"Há um ano atrás eu conheci um homem que estava numa maré de azar e achei que poderia ajudá-lo. Não sei se ajudei. Sim, agora meu amigo Sr. Ayers tem um teto. Ele tem uma chave. Tem uma cama. Mas sua condição mental e seu bem-estar são tão precários atualmente quanto no dia em que nos conhecemos. Há quem diga que eu o ajudei. Especialistas em saúde mental dizem que o simples fato de ser amigo de alguém pode mudar a qualidade de seu cérebro, melhorar sua funcionalidade com o mundo. Não sei se foi o caso do Sr. Ayers. Talvez nossa amizade o tenha ajudado. Talvez não. Eu posso, entretanto, falar por mim. Posso afirmar que ao testemunhar a coragem do Sr. Ayers, sua humildade, sua fé no poder de sua arte, aprendi a dignidade de ser leal a algo que você acredita. E acima de tudo, manter tudo isso, se prender ao que se gosta, acreditando, sem dúvida, que isso o levará para casa." Fala final do Sr. Lopez no filme "O Solista"No dia a dia das grandes cidades, como Los Angeles ou mesmo como uma Recife, imersos no caos de fumaça e barulho que nos rodeia, tapamos nossa visão aos detalhes, aos olhares, aos anônimos das ruas, dos ônibus ou dos metrôs. Simplesmente e, muitas vezes, sem perceber nos fechamos aos nossos semelhantes, às diversas histórias que cabem em cada ser do nosso mundo. Tentando apenas sobreviver a mais um dia, resolver nossas questões, dissolver nossos problemas, a maioria de nós se tranca numa bolha individual que nos deixa impermeáveis ao mundo, às pessoas e aos dramas delas. Quando alguém, um simples homem, sem nenhuma capacidade ou dom de outro mundo, decide sair da sua bolha e enxergar o próximo, o meio que o rodeia, ele pode mudar muitas coisas e de um pequeno núcleo fazer essa mudança irradiar para influências maiores, fazer com que menos uma história seja inteiramente triste.
Sr. Lopez, um jornalista americano de Los Angeles, segundo mostra o filme, baseado em fatos reais, é o tipo de cara que tenta extrair dos dias os detalhes, os trechos do cotidiano que inspiram instigantes matérias na sua coluna. Em um dia qualquer, em mais uma tentativa de se inserir no mundo de forma mais convicente, ele se dapara com o Sr. Ayers, um morador de rua com um admirável talento para música e uma singular sensibilidade para ver as pequenas coisas. Ele, no entanto, tinha uma mente frágil que o fazia passar por louco. Não acho que chegava a tanto, mas uma mente saudável era tudo que ele não tinha. Essa condição o impedia de fazer progredir sua vida.
Sr. Lopez achou neste homem o tipo de história que ele procurava naquele momento, do tipo que não podia passar em branco, além de uma oportunidade para inserir Sr. Ayers de volta ao mundo dos homens sãos. Mas o que ele pensou ser apenas mais um forte relato de vida e uma ajuda casual, uma lição para seus leitores, na verdade, de modo mais completo, complicado e sensível passou a fazer parte da história dele próprio. Não que todas as outras histórias que ele contasse não tivesse relação na sua própria. Só que a do Sr. Ayers, de alguma forma, tocou mais esse jornalista e fez com que a vida dele nunca mais fosse a mesma.
Me parece que o Sr. Lopez, como um típico homem urbanamente ocupado, costumava deixar as histórias de vidas que ele contava em algum lugar que não estivesse tão próximo a ele, para não ter maiores envolvimentos. Sem julgamentos, pois cada um que tenta se resguardar em sua própria vida vê uma razão nisso, embora não seja, vendo com um pouco mais de sensibilidade, tão belo assim. Com a história de vida do Sr. Ayers, contudo, seu senso humanamente solidário não o permitiu se afastar e largar mão de alguém que precisava de ajuda. Foi assim que um típico homem urbano, querendo ajudar alguém de alguma forma permanente ou eficaz, se envolveu profundamente com a vida intrigante de um pobre desconhecido.
Mesmo assim, Sr. Lopez não conseguiu tudo que pretendia. Sr. Ayers não foi um músico famoso. Não se curou mentalmente. Não passou a levar uma vida com responsabilidades e progressos como qualquer outra. Mas tenho certeza de que ele é mais feliz hoje. Tenho certeza de que em algum lugar de sua mente obscura a vida passou a gritar em mais cores, passou a ser melhor elaborada para ele, a música foi mais bem satisfeita e seu coração tornou-se mais vivo.
Com esses trechos de uma história real que relato para vocês agora, não posso deixar de perceber o poder que cada um de nós tem. A influência positiva que podemos ser para pessoas até então anônimas para nós. Algumas não precisam palavras, apenas um gesto gentil ou um sorriso ou um olhar atento. Outras apenas precisam de uma palavra cortês, algo que as faça se sentir parte de um grupo ou simplesmente visíveis. Decerto, como apareceu para o Sr. Lopez, há aquelas que precisam de algo mais: um gesto amigo, um sorriso, um ouvido atento, um olhar atento; mãos firmes, prontas para doar o que se puder; uma palavra, duas palavras, várias palavras que as mantenham firmes, fazendo parte do mundo, tentando fazer parte de si mesmos. 

