Artista plástico e escultor italiano do século XIX-XX que recebeu um filme em sua homenagem em 2004, Amadeo Modigliani é autor dessa frase que adaptei ao título deste post. Originalmente ela seria "Quando eu conhecer sua alma eu pintarei seus olhos".
Casado e muito apaixonado, Modigliani dedicou muitos de seus quadros a reprodução da sua esposa, como ele a enxergava, um tanto diferente para quem via os quadros, mas quem é capaz de contestar a visão particular de cada pessoa acerca de quem ela ama? Ainda mais quando se trata de um artista. As pessoas estranhavam, mas sentiam que a obra refletia um intenso amor. Uma coisa, no entanto, intrigava a todos, inclusive a mulher dele: Modigliani não pintava os olhos de sua amada.
Quando um dia ela lhe perguntou o porquê disso ele foi simples em responder: "When I know your soul I will paint your eyes". Amedeo achava muito difícil representar os olhos das pessoas, em especial da pessoa que mais amava. Acredito que os olhos para ele eram uma janela da alma, um espelho do que era a pessoa, com todos os seus conflitos, medos, mistérios, manias; todos os seus encantos, risos, delicadezas, grandezas, paixões; com todas as suas muitas faces surpreendentes e apaixonantes. Por isso sua mulher, a criatura a que ele mais amava, que achava mais surpreendente, mais complexa, mais humana, mais apaixonadamente humana, tinha o olhar mais misterioso de se pintar. Mesmo assim, não tentava desesperadamente, ele sabia que na hora certa conheceria sua amada a ponto de desvendá-la em cores. Amedeo acreditava que representá-la tão facilmente nas telas seria reduzí-la, diminuir o tudo que ela era a cores convencionais de aquarela.
Acredito que Modigliani compreendia o tão desejado apaixonar-se pela mesma pessoa todos os dias, e devia experimentar isso. Acredito que ele compreendia que é impossível definir cada parte mais discreta e marcante de quem se ama. Acrecito que ele compreendia que as pessoas são um mundo, um vasto mundo cheio de surpresas, e que especialmente aquela pessoa que ele escolheu para amar tem muitos encantos para representar tão facilmente. Acredito que ele compreendia, como Drummond, existirem muitas razões para não se amar uma pessoa, mas apenas uma para amá-la, e aí acrescento que é o simples fato de ser apenas ela mesma.
Decerto, como Drummond parecia saber na sua frase, Modigliani também parecia saber que não há perfeição nas pessoas, que realmente com um pouco de má vontade se acha vários motivos para não encontrar o amor. Mas parecia também saber, e principalmente, ver a verdadeira essência nos momentos, nos sorrisos, nos olhares, nos amores, no seu amor. Parecia saber que acima de tudo que já foi dito sempre existe mais o que se dizer, o que se descobriir, o que se desvendar, com o que se surpreender. Por isso não quis se precipitar em pintar os olhos de sua mulher.
Um dia, como devia ser, ele os fez. Encontrou a hora certa. Fez porque por algum motivo ele conseguiu colorir a essência do que era sua amada. É claro que todas as cores que ele usou não diziam todas as coisas que ela era para ele. Mas ele sabia que o amor de cores vivas estava representado na sua vida, na qual o compartilharia com ela, o descobriria e redescobriria nas muitas faces de sua amada.
Esse pequeno detalhe da vida do pintor me fez entender que realmente aquela pessoa que você ama é muito mais do que ela mesma se descreve. Que há muito ainda a ser dito e desvendado, mesmo com tudo que já foi dito. Que mesmo que você saiba quem está amando, felizmente esse alguém é muito mais do que ele mesmo supõe e você terá sempre novas coisas para amar numa mesma pessoa. E para que a face mais bonita de mostre, ou a face mais engraçada, ou a mais indiscreta, ou a mais marcante, ou todas elas, é preciso também que se deixe ver, se deixe mostrar, se deixe compartilhar aquilo que há de mais especial em você.
Acho que todos somos um pouco de Modigliani e de sua mulher, um pouco dos dois, sempre temos muito a mostar e muito ainda a descobrir. Mas algumas vezes nos fechamos, sem saber bem porque, não deixamos ser desvendados ou não queremos desvendar alguém; não só necessariamente aquele alguém, mas também aquelas pessoas que você conquistou e que conquistaram você de forma especial. Geralmente, nós temos medo de nos mostrar, de sermos descobertos nas nossas muitas faces ou de descobrir em alguém aquela face da qual não iremos querer nos separar. Geralmente por isso perdemos oportunidades de enxergar aquela pessoa tão especial ou de ser vistos de forma tão especial por alguém assim.
Modigliani devia ter também um pouco desse medo, mas ele era artista e não demosntrava tanto. Acho que devíamos tentar ser mais artistas nesse ponto, como em tantos outros. Não temer descobrir e ser descobertos pelas pessoas essenciais que aparecem aqui e ali na nossa vida, entre elas provavelmente existe aquela a quem irás amar muito.
Então, meu bem, quando eu conhecer tua alma, a cada dia que motrares mais dela para mim, buscarei estar atenta para conhecer mais um detalhe indiscreto e marcante de você. E já que não sei pintar, no dia que souber que não irei te reduzir a qualquer poesia, escreverei sobre teus olhos, eles que me encantam, impressionam, surpreendem, te revelam e me revelam tanto, sem eu sequer me dar conta, de forma tão essencial, todos os dias.
Manuella Mirna
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