo ou simplesmente visíveis. Decerto, como apareceu para o Sr. Lopez, há aquelas que precisam de algo mais: um gesto amigo, um sorriso, um ouvido atento, um olhar atento; mãos firmes, prontas para doar o que se puder; uma palavra, duas palavras, várias palavras que as mantenham firmes, fazendo parte do mundo, tentando fazer parte de si mesmos.
E assim, como se fosse a primeira vez que você pensou nisso, vire-se um pouco de lado, enxergue ao redor, estenda os olhos, os ouvidos e as mãos, seja alguém que faz um mundo melhor apartir de seu próprio mundo. Seja, como diz nosso amigo Gandhi, a mudança que espera no mundo. Saia da sua bolha, os que tiverem uma, e enfrentem a luz do dia lá fora como se ela te desse um tal poder, como se por isso você tivesse que tornar outras pessoas maiores do que elas pensam ser. Não é questão de ser missionário, o Sr. Lopez não é um, ele é apenas um homem comum, que no seu dia a dia comum, encontrou alguém que precisava de ajuda, e assim ele fez, o ajudou. Pelo menos assim pensou estar fazendo. Mas no final das contas, o que ele percebeu com um doce espanto foi que o beneficiado tinha sido ele. Todo o envolvimento dele em uma vida tão complicada e abandonada como a do Sr. Ayers, despertou esse nobre jornalista para coisas da vida que nos esquecemos de observar no dia a dia, coisas que um morador de rua discriminado de diversas formas consegue perceber: como a humildade em dar ou receber ajuda, a simplicidade de dar valor às pequenas coisas e não aos muitos títulos e pompas do mundo; como a dignidade que há em ser leal àquilo que acreditamos, podendo ser desde um tipo de arte ou profissão até princípios e pensamentos subestimados pela sociedade; como a fé no poder de algo que nós amamos, acreditando que isso não só abre os mais belos e íntimos caminhos da alma, mas também oportunidades valiosas na vida. Porque quando fazemos algo com carinho, quando investimos tempo a algo ou alguém com dedicação, quando procuramos olhar ao redor, sair dos nossos pedestais e ir atrás do outro ou de algo que te faça sentir-se melhor... Isso, tudo isso, abre caminhos que o olhar estreito de uma humanidade egoísta não consegue entrever.

"O Sr. Ayers ainda mora no apartamento. É membro do Lamp (Abrigo para moradores de rua). E continua a tocar violoncelo, violino, contrabaixo, piano, violão, trompete, trompa, bateria e gaita. O Sr. Lopez continua a escrever sua coluna para o Los Angeles Times. Ele está aprendendo a tocar violão. Há 90 mil sem teto nas ruas da Grande Los Angeles." frase final do filme

... Por uma última reflexão, já que falamos em números reais:
O Brasil tem aproximadamente 1.8 milhão de moradores de rua. No Grande Recife, no entanto, como em praticamente todas as regiões metropolitanas, é complicadíssimo estimar uma quantidade. A triste verdade é que por conta de não terem domicílio fixo, os moradores de rua são "cidadãos invisíveis", excluídos do universo ''visível'' que é pesquisado nos censos oficiais. Dessa forma, a falta de informações dificulta as ações de governo nessa área. Aqui em Recife, o governo iniciou estudos na área, mas, infelizmente, não se vê muita ação afirmativa no dia a dia da cidade.
Bem, acho que essa última ressalva com certeza diz alguma coisa que não se pode deixar passar. A questão é: você, eu, todos nós, podemos, nas pequenas ações ou no simples ato de dedicar tempo e/ou atenção para as muitas versões de ''pessoas invisíveis'', como fez o Sr. Lopez, mudar a situação de alguém, quer seja material, espiritual ou mental. Sei que não parece possível fazer tudo o que o Sr. Lopez fez em uma determinada história que ele presenciou por todos que você vê. Sei que é difícil conseguir entrar no mundo de ''invisíveis'' como o Sr. Ayers, mas na verdade esse caso de um morador de rua serve de ilustração para vários outros tipos de pessoas que precisam ser vistas, pobres ou não. Sei que não temos super poderes de transformar a vida de todos os ''invisíveis'' em uma perfeição, até porque a de ninguém é perfeita, cada um carrega sua história. Mas sei também que o mínimo que se faz é válido, pois um pequeno e tímido feixe de luz causa um belo efeito no meio da compelta escuridão.

