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terça-feira, 24 de abril de 2012

O fantasma se rende

... Seu argumento era a distância de volta a Goiânia e seu filho a ser operado.
Perguntei sobre Goiânia - detalhes que um nativo saberia; perguntei de seu filho, a doença dele e o olhar do menino frente a tudo isso - paisagens que só um pai saberia.
Parei aí.
Ele soube tudo me narrar, com a fidelidade de uma criança, com a proeza de um nativo, com o olhar amoroso e dolorido de um pai.
Sem chance para uma parte de mim. Aquela parte, que atende por 'fantasma da minha desconfiança', que me assombra por vários segundos, que sempre me ameça perder o mais belo e singelo da vida... ela, se convenceu e deixou a mansão por um belo instante, talvez sem hora pra voltar, quem sabe talvez não volte... ainda bem!

Manuella Mirna

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Em qual fila entrar?

Ví esta notícia já há um certo tempo, mas, por alguma razão, ela ainda é atual e será por um bom tempo, imagino:

"15/12/2011 20h47 - Atualizado em 15/12/2011 20h48

Usuário sai de casa sete horas antes para garantir iPhone 4S

(fulano) já espera para comprar o aparelho em São Paulo. Novo iPhone começa a ser vendido à 0h desta sexta-feira (16).

Ele diz que tem um iPhone 4, mas só conseguiu comprar o aparelho uma semana depois do lançamento no país, porque já havia esgotado. Com o iPhone 4S, ele afirma que não quis correr esse risco. O desenvolvedor diz ter vários aparelhos da Apple: um MacBook Pro, um iPad 2, um iPod Nano e um iPhone. Além disso, (fulano) relata ter comprado um smartphone com o sistema Android, do Google, há três meses. “Vou vender assim que comprar o iPhone 4S, porque ele é muito lento”, disse."

É né... Boa motivação.

Ok, isso não foi uma ironia.

Não sou contra a tecnologia, não saio por aí dizendo que devemos voltar à tv preto e branco, ao teleférico ou mesmo às cavernas. Não.

Cada época histórica tem seu desenvolvimento e é bom que seja assim. Muitas boas mudanças são feitas na vida individual e em sociedade por conta da tecnologia, e de qualquer outra forma de avanço.

Mas não nego, achei no mínimo curioso a motivação, a espera, a pressa, a necessidade...!!! Nunca imaginei que pudesse ser tão normal e aplaudida a nossa dependência sobre os brinquedinhos modernos.

Também não escondo o espanto quando lí "usuário". Palavra comum né?! Mas que me lembrou a expressão "usuário de drogas". Tudo bem, desculpe se estiver exagerando, mas me parece que nós passamos, sem perceber, de cidadãos para consumidores para "usuários" (viciados em novidades de consumo hi-tech).

Não quero boicotar os iPhones, smarts, tablets, ou seja lá o que venha... Só me chama atenção a espera ansiosa que se vê por aí pelos apetrechos tecnológicos; e a fila formada para a compra do iphone da notícia; e a lotação que ví durante a primeira semana da loja da Apple, aqui, no shop Recife; e a certa competição que vejo pelas ruas, do tipo "nossa, esse seu mp3 é uma relíquia, vê só esse meu mp16..." (não quero nem pensar o que ela diria do meu celular!). E muito mais me assombra o fato oculto a tudo isso: a segregação social de quem não tem acesso à alta tecnologia.

Infelizmente, isso não é um tema de redação de vestibular somente, não pára nos estudos para o Enem ou nas discussões clichês de época de campanha, é uma realidade: o desenvolvimento tem criado vários lados da mesma moeda, um deles é, sem dúvida, o aumento das diferenças e preconceitos sociais.

Não vou inflamar mais um texto, aqui é mais uma conversa de jardim... Para que nós todos pensemos um pouco mais na parte de SER humanos, para que a gente não automatize os nossos atos, se deixe levar pelos desejos da multidão, pela opinião do senso comum, pelos ditames do mercado... Para que a gente não perca o questionamento natural da parte de sermos seres PENSANTES, para que não vire modismo o "não-diálogo", para que não seja tachado de "viajado" aquele que levanta o dedo e diz não concordar.

Não acho que boicotar a hi-tech seja a solução. Mas acredito que precisamos ir menos pelas marcas, modas, marketing e coisas do tipo; que precisamos perceber os limites aceitáveis de cada situação: até onde é saudável um "luxo" e até onde esse "luxo" virou nossa prioridade, até que ponto ele nos determina, define e completa... Somos mais ou menos por sermos Nike, Apple ou Volvo? Acho que não.

Fica a dica: se fôssemos um poco mais competitivos e influenciáveis para ouvir mais o outro, ter mais paciência, sermos mais gentis, sentir mais, compreender mais, fazer mais e melhor... Enfim, se fôssemos alvos-fáceis também para pegar a moda do bom exemplo, no dia de amanhã o Sol brilharia mais forte e os sorrisos seriam menos materialistas, seriam dados sem medo ou pretensão, seriam dados de graça.

Manuella Mirna

quinta-feira, 22 de março de 2012

O dia de quem é "Up"

Pela primeira vez, o dia mundial da síndrome de down está sendo celebrado nas Nações Unidas!!

É sim!
Talvez isso não seja grande coisa para a maioria de nós, talvez... Mas é uma enorme conquista para a sociedade e para os "ups" que, como todos, desejam e lutam pelo sua respeitada e merecida parte na ordem das coisas.

As conquistas nossas de cada dia são difíceis e nos fazem vacilar, cansar, chorar algumas vezes... é sim, não é fácil. Mas não é impossível. E temos grandes exemplos disso ao nosso redor, como, por exemplo, os ditos deficientes de síndrome de down.

