sábado, 27 de novembro de 2010

O Pai e sua dor e O Trabalhador

Semana passada, a caminho de algum lugar, aconteceu uma cena comum a todos dentro de um ônibus numa cidade. Mas um detalhe me tocou em especial e quis dividir com vocês:
Entrou um homem pela parte de trás, aparentava entre 40-50 anos. Ele andava vestido muito simples, com um chapéu surrado, uma mochila e vários papéis na mão escritos à caneta relatando um fato não muito raro. O papel contava que seu filho precisou fazer uma cirurgia muito séria e muito cara, dizia o preço e em que parcela eles estavam, mas que agora ele precisava fazer uma segunda cirurgia ainda mais séria e ainda mais cara e eles, com muito esforço pagando a primeira, não tinham condições de arcar com ela. Ele pedia ajuda, qualquer que fosse, de qualquer quantia. Havia naquele momento unas 30 pessoas no ônibus... acho que não chegou a 5 as pessoas que o ajudaram com alguma quantia. Algo nele chamou minha atenção: seu silêncio. Ele entrou calado no ônibus, sem falatórios apelativos de uma história que as vezes nos custa a acreditar, e calado saiu. A única coisa que falava nele era o olhar: tinha uma dor longe, uma humildade a custa de duras penas e um desespero controlado pelas mãos atadas. Ele desceu.
Pouco depois subiu um outro homem, com seus 20-30 anos, vestido simples também e nas mãos uma caixa de bombons. Mas esse não aparentava dor, só vida, lutando por ela como um bom ser humano faz todos os dias. E esse não tinha o silêncio com ele. O que ficou claro ao dizer que emprego era difícil, mas trabalho tinha quem quer e obviamente se ele estava lá é porque ele queria e por isso pedia contribuição para seu trabalho com a venda dos bombons. Neste momento havia unas 35 pessoas no ônubus e pouco mais de 10 compraram seu trabalho. Ele saiu aparentemente satisfeito, pelo menos bem mais que o pai que carregava uma dor.
É verdade, provavelmente ele quer trabalho e merece reconhecimento e estímulo, como todos que saem das suas casas todos os dias, em melhores ou piores condições, e mostram pra vida que têm fibra e lutam ao sol por seu lugar, ou por um lugar melhor. Depois ouvi passageiros comentando a decência desse homem que queria algo com a vida. E eu concordo. Mas o que me chocou foi o silêncio, talvez omissão, com o outro homem. Não houve comentários. As ajudas também não foram estimulantes. Me pareceu um belo quadro de falta de confiança e de sensibilidade numa sociedade que só consegue creditar decência à pessoas que vendem algo, que têm algo a barganhar com eles, que têm algum resultado a mostrar, que têm como aparentemente provar que não são à toa na vida. Um quadro em que, pelo menos para mim, estava clara a indiferença a um problema que podia ser de qualquer um, mas como não era, não parecia ser verdade. Não quero julgar ninguém, nem quem é o bom ou o mau, muito menos se o pai tinha uma real dor ou era inventada, muito menos se o outro homem tinha mais decência que ele. Não quero e nem posso fazer isso. Mas queria muito que refletíssemos sobre que tipo de sociedade somos nós, em quantas coisas não depositamos uma chance de ser verdade, quantas vezes perdemos a oportunidde de sermos últil, de dizer para desconhecidos, sem usar as palavras, que fazemos parte do mesmo oceano que eles e que eles não estão sozinhos. Que não é só com produtos e resultados que nos importamos, mas com histórias, vidas e seres humanos. Que somos capazes de creditar decência e verdade às criaturas sem necessariamente algum tipo de aparente prova disso por parte delas. Que conseguimos ver além de um papel, de uma moeda, de uns bombons. Que podemos, através do silêncio ou de uma sincera observação nessas pessoas que passam assim pelos nossos dias, enxergar algo por trás delas, algo de valioso, de verdadeiro. Afinal de contas, se for dinheiro o que importa, não custam muitas moedas acreditar na história de alguém e dessa forma estimulá-la a continuar acreditando mais na vida.

Manuella Mirna

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