Manuella Mirna

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Minha Narnia, sua Narnia

As Crônicas de Narnia (The Chronicles of Narnia), divididas em sete, formam um clássico livro enquadrado como infantil, o qual deu origem aos filmes da série assistidos nos cinemas desde 2005. Eu estava assistindo o segundo, um dia desses, quando então percebi que ele era mais que uma aventura para distração da criançada. Percebi que Narnia é mais que um reino lendário da fantasia de algum autor viajado. Percebi que as muitas batalhas vividas nas crônicas não são meros jogos de ação narrativa para ludibriar. Percebi que Susan, Peter, Edmund e Lucy podem ser eu, você ou qualquer um. Foi então que lembrei que todo conto de fada, toda historinha contada na infância, toda fantasia, fábula ou qualquer outra história que não pareça deste mundo é na verdade um reflexo do nosso mundo, da nossa gente, dos nossos dramas, medos, maldades e virtudes e, principalmente, um espelho do que devemos ser ou fazer para ser humanos melhores. Com As Crônicas de Narnia não é diferente, tudo nelas pode ter um reflexo em nós, em nossas vidas.
No final do segundo filme consegui enxergar assim. Alguns dizem que Narnia é como se fosse uma espécie de céu ou purgatório, eu não posso dizer nada ao certo, mas posso também colocar minha visão e cada um, como eu, compreender a seu modo. No final daquele filme Peter e Susan não precisarão mais voltar a Narnia, já aprenderam tudo que lá deviam, já estão prontos para de forma única e mais madura enfrentar o mundo dos humanos, uma ilha perdida na qual se encontra uma caverna contendo uma rara fenda que leva a Narnia. Passei então a ver Narnia como um mundo que alguns, marinheiros errantes, aventureiros e corajosos o suficiente para explorar a vida, podem aprender coisas que o dia a dia dos humanos acomodados não permite aprender. Como um lugar em que você é mais do que sempre pensou ser, onde você pode se experimentar, ver suas capacidades com mais clareza do que na prisão do cotidiano, ver que seu potencial é bem maior do que supõe e cabe a você descobri-lo para o mal ou para o bem. Fazendo a escolha certa você irá se testar, passar por dificuldades, obstáculos inimagináveis que o ajudarão a ser mais corajoso, humilde, justo, resistente, gentil, esperançoso, perspicaz.
'Acontece', alguns dirão, 'que não existe uma fenda numa caverna por onde eu possa adentrar e me aventurar num mundo que me deixará melhor, isso não existe!' Aí então eu responderei dizendo que a eles falta um pouco de boa vontade para enxergar as coisas de um outro jeito, não mentiroso, mas diferente. Pois Narnia não precisa ser fisicamente um outro lugar, mas pode ser um outro mundo dentro deste em que vivemos. Podemos tratar o nosso mundo como essa experiência narniana que nos permite ser humanos melhores. Podemos ver as batalhas como as dificuldades encontradas de várias formas no cotidiano. Podemos ver os majestosos reis e rainhas como nós mesmos, crianças errantes, que em busca de um mundo melhor, em busca de perpectivas melhores em suas vidas se aventuram nela todos os dias procurando maneiras de aprender coisas novas, enxergando pessoas e experiências que as façam ser diferentes, apenas modos de fazer algo diferente apartir na renovação delas mesmas. Podemos ver um livro ou filme infantil como um reflexo do nosso mundo sacal, das maldades humanas, dos dramas vividos e um espelho do que podemos ser se quisermos enxergar a vida como a melhor aventura, um espelho onde possamos entrever o que devemos fazer para sermos mais do que agora.
E assim, com cada um dos reis e rainhas, com cada um dos personagens dessa 'fantasia' se aprendem valores, virtudes que deveríamos ser mais atentos e obstinados em adquirir.
Com Lucy aprendemos a ser mais esperançosos, a perceber que acreditar não é viver de ilusão, mas crer em novas possibilidades, crer que os obstáculos são menores do que parecem, que somos maiores do que os outros supõe. E crendo mais fazemos mais, clareamos nossa mente para ver outros caminhos. Com ela aprendemos também a ser destemidos, superando as espectativas quando tudo o que os outros pensam é que você seria a primeira a se machucar naquele caos, passando até serenidade e doçura tanto nos bons quanto nos maus momentos.
Com Susan aprendemos que o ceticismo tem duas faces: a primeira nos mantém vendo a realidade e isso é bom, pois dela não podemos fugir, temos que enxergar as coisas com senso de realidade para não ser covardes; a segunda, no entanto, nos mostra o perigo de ser descrente ao extremo, pois isso pode também manter fincados os nossos pés no chão, não só sobrepostos, o que impede-nos de alçar voos maiores para ver as coisas de uma outra perspectiva, para achar caminhos que a realidade fincada, o ceticismo, fica cega para ver. Com ela aprendemos principalmente a ser gentis e servir e auxiliar não só nossos amados irmãos de sangue, mas também aqueles desconhecidos que se tornam nossos irmãos se assim o quisermos ver, oferecendo um chamado amigo sempre.
Com Edmund vemos que o egoísmo e a soberba, quando se apresentam em nós, nos faz se distanciar de quem e do que prezamos, nos faz sentir o gosto amargo da solidão e a dor de ter esmagado alguns para satisfazer o nosso ego. Mesmo assim, ele nos mostra que nunca é tarde para voltar atrás e provar que o amor e a amizade são mais importantes, porque ficamos mais fortes quando temos a segurança e o amor dos que nos amam. Com ele aprendemos principalmente a ser justos e verdadeiros, usando da imparcialidade e da capacidade de se colocar no lugar do outro, premissas para quem pretende a justiça.
Com Peter entendemos que o orgulho, quando aparece em nós, pode nos fazer ir por um caminho mais longo e tortuoso. Mas com ele aprendemos principalmente que o amor por um idéia, o amor por um povo, o amor pelo bem e pela paz nos faz alcançar vitórias ditas impossíveis. Nos faz esquecer o orgulho por uma causa maior, por um bem maior, nos faz pensar no bem-estar do outro para depois pensarmos em nossas temperanças, nos faz ser mais apaixonados pela vida e mais corajosos para lutar pelo que acreditamos.
E agora, por mais que pareça bobo falar de um leão, tente o exercício de ver além. Assim, Aslam para mim ilustra que mesmo quando tudo parece sombrio, perdido, sem jeito; mesmo quando quando tudo parece não passar da mais dura das realidades, sempre há alguém que olha por nós, que olha nossos passos, orienta intuitivamente ou diretamente, e estará lá quando chegarmos onde precisamos. Ele não vai fazer o serviço por nós, não vai lutar as nossas batalhas por nós, vai deixar que nós saibamos dar os próprios passos, que lutemos com as armas dadas por ele e as armas decobertas por nós mesmos, como a coragem e a esperança. Ele irá orientar para que colhamos nossos frutos por mérito de esforço próprio. Mas ele está ali, em algum lugar, nos cuidando, nos olhando, torcendo por nós e esperando que cheguemos até ele. Ele para mim tem um nome, para você pode ter um outro, pode ser uma energia superior, pode ser nada, mas não se pode negar que sente-se sua existência, em algum lugar, aqui dentro.
Então, quando conseguimos sair da acomodação do dia a dia, dos padrões do que é adulto ou infantil, das normas às vezes sem sentido da sociedade, dos nossos egos, medos e amargor, conseguimos ver em cada coisa uma oportunidade de nos ver e de crescer. Conseguimos ver a vida como uma escola, conseguimos nos tornar mais justos, corajosos, gentis e esperançosos. Conseguimos perceber que uma 'fantasia' pode retratar uma realidade, tudo depende do ponto de vista, e o que parecia ser algo, na verdade pode ser uma outra coisa. Não se trata de sermos imaginativos e criarmos um mundo particular que não existe. Se trata de saber viver, de ver em três dimensões de fato, de explorar todos os aspectos que a vida tem e vê-la como ela realmente é, ver-nos como somos e como podemos ser. Se trata de tirar da vida tudo que ela pode nos dar, de enxergar mais além de um quadro ou do seu umbigo e, assim, conseguir entender porque que ela, a vida, pode ser a minha Narnia, a sua Narnia.
Então, 'por Narnia': pela sua vida, por você, por como as coisas devem ser, pelo que podemos ser, pelas pessoas que acreditam em nós e esperam que acreditemos nelas, pelas causas ditas perdidas, pela esperança impraticada, pela coragem desacreditada, pela gentileza quase extinta, pela justiça chacoteada, pelo amor que nos faz valer a pena lutar por essas causas e pelas pessoas sempre que o sol ou a lua se apresentarem, por tudo isso e por tudo que ainda acreditas, viva melhor, seja melhor, todos os dias.

