terça-feira, 9 de agosto de 2011

As margens ocultas do rio

Sexta passada, vendo um telejornal, me dei conta de coisas que, muitas vezes, durante nossa "dura" vida a gente se esquece: de que há vidas, realmente, mais difíceis que as nossas, e nem por isso mais amargas ou sem sentido.

A reportagem era uma trilha, feita pela equipe de reportagem, em busca da foz e da nascente mais distante do rio Amazonas, tentando mostrar as vidas que se relacionavam com cada cenário desses.

O curso do rio me fez lembrar o curso da vida, cheia de altos e baixos, partes rasas e partes profundas, calmas e muito agitadas, povoadas e sós, perigosas e aconchegantes... mas totalmente inundadas de encanto.


Já nós parecemos a pequena e firme balsa a desbravar as suas águas e as suas margens, seus percalços e todas as suas graças.


E não há como negar que mesmo com todos os meandros e as águas inquietas, a vida é fascinante e sempre reserva uma lição, uma surpresa boa, um sorriso, um aprendizado, ou várias mostragens de tudo isso.

De um lado, as partes boas todos digerem muito bem.


Por outro lado, as partes não tão boas, aquelas que primeiro assustam, para depois melhorar sem tempo determinado (mas creiam, melhora!), não são tão facilmente digeridas por nós.


Acho que porque não são compreendidas na sua razão de ser, na sua finalidade, no seu por quê. Mas, independente das respostas, dentre todos que passam por esses momentos, os sábios conseguem encarar com maturidade e até com certa graça as diferentes margens da vida, ou do rio, literalmente..

Sábios anônimos, como os que ví no programa (Globo Repórter) e não imaginava ser assim:

Uns, moram numa margem perigosa e vivem atentos às mudanças do rio:

"No baixo Amazonas, o rio é navegável, mas a vida em muitas comunidades é regulada pelas marés. Não são nem três da manhã e a dona de casa Maria Luíza dos Santos já prepara o café. Depois, chama os filhos Romário e Simone. Eles precisam se arrumar para ir à escola. Rotina? Até pode ser, mas uma rotina que muda todo dia. “De um dia para outro, a maré atrasa uma hora, todo dia tem um horário”, declara o pescador Pedro dos Santos. Às vezes, eles saem às onze da noite para assistir à aula no dia seguinte [...] Romário vai pela primeira vez à escola neste horário. A irmã já faz isso há anos e não se acostuma. “É complicado acordar essa hora, mas pelo estudo a gente faz tudo”, diz a filha, e estudante, Simone dos Santos.

São três e meia da madrugada, maré alta, hora de viajar. E o barco que faz o transporte escolar tem que sair antes das águas baixarem. Para quem estuda de manhã, não há outro jeito de chegar à escola. Os jovens se acomodam no barco e, dependendo dá para dormir um pouco. Mas, com o mar agitado e o vento forte, ninguém consegue. “Tem a fé que não acontece nada”, diz Simone. O piloto Joniel Lopes leva os alunos para a escola há quatro anos. Em dia de temporal forte, o barco pode até ficar à deriva no Rio Amazonas. ”É muita responsabilidade, inclusive a gente carrega o futuro, não é”, diz o piloto.

A tempestade passou longe, e o barco chegou antes de a escola abrir. Dá para dormir mais um pouquinho. Mas, logo, eles começam a se arrumar ali mesmo e desembarcam para assistir às aulas. Uma tarefa difícil depois da noite que tiveram. Para o professor, eles são guerreiros. “Coisa que muitos brasileiros não fariam, eles fazem para estar aqui todos os dias”, fala o professor.

São oito filhos e muita noite de sono perdido. “Mesmo assim eles tiram nota boa. Graças a deus ainda não desistiram. Está valendo a pena”, relata a mãe de Simone e Romário."