Aliás, acho realmente detestável esse nome. Acredito que ninguém goste de ser identificado pelo sobrenome de um médico que descobriu os efeitos de um cromossomo extra no corpo humano... "deficiente, com distúrbio, portador de síndrome', são nomes muitos grandes, feios e complicados para seres humanos incríveis e capazes, até mesmo com uma capacidade de amar, muitas vezes, maior que a da maioria.

Mas enfim, hoje foi um dia de vitória: de alguma forma, por mínima que seja, mostra-se que as diferenças, os preconceitos e as segregações estão diminuindo e ganhando força para reflexões sérias, públicas, oficiais e mundiais.

O mercado está mais aberto para essas diferenças, o ensino está mas pronto e receptivo, as pessoas estão mais instruídas... mudanças lentas, feitas principalmente por se estar vencendo a ignorância, mas são mudanças, e boas.

O fato de haver um dia mundial em favor de algo, para alguns, pode denotar que esse algo não é visto por todos com bons olhos, precisando-se criar um dia de consciência. Mas, independente dessa visão, constata-se os fatos e tenho certeza que muitos "ups" sorriram mais hoje e se sentiram mais fortes.
Afinal de contas, não é tão importante o fato de ser necessário um dia oficial para se discutir certos aspectos sociais, mas importa muito mais que exista hoje tal preocupação e motivação para empreender transformações.

"Impossível é uma palavra grande inventada por uma porção de gente pequena" Ch. Brown Jr.

Manuella Mirna

terça-feira, 9 de agosto de 2011

As margens ocultas do rio

Sexta passada, vendo um telejornal, me dei conta de coisas que, muitas vezes, durante nossa "dura" vida a gente se esquece: de que há vidas, realmente, mais difíceis que as nossas, e nem por isso mais amargas ou sem sentido.

A reportagem era uma trilha, feita pela equipe de reportagem, em busca da foz e da nascente mais distante do rio Amazonas, tentando mostrar as vidas que se relacionavam com cada cenário desses.

O curso do rio me fez lembrar o curso da vida, cheia de altos e baixos, partes rasas e partes profundas, calmas e muito agitadas, povoadas e sós, perigosas e aconchegantes... mas totalmente inundadas de encanto.


Já nós parecemos a pequena e firme balsa a desbravar as suas águas e as suas margens, seus percalços e todas as suas graças.


E não há como negar que mesmo com todos os meandros e as águas inquietas, a vida é fascinante e sempre reserva uma lição, uma surpresa boa, um sorriso, um aprendizado, ou várias mostragens de tudo isso.

De um lado, as partes boas todos digerem muito bem.


Por outro lado, as partes não tão boas, aquelas que primeiro assustam, para depois melhorar sem tempo determinado (mas creiam, melhora!), não são tão facilmente digeridas por nós.


Acho que porque não são compreendidas na sua razão de ser, na sua finalidade, no seu por quê. Mas, independente das respostas, dentre todos que passam por esses momentos, os sábios conseguem encarar com maturidade e até com certa graça as diferentes margens da vida, ou do rio, literalmente..

Sábios anônimos, como os que ví no programa (Globo Repórter) e não imaginava ser assim:

Uns, moram numa margem perigosa e vivem atentos às mudanças do rio:

"No baixo Amazonas, o rio é navegável, mas a vida em muitas comunidades é regulada pelas marés. Não são nem três da manhã e a dona de casa Maria Luíza dos Santos já prepara o café. Depois, chama os filhos Romário e Simone. Eles precisam se arrumar para ir à escola. Rotina? Até pode ser, mas uma rotina que muda todo dia. “De um dia para outro, a maré atrasa uma hora, todo dia tem um horário”, declara o pescador Pedro dos Santos. Às vezes, eles saem às onze da noite para assistir à aula no dia seguinte [...] Romário vai pela primeira vez à escola neste horário. A irmã já faz isso há anos e não se acostuma. “É complicado acordar essa hora, mas pelo estudo a gente faz tudo”, diz a filha, e estudante, Simone dos Santos.

São três e meia da madrugada, maré alta, hora de viajar. E o barco que faz o transporte escolar tem que sair antes das águas baixarem. Para quem estuda de manhã, não há outro jeito de chegar à escola. Os jovens se acomodam no barco e, dependendo dá para dormir um pouco. Mas, com o mar agitado e o vento forte, ninguém consegue. “Tem a fé que não acontece nada”, diz Simone. O piloto Joniel Lopes leva os alunos para a escola há quatro anos. Em dia de temporal forte, o barco pode até ficar à deriva no Rio Amazonas. ”É muita responsabilidade, inclusive a gente carrega o futuro, não é”, diz o piloto.

A tempestade passou longe, e o barco chegou antes de a escola abrir. Dá para dormir mais um pouquinho. Mas, logo, eles começam a se arrumar ali mesmo e desembarcam para assistir às aulas. Uma tarefa difícil depois da noite que tiveram. Para o professor, eles são guerreiros. “Coisa que muitos brasileiros não fariam, eles fazem para estar aqui todos os dias”, fala o professor.

São oito filhos e muita noite de sono perdido. “Mesmo assim eles tiram nota boa. Graças a deus ainda não desistiram. Está valendo a pena”, relata a mãe de Simone e Romário."