Manuella Mirna

domingo, 26 de dezembro de 2010

... e Isso É Natal

Era dia 24 de dezembro de 2010, quando voltava para casa para me preparar para a ceia e de uma das pontes da cidade avistei uma minúscula parte do mundo, do nosso mundo.
Era pôr do sol e além de toda cor que havia do céu sobre as pessoas, havia algo mais, uma magia, uma ternura no ar, um sonho, vários sonhos...
Pensei sobre aquilo e percebi que aquele ar abraçava a todos, era parte da paisagem, era parte da janela de quem via, era parte da respiração das pessoas e parte do sentimento de quem era capaz de sentir o que há de verdade em dias assim.
Percebi que assim como o Sol nasce para todos, aquele ar, aquela magia, aquela sensação se colocava a disposição do mundo, em dias como aquele, em dias que podem ser todos os dias, se assim quisermos.
Pensei um minuto nas pessoas, nas suas vidas e quantas histórias diferentes, umas boas outras não tão boas, o vento compartilhava em silêncio, trazia um pouco da magia própria, mas levava em troca um pouca da vida de quem ele via.
Pensei em quantas pessoas estavam sentindo a mesma coisa que eu, pensei em quantas pessoas não conseguiam sentir isso, por diversos motivos.
Pensei nos que têm cegueira mesmo às claras e são indiferentes à vida, aqueles que não permitem ser tocados pelas magias do mundo, pelas sensações de momentos mágicos que podemos fazer durar o ano inteiro.
Pensei nos que não alcançam a importância de dias assim, que não se importam, que estão ocupados demais com outras coisas, que não acreditam em ninguém e nada além de si, do que vêem, do que ganham, do que têm.
Pensei nos que de tantas dores e tantas privações não mais conseguem se encantar, se permitir à mudança pela apreciação, pela conexão com um dia especial que traz uma mensagem subliminar.
Pensando em diversos tipos de pessoas, em tipos de vida, em todas as vidas que o vento devia ver num pavor mudo ou num entusiasmo contido, percebi o quanto é difícil universalizar um sentimento, uma lembrança, uma mudança.
E refleti que diante de um quadro assim deve ser bem mais fácil ficar triste, não acreditar, se acomodar ou fingir nada ver.
Mas lembrei que pensar assim é invalidar toda positividade, carinho e solidariedade que, no meio de todo esse aparente caos, continua ativa e operante no mundo e quantas boas ações assim ainda pretendem se instalar.
E por isso pensei no desperdício que é colocar sonhos à deriva, amor à deriva, fatos bons à deriva por um punhado de realidade ainda necessitada de reformas.
Porque, afinal de contas, sempre existiu e existe dois quadros num mesmo quadro, e se nos focamos só em um, que grita mais ao nosso desespero humano, perdemos os encantos e motivações de mudança que o outro quadro pode nos dar, nos levando inclusive a pintar por cima daquele horror uma bela imagem reformada.
E assim pensei no poder que esse dia tem de colocar à disposição de todos um mesmo ideal e influenciar a maioria acerca dele.
Porque embora não sejam todos que pensem realmente nele, são todos que o recebem, e a maioria que o abraça, deixando entrar a magia em seus corações, em seus lares, em suas vidas, renovando a esperança e a mudança por mais um ano.
E sei que é dessa forma que vai se pintando por cima do horror uma imagem mais bonita, reformada, uma vontade inerte em todos, uma realidade necessária para todos.

E isso é Natal: toda aquela sensação que ví da ponte, toda ela que se dispõe às pessoas, toda ela que apela por mudanças no mais íntimo de cada um;
todos os sorrisos que devem haver dos mais escondidos cantinhos aos mais altos edifícios;
todas as lágrimas que sentem-se agora confortadas por esperança, por solidariedade, por amor de qualquer forma que seja;
todas as histórias que há numa fila de supermercado á procura de um tender às 20 horas da noite de 24 de dezembro;
todas as felicitações que desejamos dos nossos familiares aos mais desconhecidos ambulantes na rua, num desejo consciente ou inconsciente, mas intrínseco, de que eles realmente encontrem a melhor forma de serem felizes;
todas as luzes na cidade que prefiro acreditar que custam mais que milhões de watts, custam sonhos que se inspiram ao ver tanta luz ao seu redor, sorrisos que se abrem de encanto quando a vontade é de chorar, esperanças que se acendem nos planos frustrados, porque várias lâmpadas acesas não podem apenas iluminar a cidade, mas conseguem acalentar nosso coração;
todo o esforço de cada um em se ligar a família que, embora maquinal algumas vezes, é uma tentativa do mundo todo ano de fazer com que um olhe nos olhos do outro, com que um pense no outro na hora de comprar um presentinho ou na hora de escrever um cartão, fazer com que se juntem mãos amigas, às vezes o ano inteiro longe, para servir à mesa, para lavar os pratos, para dar um abraço.

Uma tentativa que não cansa de tentar fazer as pessoas acreditarem a todo custo, a todo caus, a todo vapor de vidas cada dia mais ocupadas de que o amor existe, a paz pode existir, o bem existe, a esperança existe, os amigos são importantes, as famílias são fundamentais, o sorriso move montanhas, a solidariedade é possível, o bom exemplo pega, a mudança é necessária, a reflexão é bem vinda e que alguém a 2010 anos atrás veio nos demonstrar tudo isso e muito mais na doce vontade que dessemos as mãos aos estranhos e aos irmãos e nos amássemos.