E assim, como se fosse a primeira vez que você pensou nisso, vire-se um pouco de lado, enxergue ao redor, estenda os olhos, os ouvidos e as mãos, seja alguém que faz um mundo melhor apartir de seu próprio mundo. Seja, como diz nosso amigo Gandhi, a mudança que espera no mundo. Saia da sua bolha, os que tiverem uma, e enfrentem a luz do dia lá fora como se ela te desse um tal poder, como se por isso você tivesse que tornar outras pessoas maiores do que elas pensam ser. Não é questão de ser missionário, o Sr. Lopez não é um, ele é apenas um homem comum, que no seu dia a dia comum, encontrou alguém que precisava de ajuda, e assim ele fez, o ajudou. Pelo menos assim pensou estar fazendo. Mas no final das contas, o que ele percebeu com um doce espanto foi que o beneficiado tinha sido ele. Todo o envolvimento dele em uma vida tão complicada e abandonada como a do Sr. Ayers, despertou esse nobre jornalista para coisas da vida que nos esquecemos de observar no dia a dia, coisas que um morador de rua discriminado de diversas formas consegue perceber: como a humildade em dar ou receber ajuda, a simplicidade de dar valor às pequenas coisas e não aos muitos títulos e pompas do mundo; como a dignidade que há em ser leal àquilo que acreditamos, podendo ser desde um tipo de arte ou profissão até princípios e pensamentos subestimados pela sociedade; como a fé no poder de algo que nós amamos, acreditando que isso não só abre os mais belos e íntimos caminhos da alma, mas também oportunidades valiosas na vida. Porque quando fazemos algo com carinho, quando investimos tempo a algo ou alguém com dedicação, quando procuramos olhar ao redor, sair dos nossos pedestais e ir atrás do outro ou de algo que te faça sentir-se melhor... Isso, tudo isso, abre caminhos que o olhar estreito de uma humanidade egoísta não consegue entrever.
"O Sr. Ayers ainda mora no apartamento. É membro do Lamp (Abrigo para moradores de rua). E continua a tocar violoncelo, violino, contrabaixo, piano, violão, trompete, trompa, bateria e gaita. O Sr. Lopez continua a escrever sua coluna para o Los Angeles Times. Ele está aprendendo a tocar violão. Há 90 mil sem teto nas ruas da Grande Los Angeles." frase final do filme
... Por uma última reflexão, já que falamos em números reais:
O Brasil tem aproximadamente 1.8 milhão de moradores de rua. No Grande Recife, no entanto, como em praticamente todas as regiões metropolitanas, é complicadíssimo estimar uma quantidade. A triste verdade é que por conta de não terem domicílio fixo, os moradores de rua são "cidadãos invisíveis", excluídos do universo ''visível'' que é pesquisado nos censos oficiais. Dessa forma, a falta de informações dificulta as ações de governo nessa área. Aqui em Recife, o governo iniciou estudos na área, mas, infelizmente, não se vê muita ação afirmativa no dia a dia da cidade.
Bem, acho que essa última ressalva com certeza diz alguma coisa que não se pode deixar passar. A questão é: você, eu, todos nós, podemos, nas pequenas ações ou no simples ato de dedicar tempo e/ou atenção para as muitas versões de ''pessoas invisíveis'', como fez o Sr. Lopez, mudar a situação de alguém, quer seja material, espiritual ou mental. Sei que não parece possível fazer tudo o que o Sr. Lopez fez em uma determinada história que ele presenciou por todos que você vê. Sei que é difícil conseguir entrar no mundo de ''invisíveis'' como o Sr. Ayers, mas na verdade esse caso de um morador de rua serve de ilustração para vários outros tipos de pessoas que precisam ser vistas, pobres ou não. Sei que não temos super poderes de transformar a vida de todos os ''invisíveis'' em uma perfeição, até porque a de ninguém é perfeita, cada um carrega sua história. Mas sei também que o mínimo que se faz é válido, pois um pequeno e tímido feixe de luz causa um belo efeito no meio da compelta escuridão.
Manuella Mirna
... Por uma última reflexão, já que falamos em números reais:
O Brasil tem aproximadamente 1.8 milhão de moradores de rua. No Grande Recife, no entanto, como em praticamente todas as regiões metropolitanas, é complicadíssimo estimar uma quantidade. A triste verdade é que por conta de não terem domicílio fixo, os moradores de rua são "cidadãos invisíveis", excluídos do universo ''visível'' que é pesquisado nos censos oficiais. Dessa forma, a falta de informações dificulta as ações de governo nessa área. Aqui em Recife, o governo iniciou estudos na área, mas, infelizmente, não se vê muita ação afirmativa no dia a dia da cidade.
Bem, acho que essa última ressalva com certeza diz alguma coisa que não se pode deixar passar. A questão é: você, eu, todos nós, podemos, nas pequenas ações ou no simples ato de dedicar tempo e/ou atenção para as muitas versões de ''pessoas invisíveis'', como fez o Sr. Lopez, mudar a situação de alguém, quer seja material, espiritual ou mental. Sei que não parece possível fazer tudo o que o Sr. Lopez fez em uma determinada história que ele presenciou por todos que você vê. Sei que é difícil conseguir entrar no mundo de ''invisíveis'' como o Sr. Ayers, mas na verdade esse caso de um morador de rua serve de ilustração para vários outros tipos de pessoas que precisam ser vistas, pobres ou não. Sei que não temos super poderes de transformar a vida de todos os ''invisíveis'' em uma perfeição, até porque a de ninguém é perfeita, cada um carrega sua história. Mas sei também que o mínimo que se faz é válido, pois um pequeno e tímido feixe de luz causa um belo efeito no meio da compelta escuridão.
Manuella Mirna
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