Pois é. Enquanto alguns reclamam ter de acordar cedo demais para ir escola, porque moram longe, ou do ônibus lotado e até mesmo do professor ou da escola, outros "acordam" às onze da noite, viajam um rio imprevisível, numa balsa gasta que não é mais potente do que nenhum carro popular, enfrentam chuva ou não, apreensão sempre e sono irreparável para assistir aula de manhãzinha. E é inspirador que, mesmo com tudo contra, eles não desistem, são de exemplo para o professor e motivo de responsabilidade para o piloto, que diz com toda segurança que carrega o futuro! Não digo que as primeiras situações mão sejam chatas, são sim, mas, às vezes, antes de levantar o dedo para reclamar ou abaixar o dedo para desistir da jornada, temos que olhar para mais adiante, para o outro lado da margem, para outras vidas mais difíceis que as nossas que continuam sonhando e lutando... E continuar sonhando e lutando também.

Outros, fazem arte da lama que encontram nas margens:

"Ao nível do mar, na Foz do Amazonas, os conhecimentos dos primeiros habitantes das margens do maior rio do mundo ainda passam de pai para filho. A cerâmica, que teve origem nas tribos marajoaras, hoje é fonte de sustento dos caboclos no local.
A equipe do Globo Repórter vai até o lugar onde os ribeirinhos tiram a matéria-prima das cerâmicas: a argila das margens dos afluentes do Rio Amazonas. “São quatro horas de trabalho, entre a saída, a extração da matéria-prima e o retorno”, conta o artesão Rosemiro Pereira.
Eles são barreiros profissionais e buscam a argila nos igarapés para vender para olarias e ceramistas. A equipe vai até o local onde é feita a extração de argila. Os barreiros retiram uma camada de terra com folhas e tudo e estão em busca do barro mais uniforme, de cor mais clara. Com a pá afiada, eles vão cortando os blocos de barro. Parecem barras gigantes de chocolate. Os artesões exigentes escolhem o barro com cuidado para fazer cerâmica de melhor qualidade.
As voadeiras ficam carregadas com mais de 100 bolas de barro cada uma. Cada bloco vai ser vendido a R$ 1,20. Depois, nos ceramistas, o barro vai virar jarros, vasos, pratos para decoração. A família toda do artesão Rosemiro está no negócio. Mas cada um cuida da sua produção.
A artesã Rosemaria da Silva gosta de pintar e consegue fazer um vaso em apenas um dia. “Perfeito, perfeição mesmo não existe porque é artesanal, então a gente tenta fazer o melhor possível’, revela a artesã.
E o que era sedimento, barro das barrancas do amazonas, vira arte nas mãos dos ribeirinhos."

Os economistas que viram isso devem ter se remexido na cadeira: 4 horas de viagem, numa canoinha pequena e frágil, para buscar uma determinada argila na margem dos igarapés, cavando com toda atenção, voltar com perigo da canoa partir de tanto peso e vendem o bloco por R$ 1,20; ao chegar, mais tempo para preparar o barro, dar forma, pintar... imagina o quão barato eles vendem esses jarros! Vidas simples, empenhadas, fortes e persistentes. Do inacreditável esforço eles fazem arte, para sobreviver. Delicados e firmes gestos que compõem histórias de exemplo para qualquer um que pense em reclamar da distância do trabalho, do trânsito, ou do computador lento.

Não consegui pensar no valor do super homem ou da mulher maravilha, antigos heróis da nossa infância, quando ví essas histórias. Tantos e tantos heróis da vida, do nosso Brasil, da nossa história... ocultos, anônimos, simplórios... mas de coração aberto, mãos dispostas e olhos atentos à vida, aos planos, para não perder o ânimo, o entusiasmo e a fé.

Não há muito mais a ser dito, tem coisas que falam por nós. Só sei que não pude não compartilhar isso aqui, para que essas vidas, essas margens ocultas do rio falassem por mim e, de alguma forma, tocassem nosso coração e impulsionassem mudanças de atitude.

E, como não podia deixar de ser, um apelo aos cuidados com nossa Floresta, com nosso Brasil e, consequentemente, com nosso Povo: (placa indígena)

Manuella Mirna

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Bons ventos sempre chegam

Segunda à tarde. O sol tentava reinar de fininho, depois de dias de chuva forte. O ônibus andava acelerado pela BR sem nenhuma poça de água ou trânsito. Nesse caminho há várias pontezinhas, sob as quais passam uma água rasa, turva e infinda. A beira desse riozinho algumas casinhas se seguram entre a madeira frágil das paredes e a terra mole da margem. Nada muito garantido. Mas eles encontraram seu abrigo e se é ali que vivem com sua família, aquele lugar não é qualquer um, não é desimportante.

Mais algumas dessas casinhas ficam na ribanceira íngreme entre o rio e a estrada, outras ficam já perto da calçada. Choveu muito esse final de semana, não demais, mas o suficiente para ameaçar a segurança dessas e de outras casas em semelhante estado. Uma dessas, bem na beira da estrada, hoje quando passei por esse caminho, não existia mais. O que havia eram destroços do que pareciam ser paredes e alguns poucos móveis. Na verdade havia unas palhas que formavam um telhado, tábuas de madeira que juntas formavam um quadrado e no meio dessas tábuas um sofá. Deitado nesse sofá, adormecido de um sono que parecia o isolar de todo o barulho e movimento da estrada, um homem.
Olhei algumas vezes para entender a cena. Não sei o que houve bem ao certo. Não sei de que era seu sono. Não sei se o que parecia uma casa, um dia tinha sido uma, ou como ela se destroçou. Mas abaixo dessa "casinha" havia várias na ribanceira e mais lá embaixo na beira do rio. Outras mais na frente da calçada faziam vistas de que a "casinha" do homem do sofá não era isolada. Chuva forte parecia ser o motivo de ela não existir mais. Chuva poética e aconchegante para uns, mas de desalento para outros, como para ele.
Pensei muito que seu sono uma hora iria passar. Algum momento, não muito doce, iria acordá-lo, e o que ele faria então? Será que ele tinha para onde ir ou por quem procurar? ... Perguntas que não se consegue calar. Olhos que não se consegue fechar a caminho de qualquer lugar que mostre suas rugas de encantos e desencantos.