E isso é Natal! Hora de lembrar que isso é o que tem valor.
Papai Noel é bom enquanto somos crianças e enquanto vemos filmes bonitos de Natal, mas ele não é o centro das atenções nessa época, pelo menos não deve ser, os presentes que sua imagem nos leva a dar também não devem ser.
Se é difícil ele ser esquecido, então o lembremos por suas virtudes, esqueçamos o consumismo e o lucro que sua imagem entrelinhas carrega e sobretudo lembremos mais do real homenageado da noite.
Assim, junto com os presentes que daremos por lembranças sim a quem nós temos apreço, ofertemos um pouco da solidariedade que ele nos inspira e da sua doçura, porque isso não só nos ensina ele, mas principalmente o aniversariante da noite de Natal.
Ontem, hoje, amanhã, depois de amanhã... o ano inteiro, tenha um bom Natal, porque todo dia é dia de renascer, de renovar-se, de fazer os outros acreditarem que tudo pode ser melhor, fazendo as coisas serem melhores começando por nós, mostrando que é tempo de dar as mãos, de desatar os corações, de abrir os olhos e não fechar diante de alguém e de sua súplica ou de seu sorriso.
Comprimente o mundo, acorde para si mesmo todos os dias e mostre para toda essa magia que vale o esforço de ela colocar-se a disposição em épocas assim, para que sejamos um pouco mágicos, um pouco melhores, um pouco mais apaixonados, para que nos lembremos de que apenas devemos ser um pouco mais humanos.

E um Feliz Natal a todos, todos os dias!

Manuella Mirna

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Versões (Mais do Mesmo)

Sentimos, pensamos, falamos, agimos.

Vemos, ouvimos, reproduzimos.

Entendemos, não entendemos.

Tiramos conclusões.

Versões. Mais interpretações da mesma coisa a todo tempo.

Todos os dias convivemos com as propriedades de um mundo que é novo a cada novo olhar, é diferente a cada nova intenção. Mas é o mesmo, o mesmo ar meu é o ar seu e o oceano é nosso, é de todos. Assim corre a mesmice de uma terra que se reinventa a cada pessoa. Sábia é ela que se dá a chance de novas faces, de flexibilidade, de novas idéias e novos sentimentos. Sábio de nós se soubermos, a cada dia, enxergar as coisas a nosso modo, mas respeitar os outros diversos modos que uma mesma coisa pode ser vista; se soubermos, como o mundo, ser multifacetados, nos dar a oportunidade de ter novas versões a cada nova situação, de nos reinventar e descobrir, talvez, um novo lado oculto e saudável de nós mesmos; se soubermos discernir a melhor opção, o que não passa de farsas do que é realmente uma boa face.
No entanto, há um perigo na multiplicidade das coisas que é praticamente tão presente quanto o saldo positivo disso. Porque o homem tem tanto a capacidade de enxergar coisas boas quanto as más. Geralmente, por interesses próprios ele tende a ver primeiramente o pior lado e muitas vezes inventar a pior versão. Quando ele consegue entender que ninguém vive só, que ele não está fadado a uma única alternativa na vida ou a um único 'eu' de si mesmo e que o "essencial é invisível aos olhos", ele vê melhor, vê aquele lado, entende aquela versão, sonda aquela face aparentemente discreta e desimportante, mas que com interesse se torna a melhor versão, sua ou de outrem, pois sempre existe um novo, talvez melhor, jeito de ver as coisas, de ver aos outros, de se ver.
Não é ingenuidade tentar ser amiga das versões e enxergá-las belas. Ingenuidade é insistir em algo ou em alguém ou numa visão que não tem mais alternativas, não tem perspectivas melhores, não mostra sorrisos para você, só dores que você escolheu sentir por não abrir mão de uma idéia, de um sentimento, de uma atitude caduca.
Assim, ver outras opções não implica não ver a realidade e sermos 'dom quixotes' vulgares, o que acontece é que a realidade pode ser mais agradável do que você a enxerga. Pois não significa que a forma que você vê as coisas seja a verdade absoluta, muitas vezes vemos pior ou melhor do que é, dificilmente vemos como é. A diferença de níveis de percepção, no entanto, é importante para posteriromente aprendermos com os extremos. Só que podemos entender de uma forma mais equilibrada sem ter que passar por esses extremos tão intensamente, podemos mudar de opção quando percebemos a bancarrota de uma, podemos nos encorajar em seguir novos rumos quando o desgaste já tomou conta de uma versão antiga.
O mundo é fênix, somos fênix. O mundo tem muito mais caminhos do que imaginamos, há muito mais formas de olhar a vida que somente da sua janela, há outras janelas, há outros olhares. Você tem muito mais possibilidades de criação que supõe, você tem muito mais capacidades do que um dia já contabilizou, há sempre um novo 'eu' em 'nós'. A vida não perderá a essência por ter outras possibilidades, as pessoas não perderão a essência por terem outras faces de si mesmo, continua vida, continuamos nós. Um rio não deixa de ser o rio com suas curvas sinuosas, suas árvores misteriosas, seus ciclos mais singulares só porque uma chuva caiu e ele foi obrigado a abrir um caminho pela floresta para escoar sua água ou a cortar algumas árvores para adaptar as águas.
As versões são necessárias, várias delas, de muitos outros além de você. Não teríamos uma vida tão malandra de experiências, tão esperta de oportunidades, tão inocente por espectativas se não fosse os muitos olhares tão particulares e elaborados acerca da vida e das pessoas. Por isso, não tenha medo ou acomodação de encarar o novo, um novo sentimento, uma nova idéia, uma nova atitude, porque muito há dentro de uma mesma esfera, muitas são as possibilidades, muitas são as formas, pois muitos são os olhares. Encare as versões, encare o que a vida ainda pode dar, o que os outros podem ser sem você ainda saber, encare as faces que você tem sem perceber. Sempre vai haver uma maneira ao mesmo tempo realista e mágica de ver a vida, então reinvente e chegue a melhor versão de ser feliz.

Manuella Mirna

domingo, 28 de novembro de 2010

... e então...

Muitas vezes nos preocupamos com tudo, tudo o que merece importância de menos.
Muitas vezes pensamos demais em certas coisas, certas coisas que sequer merecem nossos pensamentos.
Muitas vezes sentimos coisas lindas por alguém, alguém que não vale tanto sentimento.
Muitas vezes falamos muito, muito que não precisa ser falado.
Muitas vezes ouvimos de tudo, de tudo que é descartável.

