2010, ano de eleições, daquelas longas e complexas. Poderia ser mais um ano de exercício da cidadania e da democracia, mas tem sido bem mais que isso, infelizmente, para pior. Estamos tendo uma das eleições mais desleais que nosso país já assistiu, se bem que, em se tratando de eleições diretas e realmente democráticas ele não assistiu a muitas, mas essa, com certeza, irá ser lembrada pela mentira e pelo jogo sujo.No Brasil, a democracia sempre sofreu duros testes para se efetivar, como os votos de cabresto e as oligarquias cafeeiras que controlaram as decisões nas eleições durante a República Velha, e a até a Ditadura para ameaçar os sonhos de cidadania e liberdade, mas ainda hoje ela parece cair por terra a qualquer momento. Não falo aqui da democracia como direito do povo de comparecer às urnas, mas da democracia conscientizada, aquela em que não somos marionetes de politicagem, aquela em que não somos "convidados" a responder em um plesbicito o que os candidatos não estão preparados ou tem medo de tomar posição, aquela na qual não há leilão para ver quem engana mais o eleitor por um voto, aquela a qual não é pichada por propostas infantis e mirabolantes que em nada, de fato, colaboram para o crescimento do país e sim para o descredito do cidadão diante do seu direito de escolha. Os mais conscientes perguntam-se se realmente esse tal direito tem valor e que valor é esse: cestas básicas, tijolos, uma nota de $600, tarifas reduzidas nas operadoras de celular ou leitores digitais?
É realmente lamentável que um país com fama de pacífico e amistoso tenha tanta guerra durante processos políticos tão importantes, que deveriam ser celebração da democracia. Guerras por um voto, pela melhor mentira, por um eleitor, por uma cadeira confortável num palecete no centro do páis. No meio desse tiroteio de idéias muitas vezes mascaradas com um discurso popular, o eleitor fica sem saber em quem acreditar, o que ouvir, o que defender, o que escolher. Nessa loucura de campanha, o cidadão não consegue distinguir o verdadeiro do mentiroso e acaba por não exercer com a devida consciência e satisfação sua democracia.
A política atual, com raras exeções que nos custam muito identificar, tenta de todas as maneiras nos furtar o direito de pensar com clareza, de refletir com discernimento, pois o que se diz não se escreve, o que se faz não se divulga, e quando algo vem à tona mais nos parece que a única coisa feita no palecete é tentar nos esconder as falcatruas. Para compeltar o cenário, a mídia, que deveria esclarecer o eleitor e informar de forma objetiva e sobretudo ética a verdade das campanhas eleitorais, dos políticos, o cerne de cada proposta e a distinção entre o dizer e o fazer de cada candidato, entra no joguete político e passa a distribuir a mentira melhor paga.
Diante disso tudo é natural que o brasileiro ache votar em branco/nulo como única solução para seu descredito ou eleja um palhaço para rir da própria desgraça. Mas isso não é fazer jus a cidadania, por mais que essa hoje em dia pareça utopica; isso não melhora as coisas, só pioram. Até porque o brasileiro orgulha-se de ser alguém que não desiste nunca, então ele é o último que deve desestimular-se, que deve achar que não há mais jeito e deixar-se dobrar às muitas tentavas insanas de borrar nossa democracia. Assim, ele não deve acreditar em qualquer coisa, o que lhe pareça mais politicamente correto ou o que lhe apareça mais sorridente e amigável. Não deve acreditar em calúnias sem fundamento que surgem em epoca de campanha com o único objetivo de angariar mais votos e vencer o "campeonato". Não deve aceitar como fato tudo que um tipo de imprenssa mercenária diz. Não deve achar que o fato de ilegalidades sairem de baixo do pano é ruim, é ruim também, mas é um indício de que o governate do país está mais atento, quer desmascarar as corrupções, fichar quem as fazem, e não teme ser colocado no pálio também porque não tem nada a esconder.
O fato de haver politicagem não quer dizer que a democracia e a cidadania não valem à pena. Aquela política descompromissada mostra sinais de extinção, mostra que está prestes a cair de vez, escândalos explodem no noticiário todos os dias, prisões e cassações são decretadas, leis, ainda que a custo, prometem agir com eficácia, os candidatos ao poder tem representantes em todas as classes, de todos os sexos e ideologias. As coisas estão se descentralizando e a ganância de políticos e partidos que sempre fizeram o povo de joguete deixa cair o véu cada dia mais, promessas quaisquer não sustentam mais um voto. Já a democracia e a cidadania sempre existirão, são direitos conquistados que jamais vão sair de moda. Significam progresso e não há mais como andar para trás, estamos indo em frente, crescendo sempre, por mais que pareça ser por um caminho tortuoso e camuflado tenha certeza que muito pior já foi.
Acredite, antes o índice de analfabetismo era gritante e não havia perspectiva de eleitores conscientes. Antes a única mídia que havia, ainda muito imatura, andava junto com os poderosos políticos controladores do povo e quando surgiram outras mais conscientes que decidiram denunciar a realidade foram censuradas. Antes as máscaras não caiam, antes nada era divulgado e quando surgiu um governo que iria fazer mais pelo povo as armas tomaram o poder e traumatizaram vidas, mentes, famílias, sonhos, histórias.
Enfim, hoje as coisas estão melhores, ainda que pareça absurdo dizer isso, é verdade. E se estamos desestimulados diante da democracia, não é culpa só da corrupção ou só dos políticos, é culpa nossa também que por imaturidade política fizemos escolhas erradas das quais nós mesmos nos arrependemos depois. Algumas não faz tanto tempo, infelizmente. Mas justamente por hoje a situação mostrar mudanças, justamente por hoje enxergarmos que erramos em muitas escolhas é que devemos enxergar com muito cuidado e responsabilidade essas eleições, praticar o "além do que se vê", do que é dito, do que é anunciado na tevê ou em pedaços de entrevistas que com uma boa montagem compromete qualquer um. Precisamos usar de toda nossa conciência e direito de escolha para refletir sobre os melhores canditados, estudar suas propostas e principalmente o que há por trás de seus sorrisos e discursos politicamente corretos. Devemos mostrar que estamos amadurecendo politicamente, criando discernimento político e que qualquer propaganda bem feita ou promessas mirabolantes não irão ganhar nosso voto. O brasileiro quer mais, ele principalmente é capaz de escolher bem, refletindo e pesquisando, e depois de enxergar a verdade por trás dessa eleição de leilão ele poderá ter a consciência de que não foi marionete de joguetes políticos dessa vez.
Manuella Mirna
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