Do outro lado da estrada, mais a frente, mais casinhas. Dessa vez erguidas sobre um pequeno campo. Construídas muito juntas, elas parecem ter a intenção de se apoiarem unas nas outras, formar um pequeno povoado desconhecido mas unido de alguma maneira, já que isoladas elas parecem mais vazias e frágeis. No campo ao lado delas "moram" torres de energia elétrica de altíssima potência. Alta potência junto de frágil potência material. Potências de natureza diferentes, é claro, mas ainda assim chama a atenção quando você as coloca na mesma cena. Imaginar que parte da cidade é iluminada pela energia que sai daquelas torres e talvez as casinhas nem recebam essa energia elétrica. Perceber que as torres tomam um espaço bem maior que as casinhas e, no entanto, as torres armazenam energia - parte "abstrata" de uma casa, que não pesa ou ocupa espaço -, e as casinhas abrigam pessoas, vidas, histórias - parte fundamental do mundo e que decerto ocupa mais espaço que energia, espaço imerecido ao que parece. Cena curiosa.

Nesta tarde, a hora anunciava que o sol estava para se pôr, a luz no céu ficando mais amena a cada quilômetro pela estrada. Ventava muito, dizendo que à noite haveria chuva (realmente choveu esta noite). E o vento, quando desci na parada, parecia especial.
Cada vento tem um gosto diferente, sibila algo novo.
Esse, como outros de outras ocasiões, parecia querer acalmar o que havia, não assustar. Acalmar a inquietude de cenas que ficaram atrás na estrada. Parecia querer dizer que tudo ia ficar bem. Que de alguma forma, nem sempre tão simples, nem sempre tão rápida, mas de alguma maneira as coisas iam harmonizar-se, encontrar melhor diretriz, uma saída boa para o que agora não parecia ter uma. Porque como acontece do dia a dia, muitas vezes de repente, no meio do caos, com um pouco de boa vontade, se encontra os melhores sentimentos e valores vivos, como não se imaginava ainda existir.

Trata de não se desesperar, mas não esperar sentado. Acreditar e ir adiante. Porque numa tarde assim, num caminho que parece ser fadado a histórias tristes, numa segunda que dizem ser ingrata, há um Sol, brando, mas há. Um mesmo Sol que brilha para todos, ilumina e acorda todas as cenas de uma mesma cidade, todas as raças de um mesmo povo, todos os degraus e buracos de uma mesma estrada. E no fim, no seu ponto de parada naquela etapa, quando você precisar descer e continuar o caminho achando que a bagagem pesa demais, bons ventos sempre chegam. Para as casinhas, para o homem do sofá, para mim, para você, saiba: bons ventos sempre chegam quando você menos espera. Em forma de experiências impagáveis, soluções inesperadas, situações incomparáveis, oportunidades imperdíveis, momentos únicos, verdades necessárias, pessoas especiais... bons ventos sempre chegam.

Apenas continue seu caminho, faça o que sentir que deve, seja o melhor que puder, seja pessoal e social ao mesmo tempo, tenha as atitudes que espera nos outros, abra sorrisos, enxugue lágrimas, para você e para as pessoas do seu mundo e esteja atento a esses ventos. E aí, quando sentir uma brisa diferente, não deixe ela só passar por você, se permita inundar-se dela, pois ela irá te levar para outros rumos, até mais belos e encantados do que você imaginava. Deixe-se levar por essas ocasiões concretas, cheias de consequências visíveis e sociais, mas também invisíveis aos olhos humanos.
Enfim, não perca a oportunidade de sentir, pensar, ser, fazer melhor e espalhar a mudança e o afeto por aí. Porque bons ventos, apesar de tudo, sempre chegam, só cabe a nós saber enxergá-los e de fato transformar o nosso mundo a partir deles.

P.S. [Mensagem relacionada] Neste período de chuvas muitas pessoas estão sofrendo as consequências do descaso humano com o meio ambiente e com as cidades. Acho que já há alguns anos a humanidade tem percebido que os atos inconsequentes de só sugar da natureza sem restituí-la, ou seja, a falta de um manejo dos recursos naturais para que se possa usá-los sem devastar a natureza, tem causado muitos problemas para nós mesmos. É verdade que nem todos agem mal assim, algumas pessoas e empresas corajosas fazem a sua parte no todo. Mas, infelizmente, os anos de descuido mostram todos os dias suas consequências. Infelizmente, alguns sofrem mais diretamente as consequências disso. Mas, no dia a dia, nas pequenas como nas grandes coisas, cada um pode ser a mudança que espera no outro, como pensava Gandhi. E pode aí ser o bom vento de alguém, aproveitando-se das oportunidades que aparecem como brisas na nossa estrada, para que façamos ou não algo a partir daí. Então, pegue roupas que você não quiser mais, mas que ainda podem ser usadas por outras pessoa, alimentos e água, se você puder, e doe. Procure postos de coleta mais perto de você: http://pe360graus.globo.com/noticias/cidades/chuvas/2010/06/23/NWS,515506,4,214,NOTICIAS,766-CRESCE-NUMERO-DOACOES-VITIMAS-ENCHENTE-PERNAMBUCO.aspx.
Preces e pensamentos positivos também são ajuda e medicação e não medem distância, nem necessitam de um posto de coleta. O pouco que você faça, pode ser muito para quem precisa.