E então tem épocas de nossa vida que todas essas muitas vezes se tornam poucas, tão poucas vezes; ou simplesmente são vezes que já não nos causam mal, não nos ferem ou entorpecem.
E então nessas épocas, quando subimos degraus de nós mesmos, não necessitamos de muito, não nos falta muito, não nos dói a ausência.
E então não nos preocupamos com tudo, porque entendemos que não é tão importante assim quando um dia achamos. Não pensamos demais, porque entendemos que não são necessários tantos pensamentos. Não sentimos certas coisas, porque entendemos que aquele alguém não era tão especial assim. Não falamos muito, porque entendemos que não precisam tantas palavras. Não ouvimos de tudo, porque entendemos o que é importante.
E então certos pensamentos não incomodam, certos sentimentos não tem espaço, certas palavras não precisam ser ditas ou ouvidas.

É quando o momento está pleno, você está em paz, por dentro.
É quando pode estar um caos lá fora, mas você encontrou o silêncio amigo em si, a sensação de um nada que é tudo, que preenche aquilo que faltava, que um dia você julgou precisar tanto.
É quando você entende que é inteiro, que nasceu inteiro e que tudo que vier não vai te arrancar pedaços ou te completar. Pois as coisas ruins vão passar por você e se irão, e as coisas boas somarão a você, como risos a mais, momentos especiais a mais, pessoas únicas a mais. E todas essas coisas farão uma sólida soma a sua vida, a vida que estava inteira, mas que sabia que muita coisa especial ainda viria para fazer soar um acorde maior mais bonito, mais harmônico, mais feliz.

Muitas vezes acontecem... E então você entende,... É quando você descobre a vida completa, apesar do tudo que ainda virá, porque você vive e ama o tudo e o nada que há agora, seja alegre ou triste, é vida, é a sua vida... viva.

Manuella Mirna

sábado, 27 de novembro de 2010

O Pai e sua dor e O Trabalhador

Semana passada, a caminho de algum lugar, aconteceu uma cena comum a todos dentro de um ônibus numa cidade. Mas um detalhe me tocou em especial e quis dividir com vocês:
Entrou um homem pela parte de trás, aparentava entre 40-50 anos. Ele andava vestido muito simples, com um chapéu surrado, uma mochila e vários papéis na mão escritos à caneta relatando um fato não muito raro. O papel contava que seu filho precisou fazer uma cirurgia muito séria e muito cara, dizia o preço e em que parcela eles estavam, mas que agora ele precisava fazer uma segunda cirurgia ainda mais séria e ainda mais cara e eles, com muito esforço pagando a primeira, não tinham condições de arcar com ela. Ele pedia ajuda, qualquer que fosse, de qualquer quantia. Havia naquele momento unas 30 pessoas no ônibus... acho que não chegou a 5 as pessoas que o ajudaram com alguma quantia. Algo nele chamou minha atenção: seu silêncio. Ele entrou calado no ônibus, sem falatórios apelativos de uma história que as vezes nos custa a acreditar, e calado saiu. A única coisa que falava nele era o olhar: tinha uma dor longe, uma humildade a custa de duras penas e um desespero controlado pelas mãos atadas. Ele desceu.
Pouco depois subiu um outro homem, com seus 20-30 anos, vestido simples também e nas mãos uma caixa de bombons. Mas esse não aparentava dor, só vida, lutando por ela como um bom ser humano faz todos os dias. E esse não tinha o silêncio com ele. O que ficou claro ao dizer que emprego era difícil, mas trabalho tinha quem quer e obviamente se ele estava lá é porque ele queria e por isso pedia contribuição para seu trabalho com a venda dos bombons. Neste momento havia unas 35 pessoas no ônubus e pouco mais de 10 compraram seu trabalho. Ele saiu aparentemente satisfeito, pelo menos bem mais que o pai que carregava uma dor.
É verdade, provavelmente ele quer trabalho e merece reconhecimento e estímulo, como todos que saem das suas casas todos os dias, em melhores ou piores condições, e mostram pra vida que têm fibra e lutam ao sol por seu lugar, ou por um lugar melhor. Depois ouvi passageiros comentando a decência desse homem que queria algo com a vida. E eu concordo. Mas o que me chocou foi o silêncio, talvez omissão, com o outro homem. Não houve comentários. As ajudas também não foram estimulantes. Me pareceu um belo quadro de falta de confiança e de sensibilidade numa sociedade que só consegue creditar decência à pessoas que vendem algo, que têm algo a barganhar com eles, que têm algum resultado a mostrar, que têm como aparentemente provar que não são à toa na vida. Um quadro em que, pelo menos para mim, estava clara a indiferença a um problema que podia ser de qualquer um, mas como não era, não parecia ser verdade. Não quero julgar ninguém, nem quem é o bom ou o mau, muito menos se o pai tinha uma real dor ou era inventada, muito menos se o outro homem tinha mais decência que ele. Não quero e nem posso fazer isso. Mas queria muito que refletíssemos sobre que tipo de sociedade somos nós, em quantas coisas não depositamos uma chance de ser verdade, quantas vezes perdemos a oportunidde de sermos últil, de dizer para desconhecidos, sem usar as palavras, que fazemos parte do mesmo oceano que eles e que eles não estão sozinhos. Que não é só com produtos e resultados que nos importamos, mas com histórias, vidas e seres humanos. Que somos capazes de creditar decência e verdade às criaturas sem necessariamente algum tipo de aparente prova disso por parte delas. Que conseguimos ver além de um papel, de uma moeda, de uns bombons. Que podemos, através do silêncio ou de uma sincera observação nessas pessoas que passam assim pelos nossos dias, enxergar algo por trás delas, algo de valioso, de verdadeiro. Afinal de contas, se for dinheiro o que importa, não custam muitas moedas acreditar na história de alguém e dessa forma estimulá-la a continuar acreditando mais na vida.

Manuella Mirna

domingo, 31 de outubro de 2010

Quando eu conhecer tua alma, escreverei sobre teus olhos...

