Mais algumas dessas casinhas ficam na ribanceira íngreme entre o rio e a estrada, outras ficam já perto da calçada. Choveu muito esse final de semana, não demais, mas o suficiente para ameaçar a segurança dessas e de outras casas em semelhante estado. Uma dessas, bem na beira da estrada, hoje quando passei por esse caminho, não existia mais. O que havia eram destroços do que pareciam ser paredes e alguns poucos móveis. Na verdade havia unas palhas que formavam um telhado, tábuas de madeira que juntas formavam um quadrado e no meio dessas tábuas um sofá. Deitado nesse sofá, adormecido de um sono que parecia o isolar de todo o barulho e movimento da estrada, um homem.
Olhei algumas vezes para entender a cena. Não sei o que houve bem ao certo. Não sei de que era seu sono. Não sei se o que parecia uma casa, um dia tinha sido uma, ou como ela se destroçou. Mas abaixo dessa "casinha" havia várias na ribanceira e mais lá embaixo na beira do rio. Outras mais na frente da calçada faziam vistas de que a "casinha" do homem do sofá não era isolada. Chuva forte parecia ser o motivo de ela não existir mais. Chuva poética e aconchegante para uns, mas de desalento para outros, como para ele.
Pensei muito que seu sono uma hora iria passar. Algum momento, não muito doce, iria acordá-lo, e o que ele faria então? Será que ele tinha para onde ir ou por quem procurar? ... Perguntas que não se consegue calar. Olhos que não se consegue fechar a caminho de qualquer lugar que mostre suas rugas de encantos e desencantos.
Do outro lado da estrada, mais a frente, mais casinhas. Dessa vez erguidas sobre um pequeno campo. Construídas muito juntas, elas parecem ter a intenção de se apoiarem unas nas outras, formar um pequeno povoado desconhecido mas unido de alguma maneira, já que isoladas elas parecem mais vazias e frágeis. No campo ao lado delas "moram" torres de energia elétrica de altíssima potência. Alta potência junto de frágil potência material. Potências de natureza diferentes, é claro, mas ainda assim chama a atenção quando você as coloca na mesma cena. Imaginar que parte da cidade é iluminada pela energia que sai daquelas torres e talvez as casinhas nem recebam essa energia elétrica. Perceber que as torres tomam um espaço bem maior que as casinhas e, no entanto, as torres armazenam energia - parte "abstrata" de uma casa, que não pesa ou ocupa espaço -, e as casinhas abrigam pessoas, vidas, histórias - parte fundamental do mundo e que decerto ocupa mais espaço que energia, espaço imerecido ao que parece. Cena curiosa.
Nesta tarde, a hora anunciava que o sol estava para se pôr, a luz no céu ficando mais amena a cada quilômetro pela estrada. Ventava muito, dizendo que à noite haveria chuva (realmente choveu esta noite). E o vento, quando desci na parada, parecia especial.
Cada vento tem um gosto diferente, sibila algo novo.
Esse, como outros de outras ocasiões, parecia querer acalmar o que havia, não assustar. Acalmar a inquietude de cenas que ficaram atrás na estrada. Parecia querer dizer que tudo ia ficar bem. Que de alguma forma, nem sempre tão simples, nem sempre tão rápida, mas de alguma maneira as coisas iam harmonizar-se, encontrar melhor diretriz, uma saída boa para o que agora não parecia ter uma. Porque como acontece do dia a dia, muitas vezes de repente, no meio do caos, com um pouco de boa vontade, se encontra os melhores sentimentos e valores vivos, como não se imaginava ainda existir.
Trata de não se desesperar, mas não esperar sentado. Acreditar e ir adiante. Porque numa tarde assim, num caminho que parece ser fadado a histórias tristes, numa segunda que dizem ser ingrata, há um Sol, brando, mas há. Um mesmo Sol que brilha para todos, ilumina e acorda todas as cenas de uma mesma cidade, todas as raças de um mesmo povo, todos os degraus e buracos de uma mesma estrada. E no fim, no seu ponto de parada naquela etapa, quando você precisar descer e continuar o caminho achando que a bagagem pesa demais, bons ventos sempre chegam. Para as casinhas, para o homem do sofá, para mim, para você, saiba: bons ventos sempre chegam quando você menos espera. Em forma de experiências impagáveis, soluções inesperadas, situações incomparáveis, oportunidades imperdíveis, momentos únicos, verdades necessárias, pessoas especiais... bons ventos sempre chegam.
Apenas continue seu caminho, faça o que sentir que deve, seja o melhor que puder, seja pessoal e social ao mesmo tempo, tenha as atitudes que espera nos outros, abra sorrisos, enxugue lágrimas, para você e para as pessoas do seu mundo e esteja atento a esses ventos. E aí, quando sentir uma brisa diferente, não deixe ela só passar por você, se permita inundar-se dela, pois ela irá te levar para outros rumos, até mais belos e encantados do que você imaginava. Deixe-se levar por essas ocasiões concretas, cheias de consequências visíveis e sociais, mas também invisíveis aos olhos humanos.
Enfim, não perca a oportunidade de sentir, pensar, ser, fazer melhor e espalhar a mudança e o afeto por aí. Porque bons ventos, apesar de tudo, sempre chegam, só cabe a nós saber enxergá-los e de fato transformar o nosso mundo a partir deles.
P.S. [Mensagem relacionada] Neste período de chuvas muitas pessoas estão sofrendo as consequências do descaso humano com o meio ambiente e com as cidades. Acho que já há alguns anos a humanidade tem percebido que os atos inconsequentes de só sugar da natureza sem restituí-la, ou seja, a falta de um manejo dos recursos naturais para que se possa usá-los sem devastar a natureza, tem causado muitos problemas para nós mesmos. É verdade que nem todos agem mal assim, algumas pessoas e empresas corajosas fazem a sua parte no todo. Mas, infelizmente, os anos de descuido mostram todos os dias suas consequências. Infelizmente, alguns sofrem mais diretamente as consequências disso. Mas, no dia a dia, nas pequenas como nas grandes coisas, cada um pode ser a mudança que espera no outro, como pensava Gandhi. E pode aí ser o bom vento de alguém, aproveitando-se das oportunidades que aparecem como brisas na nossa estrada, para que façamos ou não algo a partir daí. Então, pegue roupas que você não quiser mais, mas que ainda podem ser usadas por outras pessoa, alimentos e água, se você puder, e doe. Procure postos de coleta mais perto de você: http://pe360graus.globo.com/noticias/cidades/chuvas/2010/06/23/NWS,515506,4,214,NOTICIAS,766-CRESCE-NUMERO-DOACOES-VITIMAS-ENCHENTE-PERNAMBUCO.aspx.
Preces e pensamentos positivos também são ajuda e medicação e não medem distância, nem necessitam de um posto de coleta. O pouco que você faça, pode ser muito para quem precisa.
Manuella Mirna
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