Pois é. Enquanto alguns reclamam ter de acordar cedo demais para ir escola, porque moram longe, ou do ônibus lotado e até mesmo do professor ou da escola, outros "acordam" às onze da noite, viajam um rio imprevisível, numa balsa gasta que não é mais potente do que nenhum carro popular, enfrentam chuva ou não, apreensão sempre e sono irreparável para assistir aula de manhãzinha. E é inspirador que, mesmo com tudo contra, eles não desistem, são de exemplo para o professor e motivo de responsabilidade para o piloto, que diz com toda segurança que carrega o futuro! Não digo que as primeiras situações mão sejam chatas, são sim, mas, às vezes, antes de levantar o dedo para reclamar ou abaixar o dedo para desistir da jornada, temos que olhar para mais adiante, para o outro lado da margem, para outras vidas mais difíceis que as nossas que continuam sonhando e lutando... E continuar sonhando e lutando também.

Outros, fazem arte da lama que encontram nas margens:

"Ao nível do mar, na Foz do Amazonas, os conhecimentos dos primeiros habitantes das margens do maior rio do mundo ainda passam de pai para filho. A cerâmica, que teve origem nas tribos marajoaras, hoje é fonte de sustento dos caboclos no local.
A equipe do Globo Repórter vai até o lugar onde os ribeirinhos tiram a matéria-prima das cerâmicas: a argila das margens dos afluentes do Rio Amazonas. “São quatro horas de trabalho, entre a saída, a extração da matéria-prima e o retorno”, conta o artesão Rosemiro Pereira.
Eles são barreiros profissionais e buscam a argila nos igarapés para vender para olarias e ceramistas. A equipe vai até o local onde é feita a extração de argila. Os barreiros retiram uma camada de terra com folhas e tudo e estão em busca do barro mais uniforme, de cor mais clara. Com a pá afiada, eles vão cortando os blocos de barro. Parecem barras gigantes de chocolate. Os artesões exigentes escolhem o barro com cuidado para fazer cerâmica de melhor qualidade.
As voadeiras ficam carregadas com mais de 100 bolas de barro cada uma. Cada bloco vai ser vendido a R$ 1,20. Depois, nos ceramistas, o barro vai virar jarros, vasos, pratos para decoração. A família toda do artesão Rosemiro está no negócio. Mas cada um cuida da sua produção.
A artesã Rosemaria da Silva gosta de pintar e consegue fazer um vaso em apenas um dia. “Perfeito, perfeição mesmo não existe porque é artesanal, então a gente tenta fazer o melhor possível’, revela a artesã.
E o que era sedimento, barro das barrancas do amazonas, vira arte nas mãos dos ribeirinhos."

Os economistas que viram isso devem ter se remexido na cadeira: 4 horas de viagem, numa canoinha pequena e frágil, para buscar uma determinada argila na margem dos igarapés, cavando com toda atenção, voltar com perigo da canoa partir de tanto peso e vendem o bloco por R$ 1,20; ao chegar, mais tempo para preparar o barro, dar forma, pintar... imagina o quão barato eles vendem esses jarros! Vidas simples, empenhadas, fortes e persistentes. Do inacreditável esforço eles fazem arte, para sobreviver. Delicados e firmes gestos que compõem histórias de exemplo para qualquer um que pense em reclamar da distância do trabalho, do trânsito, ou do computador lento.

Não consegui pensar no valor do super homem ou da mulher maravilha, antigos heróis da nossa infância, quando ví essas histórias. Tantos e tantos heróis da vida, do nosso Brasil, da nossa história... ocultos, anônimos, simplórios... mas de coração aberto, mãos dispostas e olhos atentos à vida, aos planos, para não perder o ânimo, o entusiasmo e a fé.

Não há muito mais a ser dito, tem coisas que falam por nós. Só sei que não pude não compartilhar isso aqui, para que essas vidas, essas margens ocultas do rio falassem por mim e, de alguma forma, tocassem nosso coração e impulsionassem mudanças de atitude.

E, como não podia deixar de ser, um apelo aos cuidados com nossa Floresta, com nosso Brasil e, consequentemente, com nosso Povo: (placa indígena)

Manuella Mirna

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