Artista plástico e escultor italiano do século XIX-XX que recebeu um filme em sua homenagem em 2004, Amadeo Modigliani é autor dessa frase que adaptei ao título deste post. Originalmente ela seria "Quando eu conhecer sua alma eu pintarei seus olhos".
Casado e muito apaixonado, Modigliani dedicou muitos de seus quadros a reprodução da sua esposa, como ele a enxergava, um tanto diferente para quem via os quadros, mas quem é capaz de contestar a visão particular de cada pessoa acerca de quem ela ama? Ainda mais quando se trata de um artista. As pessoas estranhavam, mas sentiam que a obra refletia um intenso amor. Uma coisa, no entanto, intrigava a todos, inclusive a mulher dele: Modigliani não pintava os olhos de sua amada.
Quando um dia ela lhe perguntou o porquê disso ele foi simples em responder: "When I know your soul I will paint your eyes". Amedeo achava muito difícil representar os olhos das pessoas, em especial da pessoa que mais amava. Acredito que os olhos para ele eram uma janela da alma, um espelho do que era a pessoa, com todos os seus conflitos, medos, mistérios, manias; todos os seus encantos, risos, delicadezas, grandezas, paixões; com todas as suas muitas faces surpreendentes e apaixonantes. Por isso sua mulher, a criatura a que ele mais amava, que achava mais surpreendente, mais complexa, mais humana, mais apaixonadamente humana, tinha o olhar mais misterioso de se pintar. Mesmo assim, não tentava desesperadamente, ele sabia que na hora certa conheceria sua amada a ponto de desvendá-la em cores. Amedeo acreditava que representá-la tão facilmente nas telas seria reduzí-la, diminuir o tudo que ela era a cores convencionais de aquarela.
Acredito que Modigliani compreendia o tão desejado apaixonar-se pela mesma pessoa todos os dias, e devia experimentar isso. Acredito que ele compreendia que é impossível definir cada parte mais discreta e marcante de quem se ama. Acrecito que ele compreendia que as pessoas são um mundo, um vasto mundo cheio de surpresas, e que especialmente aquela pessoa que ele escolheu para amar tem muitos encantos para representar tão facilmente. Acredito que ele compreendia, como Drummond, existirem muitas razões para não se amar uma pessoa, mas apenas uma para amá-la, e aí acrescento que é o simples fato de ser apenas ela mesma.
Decerto, como Drummond parecia saber na sua frase, Modigliani também parecia saber que não há perfeição nas pessoas, que realmente com um pouco de má vontade se acha vários motivos para não encontrar o amor. Mas parecia também saber, e principalmente, ver a verdadeira essência nos momentos, nos sorrisos, nos olhares, nos amores, no seu amor. Parecia saber que acima de tudo que já foi dito sempre existe mais o que se dizer, o que se descobriir, o que se desvendar, com o que se surpreender. Por isso não quis se precipitar em pintar os olhos de sua mulher.
Um dia, como devia ser, ele os fez. Encontrou a hora certa. Fez porque por algum motivo ele conseguiu colorir a essência do que era sua amada. É claro que todas as cores que ele usou não diziam todas as coisas que ela era para ele. Mas ele sabia que o amor de cores vivas estava representado na sua vida, na qual o compartilharia com ela, o descobriria e redescobriria nas muitas faces de sua amada.
Esse pequeno detalhe da vida do pintor me fez entender que realmente aquela pessoa que você ama é muito mais do que ela mesma se descreve. Que há muito ainda a ser dito e desvendado, mesmo com tudo que já foi dito. Que mesmo que você saiba quem está amando, felizmente esse alguém é muito mais do que ele mesmo supõe e você terá sempre novas coisas para amar numa mesma pessoa. E para que a face mais bonita de mostre, ou a face mais engraçada, ou a mais indiscreta, ou a mais marcante, ou todas elas, é preciso também que se deixe ver, se deixe mostrar, se deixe compartilhar aquilo que há de mais especial em você.
Acho que todos somos um pouco de Modigliani e de sua mulher, um pouco dos dois, sempre temos muito a mostar e muito ainda a descobrir. Mas algumas vezes nos fechamos, sem saber bem porque, não deixamos ser desvendados ou não queremos desvendar alguém; não só necessariamente aquele alguém, mas também aquelas pessoas que você conquistou e que conquistaram você de forma especial. Geralmente, nós temos medo de nos mostrar, de sermos descobertos nas nossas muitas faces ou de descobrir em alguém aquela face da qual não iremos querer nos separar. Geralmente por isso perdemos oportunidades de enxergar aquela pessoa tão especial ou de ser vistos de forma tão especial por alguém assim.
Modigliani devia ter também um pouco desse medo, mas ele era artista e não demosntrava tanto. Acho que devíamos tentar ser mais artistas nesse ponto, como em tantos outros. Não temer descobrir e ser descobertos pelas pessoas essenciais que aparecem aqui e ali na nossa vida, entre elas provavelmente existe aquela a quem irás amar muito.
Então, meu bem, quando eu conhecer tua alma, a cada dia que motrares mais dela para mim, buscarei estar atenta para conhecer mais um detalhe indiscreto e marcante de você. E já que não sei pintar, no dia que souber que não irei te reduzir a qualquer poesia, escreverei sobre teus olhos, eles que me encantam, impressionam, surpreendem, te revelam e me revelam tanto, sem eu sequer me dar conta, de forma tão essencial, todos os dias.

