Há visões que não nos deixa fechar os olhos.Há situações que nos acorda da passividade.


Há rotinas que nos impede de se esconder.
'No meio do caminho tem várias pedras'.
Na rua de todo dia, no trânsito nosso de cada dia, é difícil se omitir de sentir o efeito do conto real de nossa cidade sobre nós mesmos.
Cenas inquietantes que te ironizam, minha cidade, e que desafiam nosso olhar, nossa sensibilidade, nosso ser.
A caminho da aula, vê-se dois lados de uma mesma calçada. E entre tantos outros, há uma ladeira para baixo muito íngreme encravada na calçada, um beco de uma só saída para a esquerda. Ironia boba ser para esquerda, triste metáfora ter uma só saída. Esse beco parece ser a entrada de uma comunidade conhecida como favela do Iraque. Pelo que ouvi recebeu esse nome porque sua ocupação aconteceu na época das invasões do Iraque, em 2003. Talvez um nome colocado por brincadeira, talvez por ignorância dos fatos, já que os "invasores" nesse caso são as reais vítimas. Entristece o fato de eles precisarem encarnar invasores para morar, abrindo espaço no chão. E na maioria dos casos não é questão de preferência, mas de, literalmente, só ter um caminho a seguir.
Em viagem boa a uma ilha urbana na zona sul, da ponte de entrada a ela, se vê que à beira do rio estão construindo um centro de compras. Ao lado desse futuro pólo de consumo e lazer ficam habitações fincadas nas águas duvidosas do rio. Nelas sobreviventes 'da lama e do caos'. Imagem desconcertante na beleza histórica da cidade.
Continuamos nosso passo, e nas calçadas de uma alta torre de negócios dorme um filho teu, cidade. Mais a frente um terreno vazio abriga outdoors. A propaganda mora segura para ganhar nossa atenção, um filho teu perece na calçada, à espera de que?
E quando vem a chuva, o campo de futebol das crianças da comunidade vira lama e a beira de todos os lados de rios fica o lixo que teus filhos deixaram cair. Os carros boiam nas consequências do descaso com o meio ambiente e contigo, cidade minha. A mesma chuva boa que aconchega de noite quem dorme tranquilo sob o cobertor. A mesma chuva boa que dá letra para minhas canções e corda para vagar meu pensamento.
Imagens. Estranhas ironias. O bom se torna cruel no mesmo dia, na mesma paisagem, na mesma cidade. Teus filhos tem culpa, cidade minha? Talvez. Mas arranjar culpados não me cabe. Até porque não é teu privilégio ser irônica. Em todos os lugares ainda se vê infinitos lados, bons e maus, de um mesmo plano. Mal me cabe a tentativa de nos fazer enxergar o que tu mostras tão claramente. Nos fazer atuar com responsabilidade universal, nome grande para um conceito simples: ame e zele pelo que/quem dá algo de essencial para ti. Assim, sem escancarar em colorido tuas ironias, sem citar nomes, endereços ou culpados, só tento que te vejam melhor, minha cidade e que façam mais por ti, por nós... E que prevaleça a tua magia.

De encantos, de desencantos. De carnaval, de luto. De belezas, de tristezas. De São João, de zé ninguém. De 1 milhão, de mal 10 reais. De Veneza, de Guiné Bissau. De Nassau, de Henrique Dias. De mascates, de usineiros. De arranhacéus, de habitações sem andar pro céu. De barulho, do meu sossego... Desconfio que a música nasceu dos sons da rua em harmonia com os sons da natureza. E no fim, no conflito, se encontrou a beleza, serena e inocente. Mas às vezes há uma lágrima que sufoca a voz na garganta e corta essa bela sinfonia. É quando se mostra a ironia. Ela não te deixa feia, mas tua beleza já não me parece mais tão inocente. É beleza madura. E tu vives e persistes.

Essa caolha encravou em ti como erva daninha em um 'baobá'. E agora tu pareces indissociável da fria desigualdade que corta a espinha dos que no teu chão se deitam para descansar (será que eles conseguem sonhar?). Tu, minha cidade, és parte responsável por meus olhos terem se aberto e eu não conseguir mais fechá-los. E é assim que nas tuas pontes vejo divisão, união e poesia. Nas tuas calçadas enrugadas vejo tema para minhas entrelinhas. Num filho teu do chão ou num filho teu do prédio de milhões, que assiste a esse espetáculo de uma das pontas singelas de tua versão de cidade antiga, vejo suplica para minhas frágeis revoluções textuais. Mas é também no teu pôr-do-sol, que assisto de uma de tuas pontes, do alto de minha janela ou no ônibus que te circula como sangue nas veias, que acordo pela segunda vez no dia e meu dia começa dourado e poético outra vez.

Decerto que tens, cidade minha, infinitas ironias que não cabem nas minhas palavras atropeladas. Mas nem por isso te amo menos, pois aprendi que o lugar que abriga a nós, aos que nos gostam e aos que gostamos é o lugar que estamos em paz, independente de onde seja, ou como seja. Até digo não ser fã do barulho, da fuligem e dos arranhacéus, não é mentira. Mas nessa rede caótica encontro paz nos meus dias e, já que sustentas meus olhos abertos, é também em ti que inflo meu coração de tema para os meus cordéis, na vontade que percebamos "quanta mudança podemos todos nós" a fim de consertar tuas ironias e te fazer sorrir um riso sereno todo dia. Sem talvez(es), sem dois lados da mesma calçada. A fim de te ver inteira.
Enquanto minha voz é baixa e não é chegada a hora do teu riso pleno, vou te fazendo poesias, tu vais dando bordado para minhas rimas às avessas e por ti prezo e peço para que melhores da tua ironia.
E, ainda uma vez, não pense que te renego. Pois é em ti que, por ser lugar meu, encontro o pão de todo dia, as pautas das minhas músicas, as letras que me alimentam, o amor nas entrelinhas, a nobreza de certos olhares, pano para meus pensamentos e melodias, o ensinamento que há nas saudades que sinto e paz para minha trilha. Tua magia penetra. Em ti acordo e digo bom dia. Em ti respiro ao pôr-do-sol. Em ti me aconchego e sob o luar desejo que 'durmam os medos teus' e que tu sonhes em paz.

Durma bem, cidade minha, e que possam sonhar todos os filhos teus.
Manuella Mirna
Nenhum comentário:
Postar um comentário