Manuella Mirna

terça-feira, 28 de junho de 2011

Cidade de ironias

Há visões que não nos deixa fechar os olhos.
Há situações que nos acorda da passividade.
Há rotinas que nos impede de se esconder.

'No meio do caminho tem várias pedras'.
Na rua de todo dia, no trânsito nosso de cada dia, é difícil se omitir de sentir o efeito do conto real de nossa cidade sobre nós mesmos.

Cenas inquietantes que te ironizam, minha cidade, e que desafiam nosso olhar, nossa sensibilidade, nosso ser.

A caminho da aula, vê-se dois lados de uma mesma calçada. E entre tantos outros, há uma ladeira para baixo muito íngreme encravada na calçada, um beco de uma só saída para a esquerda. Ironia boba ser para esquerda, triste metáfora ter uma só saída. Esse beco parece ser a entrada de uma comunidade conhecida como favela do Iraque. Pelo que ouvi recebeu esse nome porque sua ocupação aconteceu na época das invasões do Iraque, em 2003. Talvez um nome colocado por brincadeira, talvez por ignorância dos fatos, já que os "invasores" nesse caso são as reais vítimas. Entristece o fato de eles precisarem encarnar invasores para morar, abrindo espaço no chão. E na maioria dos casos não é questão de preferência, mas de, literalmente, só ter um caminho a seguir.

Em viagem boa a uma ilha urbana na zona sul, da ponte de entrada a ela, se vê que à beira do rio estão construindo um centro de compras. Ao lado desse futuro pólo de consumo e lazer ficam habitações fincadas nas águas duvidosas do rio. Nelas sobreviventes 'da lama e do caos'. Imagem desconcertante na beleza histórica da cidade.

Continuamos nosso passo, e nas calçadas de uma alta torre de negócios dorme um filho teu, cidade. Mais a frente um terreno vazio abriga outdoors. A propaganda mora segura para ganhar nossa atenção, um filho teu perece na calçada, à espera de que?

E quando vem a chuva, o campo de futebol das crianças da comunidade vira lama e a beira de todos os lados de rios fica o lixo que teus filhos deixaram cair. Os carros boiam nas consequências do descaso com o meio ambiente e contigo, cidade minha. A mesma chuva boa que aconchega de noite quem dorme tranquilo sob o cobertor. A mesma chuva boa que dá letra para minhas canções e corda para vagar meu pensamento.

Imagens. Estranhas ironias. O bom se torna cruel no mesmo dia, na mesma paisagem, na mesma cidade. Teus filhos tem culpa, cidade minha? Talvez. Mas arranjar culpados não me cabe. Até porque não é teu privilégio ser irônica. Em todos os lugares ainda se vê infinitos lados, bons e maus, de um mesmo plano. Mal me cabe a tentativa de nos fazer enxergar o que tu mostras tão claramente. Nos fazer atuar com responsabilidade universal, nome grande para um conceito simples: ame e zele pelo que/quem dá algo de essencial para ti. Assim, sem escancarar em colorido tuas ironias, sem citar nomes, endereços ou culpados, só tento que te vejam melhor, minha cidade e que façam mais por ti, por nós... E que prevaleça a tua magia.


De encantos, de desencantos. De carnaval, de luto. De belezas, de tristezas. De São João, de zé ninguém. De 1 milhão, de mal 10 reais. De Veneza, de Guiné Bissau. De Nassau, de Henrique Dias. De mascates, de usineiros. De arranhacéus, de habitações sem andar pro céu. De barulho, do meu sossego... Desconfio que a música nasceu dos sons da rua em harmonia com os sons da natureza. E no fim, no conflito, se encontrou a beleza, serena e inocente. Mas às vezes há uma lágrima que sufoca a voz na garganta e corta essa bela sinfonia. É quando se mostra a ironia. Ela não te deixa feia, mas tua beleza já não me parece mais tão inocente. É beleza madura. E tu vives e persistes.


Essa caolha encravou em ti como erva daninha em um 'baobá'. E agora tu pareces indissociável da fria desigualdade que corta a espinha dos que no teu chão se deitam para descansar (será que eles conseguem sonhar?). Tu, minha cidade, és parte responsável por meus olhos terem se aberto e eu não conseguir mais fechá-los. E é assim que nas tuas pontes vejo divisão, união e poesia. Nas tuas calçadas enrugadas vejo tema para minhas entrelinhas. Num filho teu do chão ou num filho teu do prédio de milhões, que assiste a esse espetáculo de uma das pontas singelas de tua versão de cidade antiga, vejo suplica para minhas frágeis revoluções textuais. Mas é também no teu pôr-do-sol, que assisto de uma de tuas pontes, do alto de minha janela ou no ônibus que te circula como sangue nas veias, que acordo pela segunda vez no dia e meu dia começa dourado e poético outra vez.


Decerto que tens, cidade minha, infinitas ironias que não cabem nas minhas palavras atropeladas. Mas nem por isso te amo menos, pois aprendi que o lugar que abriga a nós, aos que nos gostam e aos que gostamos é o lugar que estamos em paz, independente de onde seja, ou como seja. Até digo não ser fã do barulho, da fuligem e dos arranhacéus, não é mentira. Mas nessa rede caótica encontro paz nos meus dias e, já que sustentas meus olhos abertos, é também em ti que inflo meu coração de tema para os meus cordéis, na vontade que percebamos "quanta mudança podemos todos nós" a fim de consertar tuas ironias e te fazer sorrir um riso sereno todo dia. Sem talvez(es), sem dois lados da mesma calçada. A fim de te ver inteira.