Manuella Mirna

sábado, 16 de outubro de 2010

Sintonia Los Hermanos

Há três anos atrás escrevi no meu caderno um texto de despedida sobre Los Hermanos um tanto triste. Hoje, depois de ontem à noite, prefiro não pensar em despedidas, prefiro pensar que o 'adeus você' é só nome de música e ouví-los dizendo 'não pensa que eu fui por não te amar'. Então, 'pra que minha vida siga adiante', não vou postar o de anos atrás, prefiro pensar em ontem sem pensar que 'todo carnaval tem seu fim'. Prefiro tentar, por mais que seja quase impossível, guardar esse momento em palavras já que se gravou na memória, palavras companheiras que, como eles, são eternas.
Depois de três anos, uma espera anciosa e sem saber se valia a pena realmente esperar que eles não seguissem adiante separados, eles voltaram para mais um show, talvez o último, talvez não, prefiro pensar que não.
Estranho pensar neles como um show, como apenas uma banda. Eles são muito mais. Para quem não gosta pode parecer piegas. Mas quem conhece de verdade sente e sabe que não há palavras para definir, muitas coisas mais conectam a eles.
A música brasileira é muito boa, mas sofre alfinetadas ferozes da música gastronômica e existir música como a de Los Hermanos é quase como respirar ar puro no meio de uma cidade maluca. É como voltar pra casa, sentir-se em casa no meio de uma multidão. É como saber que o mundo que se mostra além da sua janela não é tão caótico e egoísta quanto parece, é também poético, depende de como o vemos e nele dá para aprender muito também, ser melhor, por mais que pareça o contrário.
Enxergar o que se passa num coração fatigado de dois velhinhos ali da esquina e acreditar num 'último romance'; contar o momento de morte de duas pessoas cujo amor nunca irá morrer numa 'conversa de botas batidas'; entender do 'sétimo andar' um amor cuidadoso e puro de alguém que não esquece seu outro mesmo que esse não possa mais continuar com ele; sentir os reparos de um coração que tem tudo, mas que também precisa, e muito, daquele alguém com ele o mais rápido possível é 'sentimental' e não é pecado isso. Histórias de amores mil, musicadas com uma harmonia instrumental que só L.H. tem e que nos faz sentir realmente, nem que seja só por um momento, só de ouvir, só de cantar, sentimentos que nosso olhar apressado e nosso coração medroso muitas vezes não se permitem sentir. E quando conseguimos deixar essa música curar nossos sentimentos cautelosos demais, ou exagerados demais, nos tornamos amantes melhores.
Enxergar que 'nessa vida não se pode mais errar, que entre as estrelas e o chão' ainda 'existe o mar' e 'deixa estar'; entender que a despedida num 'adeus você' às vezes é necessária, é crescimento e que não é por falta de amor; ver 'além do que se vê' que 'é difícil ser feliz mais do que já somos todos nós'; experimentar a casa segura que o amor pode te dar e 'deixa o verão' pra mais tarde, porque da porta pra lá as vezes é hostil demais para o essencial. Aprendizados e valorizações que muitas vezes não conseguimos tirar dos momentos, das pessoas, da vida, às vezes passamos por ela e não entendemos as mensagens que ela nos dá. L.H., acho eu, consegue captá-las e colocar em letras tão delicadas que se não quisermos ver além não percebemos o belo no meio do caus que vivemos.
Até separações com 'a flor' na mão e que 'assim será', traições com 'a outra', estar aflito e só vendo 'os passáros'. Nada disso é realmente triste com acordes perfeitos e a certeza de que precisamos de momentos assim algumas vezes para experimentar sentimentos e lições que a vida sutilmente mostra com a única finalidade de nos tornar mais vivos e mais corajosos. Acho que L.H. entendeu que a música e a poesia são formas de encarar verdades que não precisam ser necessariamente tristes e que assim você se torne poema nessas horas.
Saber que num 'horizonte distante' 'através eu ví, só o amor é luz... não me falta ao passo coração'; e 'paquetá' sozinho e tristonho, admita com certo humor um quase erro e pegue no ar o amor que quase deixou cair - não deixar passar as raras pessoas da nossa vida é um dom - 'e desse engodo eu vi luzir de longe o teu farol minha ilha perdida é aí o meu pôr-do-sol'; numa 'casa pré-fabricada' descobrir um abrigo num sorriso, qualquer coisa nele explica a paz que ele te dá, o amor constrói casas que o vento não leva; 'veja bem meu bem' onde você não está ela está, a saudade. Cantar amor não é piegas quando L.H. nos mostra as faces mais lindas, os detalhes mais singelos, o delicado e o sensual de um sentimento que não vence, que vale a pena em qualquer lugar, que pode não ser eterno para algumas pessoas, mas não precisa ser. Ele, o amor, eterniza-se em si mesmo, pelos momentos, sorrisos, olhares, beijos e sensações que sempre vão ficar gravados. Ele ensina, nos mostra, nos desmascara, nos faz, assim, nós mesmos, melhores, eternos.
Enfim, é difícil quando se olha pela janela e não vemos exatamente o mundo dos nossos sonhos. É difícil quando no meio de tanta desordem você conseguir enxergar coisas melhores, sorrisos indecifráveis, olhares inexplicáveis, pessoas especiais, momentos únicos, soluções e esperanças e forças e sonhos e amor e tudo que há de melhor na vida. Mas é preciso saber entrever no meio de todo caos o que o mundo realmente pode ser pra você, o que nele você pode aprender, a pessoa que você realmente é, melhor do que a janela te induz a ser. Acho que Los Hermanos, de alguma forma, sabe disso: que a vida é mais do que ela mostra ser, que há realmente o especial em algum lugar. Mas o essencial é invisível aos olhos apressados, é preciso não ter medo de ir além, de sentir além, de ser mais, de viver mais, de sentir mais. Música pode ser uma maneira estranha de fazer isso, mas é uma fórmula infalível, pois nem sempre conseguimos sozinhos o que certos acordes conseguem traduzir, entrando pelos poros, agitando a cabeça, o coração, a alma. De forma a instigar o melhor em nós, os sentimentos mais ocultos, as sensações mais necessárias, os desejos que não podemos afogar, as pessoas que precisamos estar perto, as coisas que não devemos esquecer, as coisas que precisamos lembrar mais, as coisas que devemos deixar de lado, a vida e amor que precisamos viver mais.
Los Hermanos. É difícil descrever algo que realmente só sentindo se explica, se se explicar. Mas não podia deixar de tentar gravar L.H. aqui, de alguma humilde forma, mas verdadeira. Ontem, pode ter sido o último show, ou não, mas o que eles representam para quem deles gosta, o que suas músicas são capazes de fazer para quem ouvi, é para sempre. Eles nos contam histórias, algumas tristes outras alegres, mas todas necessárias. Histórias que às vezes traduzem as nossas, histórias que às vezes traduzem nossas qusse histórias, histórias que nos levam a fazer histórias mais belas ou mais apixonadas ou mais especiais, ou tudo de uma vez.
... Eternamente Los será a sensibilidade acordeada.
Obrigada Los Hermanos! Sem mais palavras.

