sábado, 16 de outubro de 2010

Sintonia Los Hermanos

Há três anos atrás escrevi no meu caderno um texto de despedida sobre Los Hermanos um tanto triste. Hoje, depois de ontem à noite, prefiro não pensar em despedidas, prefiro pensar que o 'adeus você' é só nome de música e ouví-los dizendo 'não pensa que eu fui por não te amar'. Então, 'pra que minha vida siga adiante', não vou postar o de anos atrás, prefiro pensar em ontem sem pensar que 'todo carnaval tem seu fim'. Prefiro tentar, por mais que seja quase impossível, guardar esse momento em palavras já que se gravou na memória, palavras companheiras que, como eles, são eternas.
Depois de três anos, uma espera anciosa e sem saber se valia a pena realmente esperar que eles não seguissem adiante separados, eles voltaram para mais um show, talvez o último, talvez não, prefiro pensar que não.
Estranho pensar neles como um show, como apenas uma banda. Eles são muito mais. Para quem não gosta pode parecer piegas. Mas quem conhece de verdade sente e sabe que não há palavras para definir, muitas coisas mais conectam a eles.
A música brasileira é muito boa, mas sofre alfinetadas ferozes da música gastronômica e existir música como a de Los Hermanos é quase como respirar ar puro no meio de uma cidade maluca. É como voltar pra casa, sentir-se em casa no meio de uma multidão. É como saber que o mundo que se mostra além da sua janela não é tão caótico e egoísta quanto parece, é também poético, depende de como o vemos e nele dá para aprender muito também, ser melhor, por mais que pareça o contrário.
Enxergar o que se passa num coração fatigado de dois velhinhos ali da esquina e acreditar num 'último romance'; contar o momento de morte de duas pessoas cujo amor nunca irá morrer numa 'conversa de botas batidas'; entender do 'sétimo andar' um amor cuidadoso e puro de alguém que não esquece seu outro mesmo que esse não possa mais continuar com ele; sentir os reparos de um coração que tem tudo, mas que também precisa, e muito, daquele alguém com ele o mais rápido possível é 'sentimental' e não é pecado isso. Histórias de amores mil, musicadas com uma harmonia instrumental que só L.H. tem e que nos faz sentir realmente, nem que seja só por um momento, só de ouvir, só de cantar, sentimentos que nosso olhar apressado e nosso coração medroso muitas vezes não se permitem sentir. E quando conseguimos deixar essa música curar nossos sentimentos cautelosos demais, ou exagerados demais, nos tornamos amantes melhores.
Enxergar que 'nessa vida não se pode mais errar, que entre as estrelas e o chão' ainda 'existe o mar' e 'deixa estar'; entender que a despedida num 'adeus você' às vezes é necessária, é crescimento e que não é por falta de amor; ver 'além do que se vê' que 'é difícil ser feliz mais do que já somos todos nós'; experimentar a casa segura que o amor pode te dar e 'deixa o verão' pra mais tarde, porque da porta pra lá as vezes é hostil demais para o essencial. Aprendizados e valorizações que muitas vezes não conseguimos tirar dos momentos, das pessoas, da vida, às vezes passamos por ela e não entendemos as mensagens que ela nos dá. L.H., acho eu, consegue captá-las e colocar em letras tão delicadas que se não quisermos ver além não percebemos o belo no meio do caus que vivemos.
Até separações com 'a flor' na mão e que 'assim será', traições com 'a outra', estar aflito e só vendo 'os passáros'. Nada disso é realmente triste com acordes perfeitos e a certeza de que precisamos de momentos assim algumas vezes para experimentar sentimentos e lições que a vida sutilmente mostra com a única finalidade de nos tornar mais vivos e mais corajosos. Acho que L.H. entendeu que a música e a poesia são formas de encarar verdades que não precisam ser necessariamente tristes e que assim você se torne poema nessas horas.
Saber que num 'horizonte distante' 'através eu ví, só o amor é luz... não me falta ao passo coração'; e 'paquetá' sozinho e tristonho, admita com certo humor um quase erro e pegue no ar o amor que quase deixou cair - não deixar passar as raras pessoas da nossa vida é um dom - 'e desse engodo eu vi luzir de longe o teu farol minha ilha perdida é aí o meu pôr-do-sol'; numa 'casa pré-fabricada' descobrir um abrigo num sorriso, qualquer coisa nele explica a paz que ele te dá, o amor constrói casas que o vento não leva; 'veja bem meu bem' onde você não está ela está, a saudade. Cantar amor não é piegas quando L.H. nos mostra as faces mais lindas, os detalhes mais singelos, o delicado e o sensual de um sentimento que não vence, que vale a pena em qualquer lugar, que pode não ser eterno para algumas pessoas, mas não precisa ser. Ele, o amor, eterniza-se em si mesmo, pelos momentos, sorrisos, olhares, beijos e sensações que sempre vão ficar gravados. Ele ensina, nos mostra, nos desmascara, nos faz, assim, nós mesmos, melhores, eternos.
Enfim, é difícil quando se olha pela janela e não vemos exatamente o mundo dos nossos sonhos. É difícil quando no meio de tanta desordem você conseguir enxergar coisas melhores, sorrisos indecifráveis, olhares inexplicáveis, pessoas especiais, momentos únicos, soluções e esperanças e forças e sonhos e amor e tudo que há de melhor na vida. Mas é preciso saber entrever no meio de todo caos o que o mundo realmente pode ser pra você, o que nele você pode aprender, a pessoa que você realmente é, melhor do que a janela te induz a ser. Acho que Los Hermanos, de alguma forma, sabe disso: que a vida é mais do que ela mostra ser, que há realmente o especial em algum lugar. Mas o essencial é invisível aos olhos apressados, é preciso não ter medo de ir além, de sentir além, de ser mais, de viver mais, de sentir mais. Música pode ser uma maneira estranha de fazer isso, mas é uma fórmula infalível, pois nem sempre conseguimos sozinhos o que certos acordes conseguem traduzir, entrando pelos poros, agitando a cabeça, o coração, a alma. De forma a instigar o melhor em nós, os sentimentos mais ocultos, as sensações mais necessárias, os desejos que não podemos afogar, as pessoas que precisamos estar perto, as coisas que não devemos esquecer, as coisas que precisamos lembrar mais, as coisas que devemos deixar de lado, a vida e amor que precisamos viver mais.
Los Hermanos. É difícil descrever algo que realmente só sentindo se explica, se se explicar. Mas não podia deixar de tentar gravar L.H. aqui, de alguma humilde forma, mas verdadeira. Ontem, pode ter sido o último show, ou não, mas o que eles representam para quem deles gosta, o que suas músicas são capazes de fazer para quem ouvi, é para sempre. Eles nos contam histórias, algumas tristes outras alegres, mas todas necessárias. Histórias que às vezes traduzem as nossas, histórias que às vezes traduzem nossas qusse histórias, histórias que nos levam a fazer histórias mais belas ou mais apixonadas ou mais especiais, ou tudo de uma vez.
... Eternamente Los será a sensibilidade acordeada.
Obrigada Los Hermanos! Sem mais palavras.

Manuella Mirna

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