Enquanto minha voz é baixa e não é chegada a hora do teu riso pleno, vou te fazendo poesias, tu vais dando bordado para minhas rimas às avessas e por ti prezo e peço para que melhores da tua ironia.

E, ainda uma vez, não pense que te renego. Pois é em ti que, por ser lugar meu, encontro o pão de todo dia, as pautas das minhas músicas, as letras que me alimentam, o amor nas entrelinhas, a nobreza de certos olhares, pano para meus pensamentos e melodias, o ensinamento que há nas saudades que sinto e paz para minha trilha. Tua magia penetra. Em ti acordo e digo bom dia. Em ti respiro ao pôr-do-sol. Em ti me aconchego e sob o luar desejo que 'durmam os medos teus' e que tu sonhes em paz.


Durma bem, cidade minha, e que possam sonhar todos os filhos teus.

Manuella Mirna

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Enxergando as Eleições

2010, ano de eleições, daquelas longas e complexas. Poderia ser mais um ano de exercício da cidadania e da democracia, mas tem sido bem mais que isso, infelizmente, para pior. Estamos tendo uma das eleições mais desleais que nosso país já assistiu, se bem que, em se tratando de eleições diretas e realmente democráticas ele não assistiu a muitas, mas essa, com certeza, irá ser lembrada pela mentira e pelo jogo sujo.
No Brasil, a democracia sempre sofreu duros testes para se efetivar, como os votos de cabresto e as oligarquias cafeeiras que controlaram as decisões nas eleições durante a República Velha, e a até a Ditadura para ameaçar os sonhos de cidadania e liberdade, mas ainda hoje ela parece cair por terra a qualquer momento. Não falo aqui da democracia como direito do povo de comparecer às urnas, mas da democracia conscientizada, aquela em que não somos marionetes de politicagem, aquela em que não somos "convidados" a responder em um plesbicito o que os candidatos não estão preparados ou tem medo de tomar posição, aquela na qual não há leilão para ver quem engana mais o eleitor por um voto, aquela a qual não é pichada por propostas infantis e mirabolantes que em nada, de fato, colaboram para o crescimento do país e sim para o descredito do cidadão diante do seu direito de escolha. Os mais conscientes perguntam-se se realmente esse tal direito tem valor e que valor é esse: cestas básicas, tijolos, uma nota de $600, tarifas reduzidas nas operadoras de celular ou leitores digitais?
É realmente lamentável que um país com fama de pacífico e amistoso tenha tanta guerra durante processos políticos tão importantes, que deveriam ser celebração da democracia. Guerras por um voto, pela melhor mentira, por um eleitor, por uma cadeira confortável num palecete no centro do páis. No meio desse tiroteio de idéias muitas vezes mascaradas com um discurso popular, o eleitor fica sem saber em quem acreditar, o que ouvir, o que defender, o que escolher. Nessa loucura de campanha, o cidadão não consegue distinguir o verdadeiro do mentiroso e acaba por não exercer com a devida consciência e satisfação sua democracia.
A política atual, com raras exeções que nos custam muito identificar, tenta de todas as maneiras nos furtar o direito de pensar com clareza, de refletir com discernimento, pois o que se diz não se escreve, o que se faz não se divulga, e quando algo vem à tona mais nos parece que a única coisa feita no palecete é tentar nos esconder as falcatruas. Para compeltar o cenário, a mídia, que deveria esclarecer o eleitor e informar de forma objetiva e sobretudo ética a verdade das campanhas eleitorais, dos políticos, o cerne de cada proposta e a distinção entre o dizer e o fazer de cada candidato, entra no joguete político e passa a distribuir a mentira melhor paga.
Diante disso tudo é natural que o brasileiro ache votar em branco/nulo como única solução para seu descredito ou eleja um palhaço para rir da própria desgraça. Mas isso não é fazer jus a cidadania, por mais que essa hoje em dia pareça utopica; isso não melhora as coisas, só pioram. Até porque o brasileiro orgulha-se de ser alguém que não desiste nunca, então ele é o último que deve desestimular-se, que deve achar que não há mais jeito e deixar-se dobrar às muitas tentavas insanas de borrar nossa democracia. Assim, ele não deve acreditar em qualquer coisa, o que lhe pareça mais politicamente correto ou o que lhe apareça mais sorridente e amigável. Não deve acreditar em calúnias sem fundamento que surgem em epoca de campanha com o único objetivo de angariar mais votos e vencer o "campeonato". Não deve aceitar como fato tudo que um tipo de imprenssa mercenária diz. Não deve achar que o fato de ilegalidades sairem de baixo do pano é ruim, é ruim também, mas é um indício de que o governate do país está mais atento, quer desmascarar as corrupções, fichar quem as fazem, e não teme ser colocado no pálio também porque não tem nada a esconder.
O fato de haver politicagem não quer dizer que a democracia e a cidadania não valem à pena. Aquela política descompromissada mostra sinais de extinção, mostra que está prestes a cair de vez, escândalos explodem no noticiário todos os dias, prisões e cassações são decretadas, leis, ainda que a custo, prometem agir com eficácia, os candidatos ao poder tem representantes em todas as classes, de todos os sexos e ideologias. As coisas estão se descentralizando e a ganância de políticos e partidos que sempre fizeram o povo de joguete deixa cair o véu cada dia mais, promessas quaisquer não sustentam mais um voto. Já a democracia e a cidadania sempre existirão, são direitos conquistados que jamais vão sair de moda. Significam progresso e não há mais como andar para trás, estamos indo em frente, crescendo sempre, por mais que pareça ser por um caminho tortuoso e camuflado tenha certeza que muito pior já foi.
Acredite, antes o índice de analfabetismo era gritante e não havia perspectiva de eleitores conscientes. Antes a única mídia que havia, ainda muito imatura, andava junto com os poderosos políticos controladores do povo e quando surgiram outras mais conscientes que decidiram denunciar a realidade foram censuradas. Antes as máscaras não caiam, antes nada era divulgado e quando surgiu um governo que iria fazer mais pelo povo as armas tomaram o poder e traumatizaram vidas, mentes, famílias, sonhos, histórias.
Enfim, hoje as coisas estão melhores, ainda que pareça absurdo dizer isso, é verdade. E se estamos desestimulados diante da democracia, não é culpa só da corrupção ou só dos políticos, é culpa nossa também que por imaturidade política fizemos escolhas erradas das quais nós mesmos nos arrependemos depois. Algumas não faz tanto tempo, infelizmente. Mas justamente por hoje a situação mostrar mudanças, justamente por hoje enxergarmos que erramos em muitas escolhas é que devemos enxergar com muito cuidado e responsabilidade essas eleições, praticar o "além do que se vê", do que é dito, do que é anunciado na tevê ou em pedaços de entrevistas que com uma boa montagem compromete qualquer um. Precisamos usar de toda nossa conciência e direito de escolha para refletir sobre os melhores canditados, estudar suas propostas e principalmente o que há por trás de seus sorrisos e discursos politicamente corretos. Devemos mostrar que estamos amadurecendo politicamente, criando discernimento político e que qualquer propaganda bem feita ou promessas mirabolantes não irão ganhar nosso voto. O brasileiro quer mais, ele principalmente é capaz de escolher bem, refletindo e pesquisando, e depois de enxergar a verdade por trás dessa eleição de leilão ele poderá ter a consciência de que não foi marionete de joguetes políticos dessa vez.