Manuella Mirna

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Enxergando as Eleições

2010, ano de eleições, daquelas longas e complexas. Poderia ser mais um ano de exercício da cidadania e da democracia, mas tem sido bem mais que isso, infelizmente, para pior. Estamos tendo uma das eleições mais desleais que nosso país já assistiu, se bem que, em se tratando de eleições diretas e realmente democráticas ele não assistiu a muitas, mas essa, com certeza, irá ser lembrada pela mentira e pelo jogo sujo.
No Brasil, a democracia sempre sofreu duros testes para se efetivar, como os votos de cabresto e as oligarquias cafeeiras que controlaram as decisões nas eleições durante a República Velha, e a até a Ditadura para ameaçar os sonhos de cidadania e liberdade, mas ainda hoje ela parece cair por terra a qualquer momento. Não falo aqui da democracia como direito do povo de comparecer às urnas, mas da democracia conscientizada, aquela em que não somos marionetes de politicagem, aquela em que não somos "convidados" a responder em um plesbicito o que os candidatos não estão preparados ou tem medo de tomar posição, aquela na qual não há leilão para ver quem engana mais o eleitor por um voto, aquela a qual não é pichada por propostas infantis e mirabolantes que em nada, de fato, colaboram para o crescimento do país e sim para o descredito do cidadão diante do seu direito de escolha. Os mais conscientes perguntam-se se realmente esse tal direito tem valor e que valor é esse: cestas básicas, tijolos, uma nota de $600, tarifas reduzidas nas operadoras de celular ou leitores digitais?
É realmente lamentável que um país com fama de pacífico e amistoso tenha tanta guerra durante processos políticos tão importantes, que deveriam ser celebração da democracia. Guerras por um voto, pela melhor mentira, por um eleitor, por uma cadeira confortável num palecete no centro do páis. No meio desse tiroteio de idéias muitas vezes mascaradas com um discurso popular, o eleitor fica sem saber em quem acreditar, o que ouvir, o que defender, o que escolher. Nessa loucura de campanha, o cidadão não consegue distinguir o verdadeiro do mentiroso e acaba por não exercer com a devida consciência e satisfação sua democracia.
A política atual, com raras exeções que nos custam muito identificar, tenta de todas as maneiras nos furtar o direito de pensar com clareza, de refletir com discernimento, pois o que se diz não se escreve, o que se faz não se divulga, e quando algo vem à tona mais nos parece que a única coisa feita no palecete é tentar nos esconder as falcatruas. Para compeltar o cenário, a mídia, que deveria esclarecer o eleitor e informar de forma objetiva e sobretudo ética a verdade das campanhas eleitorais, dos políticos, o cerne de cada proposta e a distinção entre o dizer e o fazer de cada candidato, entra no joguete político e passa a distribuir a mentira melhor paga.
Diante disso tudo é natural que o brasileiro ache votar em branco/nulo como única solução para seu descredito ou eleja um palhaço para rir da própria desgraça. Mas isso não é fazer jus a cidadania, por mais que essa hoje em dia pareça utopica; isso não melhora as coisas, só pioram. Até porque o brasileiro orgulha-se de ser alguém que não desiste nunca, então ele é o último que deve desestimular-se, que deve achar que não há mais jeito e deixar-se dobrar às muitas tentavas insanas de borrar nossa democracia. Assim, ele não deve acreditar em qualquer coisa, o que lhe pareça mais politicamente correto ou o que lhe apareça mais sorridente e amigável. Não deve acreditar em calúnias sem fundamento que surgem em epoca de campanha com o único objetivo de angariar mais votos e vencer o "campeonato". Não deve aceitar como fato tudo que um tipo de imprenssa mercenária diz. Não deve achar que o fato de ilegalidades sairem de baixo do pano é ruim, é ruim também, mas é um indício de que o governate do país está mais atento, quer desmascarar as corrupções, fichar quem as fazem, e não teme ser colocado no pálio também porque não tem nada a esconder.
O fato de haver politicagem não quer dizer que a democracia e a cidadania não valem à pena. Aquela política descompromissada mostra sinais de extinção, mostra que está prestes a cair de vez, escândalos explodem no noticiário todos os dias, prisões e cassações são decretadas, leis, ainda que a custo, prometem agir com eficácia, os candidatos ao poder tem representantes em todas as classes, de todos os sexos e ideologias. As coisas estão se descentralizando e a ganância de políticos e partidos que sempre fizeram o povo de joguete deixa cair o véu cada dia mais, promessas quaisquer não sustentam mais um voto. Já a democracia e a cidadania sempre existirão, são direitos conquistados que jamais vão sair de moda. Significam progresso e não há mais como andar para trás, estamos indo em frente, crescendo sempre, por mais que pareça ser por um caminho tortuoso e camuflado tenha certeza que muito pior já foi.
Acredite, antes o índice de analfabetismo era gritante e não havia perspectiva de eleitores conscientes. Antes a única mídia que havia, ainda muito imatura, andava junto com os poderosos políticos controladores do povo e quando surgiram outras mais conscientes que decidiram denunciar a realidade foram censuradas. Antes as máscaras não caiam, antes nada era divulgado e quando surgiu um governo que iria fazer mais pelo povo as armas tomaram o poder e traumatizaram vidas, mentes, famílias, sonhos, histórias.
Enfim, hoje as coisas estão melhores, ainda que pareça absurdo dizer isso, é verdade. E se estamos desestimulados diante da democracia, não é culpa só da corrupção ou só dos políticos, é culpa nossa também que por imaturidade política fizemos escolhas erradas das quais nós mesmos nos arrependemos depois. Algumas não faz tanto tempo, infelizmente. Mas justamente por hoje a situação mostrar mudanças, justamente por hoje enxergarmos que erramos em muitas escolhas é que devemos enxergar com muito cuidado e responsabilidade essas eleições, praticar o "além do que se vê", do que é dito, do que é anunciado na tevê ou em pedaços de entrevistas que com uma boa montagem compromete qualquer um. Precisamos usar de toda nossa conciência e direito de escolha para refletir sobre os melhores canditados, estudar suas propostas e principalmente o que há por trás de seus sorrisos e discursos politicamente corretos. Devemos mostrar que estamos amadurecendo politicamente, criando discernimento político e que qualquer propaganda bem feita ou promessas mirabolantes não irão ganhar nosso voto. O brasileiro quer mais, ele principalmente é capaz de escolher bem, refletindo e pesquisando, e depois de enxergar a verdade por trás dessa eleição de leilão ele poderá ter a consciência de que não foi marionete de joguetes políticos dessa vez.

Manuella Mirna