sexta-feira, 3 de junho de 2011

Devaneios permitidos

Quarta à tarde. Aula de Teoria Literária. Pouco mais de trinta cabeças sedentas por arte, mas também por tudo que não fosse aula. Um homem distinto lá na frente disposto a falar tudo que sabia e um pouco mais. A teoria do dia não era a melhor de todas, não era melhor que práticas artísticas ou experiências a viver; naquele momento era só teoria, que só desabrocharia anos mais tarde no cotidiano encantado da língua em que escolhemos viver. Mas numa aula assim tudo que não é teoria é vida, é pensamento, é sentimento. Numa aula assim há a meta do assunto a cumprir contra um caminho misterioso e atraente a percorrer. Ficamos com os dois, mas certos dias gostamos mais do segundo. São devaneios permitidos pelas paredes respeitadas de uma sala de aula, devaneios a que nos permitimos por gosto a enxergar o algo a mais, as pequenas grandes coisas, os detalhes apagados pela correria do nosso olhar desatento, o brilho que há em cada coisa, em cada um, em cada...

E desconcentrada do todo, como criança, brinco com versos de mestres:
"o essencial é invisível aos olhos"...
mas muito nítido para o olhar.
porque entre tantas palavras belas eu escolho 'sodade', e ela se vê em meu olhar.
"gosto muito do pôr-do-sol, vamos ver um"...
mas se você não aparecer a tempo de vê-lo,
se meu pôr te parecer o nascer,
e meu nascer parecer futuro para ti,
não faz mal,
podemos ver então as estrelas e nos fazer lua para elas 'espiar'.
"se tu vens às três da tarde desde Às quatro começarei a ser feliz"...
mas se não é sensato falar em felicidade nesse mundo,
falo de algo assim mais sadio que ansiedade e mais pleno que alegria,
algo assim sem razão aparente;
razão: coisa que não existe no meu sonho, mas no dia prende meus pulos de criança.

E imersa de novo nas quatro paredes feitas de metas e artes, sou apenas uma entre as mentes que se permitem devaneios instigados pelo homem distinto lá da frente:
"adoro o som dos sinos e o som da máquina fotográfica, congelam o tempo"...
verdade, quando o sino bate seis horas, tudo que ocorre dentro das seis horas se congela, de alguma forma se imortaliza, de alguma forma se percebe a importância dessa hora, paramos sem perceber contemplando aquele momento de agora, aquela tempo que o som de um badalo insistente quis imortalizar e nos fazer dar valor não só para a importância daquele momento, mas para todos.
Verdade, quando a máquina faz 'clic', ela diz que guardou aquele momento para sempre. Como diz Quintana, os momentos são belos justamente por serem finitos, mas são tão belos que queremos tê-los para sempre de alguma forma e para sempre lembrar dos sorrisos e dos sentimentos que ilustram uma fotografia, que marcaram uma vida.
E sem saber bem porque me vem uma vontade humana de não perder esses momentos, de não deixar que eles passem sem que notemos suas ilustres presenças. Pois sem nossos mosaicos de momentos o que seria a vida? Nossa colcha seria vazia, e toda furada não nos acalentaria nos dias de frio. Porque sem percebermos são esses momentos, essas lembranças e essas pessoas das fotografias que nos protegem do frio dos nossos medos e se abrigam conosco das tempestades do caminho.

E entre outros, um devaneio final fecha nossa respeitosa permissão de aula de arte:
"as intervenções da arquitetura na cidade"
O homem distinto lá na frente disse essa frase ao contar uma história que aconteceu com ele. Um amigo seu, que fazia arquitetura na época, o fez observar como as luzes de um prédio se apagavam e se acendiam, o fez ver esse movimento e entender que arquitetura era mais que fazer prédio, era intervir na cidade e na percepção das coisas e o disse essa frase.
E me lembrei de como é bom ficar na varanda observando esse movimento, quase bobo, das luzes de um prédio ao longe. E agora senti também a saudade da saudade de uma pessoa que sente falta de olhar as luzes dos postes e dos carros à noite, o movimento das pessoas, o corre-corre de vidas tão cansadas, que acreditam por vezes estarem invisíveis. Ato quase banal, mas tão singelo, tão vivo. São vidas. São histórias. São pessoas e seus pensamentos, suas conversas, suas progressões de cena. É como contemplar o mundo respirando, se renovando a cada apagar de luzes para um novo acender em outro cômodo... nada será do mesmo jeito que foi de um apagar e acender há segundos trás. E aí, nada parece tão confortante quanto olhar para a vida de frente e assim percebermos que nossa vida vira obra de arte se quisermos vê-la assim, se quisermos perceber que para um outro, na varanda da sua casa, num ônibus, passando de noite pela cidade, somos focos de luz e história, momentos de vida e sossego para ele. Movimento, vida, poesia. Saudade.

E eu me pergunto: Devaneios?!
Não, doces verdades. Elas só pedem olhos atentos, olhos sensíveis, olhos que vejam o algo a mais da vida, olhos como os dessa pessoa que conseguiu me fazer sentir a saudade que ele sente de observar a vida de ângulos tão 'bobos', tão poéticos, tão vivos.

Manuella Mirna

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