Manuella Mirna

domingo, 11 de julho de 2010

Da violência urbana à pena de morte!


A pouco tempo ví um documentário, ônibus 174, que, como esperava, chocou-me. Mudaram crenças, valores, pensamentos e a opinião nula e titubeada que havia em mim sobre essa questão. Ele me fez ver que vivemos uma guerra não declarada, invisível, presente na tevê, nos rompantes violentos diários, no nosso preconceito, no nosso egoísmo, na nossa alienação social, na nossa desumanidade, na vingança, na falta de opinião e na opinião errada sobre uma realidade destorcida nas nossas mentes doentias. Em guerra as pessoas colocam para fora seus piores sentimentos humanos, ou pior, instintos não humanos, tudo porque se crê que estaremos protegidos se num ato “heróico” e “corajoso” exterminarmos o nosso inimigo. Não é assim que acontece? E é normal, não é? Não; é obsessivo e equivocado. Foi isso que Hitler fez e, no entanto, o condenaram mentalmente e mundialmente ao Inferno. Concluíram que a visão de inimigos é relativa e que “esses tais” podem ser criaturas com uma história, sentimentos, sonhos e fragilidades, que merecem como qualquer ser humano respeito, direitos assegurados, atenção, amor e propósitos. Nesse contexto, nesta guerra invisível que nos encontramos, na qual todos que não fazem parte das nossas convenções e classes sociais são “inimigos”, se nós decidíssemos nos armar e atentar contra essas vidas com a justificativa de proteção, não estaríamos sendo bárbaros, nos igualando a Hitler - que já condenamos - e tentando resolver a violência, conseqüência de problemas civis, com a própria violência? Isso não seria retrógrado, hipócrita e ineficiente? Mas é exatamente o que fazemos.
Fazemos porque achamos que exterminando esses inimigos, que nos roubam, seqüestram, constrangem, têm origens duvidosas e modo de vida que não compreendemos, iremos acabar com os problemas da sociedade, e tudo voltará a mais perfeita paz. Mas veja só: se achamos que fazendo isso teremos paz é porque não a possuímos, se não a possuímos é porque vivemos uma guerra, e não existe guerra se não houver causas gritantes e pessoas desesperadas tentando chamar atenção para a resolução de problemas. Do que se conclui que existe uma guerra, existem causas para ela e pessoas sedentas por serem vistas e por terem voz. Se nós pegarmos as armas e exterminamos essas criaturas os problemas não estarão resolvidos, em vez disso o terror estará instalado e a guerra não terá fim. Assim, a paz não existirá.

A pena de morte para crimes civis foi aplicada pela última vez no Brasil em 1876 e não é utilizada oficialmente desde a Proclamação da República em 1889. Só que temos dessa data para hoje a Ditadura, a qual teve milhares de inocentes não só mortos, mas torturados, qualificados na mesma idéia anteriormente citada de “inimigos” da sociedade. No entanto,
de acordo com a Constituição de 1988, a aplicação da pena de morte durante tempos de guerra é aceitável. Contudo, analise que vivemos uma guerra não declarada, mas sentida por todos. E aí? Como ficamos? Devemos partir pra cima e matar mesmo por “legítima defesa”? Bem, em 2007, o caso do menino João Hélio fez os meios de comunicação reacenderem a discussão sobre a reintrodução da pena de morte. O governo brasileiro, no entanto, vem demonstrando pouco ou nenhum interesse em reintroduzir a prática. Apesar de que o apoio popular ao uso da pena capital aumentou drasticamente no país na época do crime. Então, percebe-se que somos violentos como defesa à violência. Entretanto, nada justifica a barbárie de voltarmos à Lei de Talião, olho por olho dente por dente, pois como disse Gandhi “Um olho por um olho acabará por deixar toda a humanidade cega!". Ademais é necessário avaliar que os direitos humanos, tão consagrados, defendem o direito à vida de todos, de todos sem exceção. Iremos nos confundir com “esses tais criminosos” se não respeitarmos a vida como um todo, inclusive a dos que matam. O que necessitamos mesmo é o fim da barbárie e do ódio, mas ainda não conseguimos perceber o caminho para tal ideal inconsciente.
O mais importante a lembrar são as causas da violência, as quais levam humanos desesperados a serem delinqüentes. Podemos apontar como possível culpado o Estado brasileiro, que falha diante de seus cidadãos, pois más condições de educação, de saúde, de moradia, só podem gerar famílias desestruturadas, jovens sem esperança de ascender na vida, que têm sonhos destruídos. Assim, com a marginalidade dessa parcela da população, suplicando por oportunidades e por serem vistos de fato, a saída é aventurarem-se pelas vias da violência urbana. Porque como seres humanos sujeito a falhas essas criaturas estão desesperadas por providenciar sua sobrevivência e a dos seus, ainda que para isso tenha de romper com as normas sociais vigentes. Então, se o Estado é o maior responsável pela elevação no índice de criminalidade, particularmente pela brutal concentração de renda, ele carece de condições morais para dizer "quem tem o direito à vida e quem, por seus crimes, deve ser apenado com a perda da vida, direito humano básico". Até porque o juízo humano é falho e a pena de morte é uma punição irreversível.

Assim, a violência urbana é o reflexo de humanos loucamente desviados pelo desespero de suas situações criadas pelas desigualdades sociais. Se nós pegarmos em armas e matarmos essas criaturas, estaremos transgredindo os direitos humanos, voltando à barbárie, igualando-nos a ditadores malucos e inflexíveis que viram nessa pena salvação de “males”, e ainda, culpando essas pessoas por uma realidade que elas não escolheram por gostar e sim por falta de oportunidades realmente eficazes. A pena de morte não se justifica também por ser mais barata e simples, porque é mais cara: as custas de processos, cárcere protegido especial (para evitar linchamentos), apelações, vigias, sacerdotes, maquinário e carrascos custam três vezes mais que um aprisionamento perpétuo do cidadão a ser assassinado, por exemplo. Além disso, é provado que em países que há essa pena os crimes aumentam sobremaneira: no Irã os índices de criminalidade sofreram significativo aumento com a reimplantação da pena de morte após a revolução islâmica, já na França houve uma significativa diminuição naqueles com a abolição da guilhotina.

Ainda é importante ressaltar uma questão delicada que acontece na nossa sociedade pelo excesso da violência e a instintiva proteção violenta – e considerada normal - contra ela, que é
a banalidade do mal. O defensor da pena capital, em geral, não se dá conta de seu grau de comprometimento com a medida que propõe, pensa que, por caber a outros a execução nada mais tem a ver com isso. De novo o modelo nazista: o Führer não se sentia pessoalmente responsável pelo que acontecia fora de seu gabinete, onde as penas capitais eram decretadas, nem seus oficiais por meramente retransmitir ordens dadas, menos ainda os subalternos por cumprir aquelas ordens, todos burocraticamente distantes uns dos outros e pautados pela lei instituída. Aqueles que defendem o assassinato institucionalizado no Brasil não querem comprometer-se, mas é preciso demonstrar, por mais chocante que isto possa parecer, que cada vez que alguém comete o simples ato de erguer a mão para votar a favor da implantação desse retrocesso em nossa legislação está sendo cúmplice de um assassinato a ser cometido pelo Estado. Como disse Elie Wiesel, nos tornamos parceiros do crime quando não o denunciamos, quando aceitamos o que é feito sem responsabilidade das suas conseqüências, pois quando ficamos calados ou concordamos passivamente com o modelo vigente nos tornamos cúmplices dele. E se o modelo é o da violência, somos também violentos; e se o modelo é o da pena de morte somos também assassinos.

Manuella Mirna


Outras vozes:

"Mesmo sendo uma pessoa cujo marido e sogra foram assassinados, sou firme e decididamente contra a pena de morte... Um mal não se repara com outro mal, cometido em represália. A justiça em nada progride tirando a vida de um ser humano. O assassinato legalizado não contribui para o reforço dos valores morais."
Coretta Scott King, viúva de Martin Luther King

‘‘Sou sobrevivente de um campo de concentração. Meus olhos viram o que nenhuma pessoa devia presenciar. Câmaras de gás construídas por engenheiros ilustrados. Crianças envenenadas por médicos instruídos. Bebês assassinados por enfermeiras treinadas. Mulheres e bebes mortos a tiros por ginasianos e universitários. Assim, desconfio da educação. Meu pedido é o seguinte: Ajudem os seus discípulos a serem humanos. Os seus esforços nunca deverão produzir monstros cultos, psicopatas hábeis ou Heichmans instruídos. Ler, escrever, saber história e aritmética só são importantes se servem para tornar nossos estudantes mais humanos’’ E-mail da diretora de uma escola israelita

"O que é a pena capital senão o mais premeditado dos assassinatos, ao qual não pode comparar-se nenhum ato criminoso, por mais calculado que seja? Pois, para que houvesse uma equivalência, a pena de morte teria de castigar um delinqüente que tivesse avisado sua vítima da data na qual lhe infligiria uma morte horrível, e que a partir desse momento a mantivesse sob sua guarda durante meses. Tal monstro não é encontrável na vida real." Albert Camus