As Crônicas de Narnia (The Chronicles of Narnia), divididas em sete, formam um clássico livro enquadrado como infantil, o qual deu origem aos filmes da série assistidos nos cinemas desde 2005. Eu estava assistindo o segundo, um dia desses, quando então percebi que ele era mais que uma aventura para distração da criançada. Percebi que Narnia é mais que um reino lendário da fantasia de algum autor viajado. Percebi que as muitas batalhas vividas nas crônicas não são meros jogos de ação narrativa para ludibriar. Percebi que Susan, Peter, Edmund e Lucy podem ser eu, você ou qualquer um. Foi então que lembrei que todo conto de fada, toda historinha contada na infância, toda fantasia, fábula ou qualquer outra história que não pareça deste mundo é na verdade um reflexo do nosso mundo, da nossa gente, dos nossos dramas, medos, maldades e virtudes e, principalmente, um espelho do que devemos ser ou fazer para ser humanos melhores. Com As Crônicas de Narnia não é diferente, tudo nelas pode ter um reflexo em nós, em nossas vidas.No final do segundo filme consegui enxergar assim. Alguns dizem que Narnia é como se fosse uma espécie de céu ou purgatório, eu não posso dizer nada ao certo, mas posso também colocar minha visão e cada um, como eu, compreender a seu modo. No final daquele filme Peter e Susan não precisarão mais voltar a Narnia, já aprenderam tudo que lá deviam, já estão prontos para de forma única e mais madura enfrentar o mundo dos humanos, uma ilha perdida na qual se encontra uma caverna contendo uma rara fenda que leva a Narnia. Passei então a ver Narnia como um mundo que alguns, marinheiros errantes, aventureiros e corajosos o suficiente para explorar a vida, podem aprender coisas que o dia a dia dos humanos acomodados não permite aprender. Como um lugar em que você é mais do que sempre pensou ser, onde você pode se experimentar, ver suas capacidades com mais clareza do que na prisão do cotidiano, ver que seu potencial é bem maior do que supõe e cabe a você descobri-lo para o mal ou para o bem. Fazendo a escolha certa você irá se testar, passar por dificuldades, obstáculos inimagináveis que o ajudarão a ser mais corajoso, humilde, justo, resistente, gentil, esperançoso, perspicaz.
'Acontece', alguns dirão, 'que não existe uma fenda numa caverna por onde eu possa adentrar e me aventurar num mundo que me deixará melhor, isso não existe!' Aí então eu responderei dizendo que a eles falta um pouco de boa vontade para enxergar as coisas de um outro jeito, não mentiroso, mas diferente. Pois Narnia não precisa ser fisicamente um outro lugar, mas pode ser um outro mundo dentro deste em que vivemos. Podemos tratar o nosso mundo como essa experiência narniana que nos permite ser humanos melhores. Podemos ver as batalhas como as dificuldades encontradas de várias formas no cotidiano. Podemos ver os majestosos reis e rainhas como nós mesmos, crianças errantes, que em busca de um mundo melhor, em busca de perpectivas melhores em suas vidas se aventuram nela todos os dias procurando maneiras de aprender coisas novas, enxergando pessoas e experiências que as façam ser diferentes, apenas modos de fazer algo diferente apartir na renovação delas mesmas. Podemos ver um livro ou filme infantil como um reflexo do nosso mundo sacal, das maldades humanas, dos dramas vividos e um espelho do que podemos ser se quisermos enxergar a vida como a melhor aventura, um espelho onde possamos entrever o que devemos fazer para sermos mais do que agora.E assim, com cada um dos reis e rainhas, com cada um dos personagens dessa 'fantasia' se aprendem valores, virtudes que deveríamos ser mais atentos e obstinados em adquirir.
Com Lucy aprendemos a ser mais esperançosos, a perceber que acreditar não é viver de ilusão, mas crer em novas possibilidades, crer que os obstáculos são menores do que parecem, que somos maiores do que os outros supõe. E crendo mais fazemos mais, clareamos nossa mente para ver outros caminhos. Com ela aprendemos também a ser destemidos, superando as espectativas quando tudo o que os outros pensam é que você seria a primeira a se machucar naquele caos, passando até serenidade e doçura tanto nos bons quanto nos maus momentos.
Com Susan aprendemos que o ceticismo tem duas faces: a primeira nos mantém vendo a realidade e isso é bom, pois dela não podemos fugir, temos que enxergar as coisas com senso de realidade para não ser covardes; a segunda, no entanto, nos mostra o perigo de ser descrente ao extremo, pois isso pode também manter fincados os nossos pés no chão, não só sobrepostos, o que impede-nos de alçar voos maiores para ver as coisas de uma outra perspectiva, para achar caminhos que a realidade fincada, o ceticismo, fica cega para ver. Com ela aprendemos principalmente a ser gentis e servir e auxiliar não só nossos amados irmãos de sangue, mas também aqueles desconhecidos que se tornam nossos irmãos se assim o quisermos ver, oferecendo um chamado amigo sempre.
Com Edmund vemos que o egoísmo e a soberba, quando se apresentam em nós, nos faz se distanciar de quem e do que prezamos, nos faz sentir o gosto amargo da solidão e a dor de ter esmagado alguns para satisfazer o nosso ego. Mesmo assim, ele nos mostra que nunca é tarde para voltar atrás e provar que o amor e a amizade são mais importantes, porque ficamos mais fortes quando temos a segurança e o amor dos que nos amam. Com ele aprendemos principalmente a ser justos e verdadeiros, usando da imparcialidade e da capacidade de se colocar no lugar do outro, premissas para quem pretende a justiça. 
Com Peter entendemos que o orgulho, quando aparece em nós, pode nos fazer ir por um caminho mais longo e tortuoso. Mas com ele aprendemos principalmente que o amor por um idéia, o amor por um povo, o amor pelo bem e pela paz nos faz alcançar vitórias ditas impossíveis. Nos faz esquecer o orgulho por uma causa maior, por um bem maior, nos faz pensar no bem-estar do outro para depois pensarmos em nossas temperanças, nos faz ser mais apaixonados pela vida e mais corajosos para lutar pelo que acreditamos.
E agora, por mais que pareça bobo falar de um leão, tente o exercício de ver além. Assim, Aslam para mim ilustra que mesmo quando tudo parece sombrio, perdido, sem jeito; mesmo quando quando tudo parece não passar da mais dura das realidades, sempre há alguém que olha por nós, que olha nossos passos, orienta intuitivamente ou diretamente, e estará lá quando chegarmos onde precisamos. Ele não vai fazer o serviço por nós, não vai lutar as nossas batalhas por nós, vai deixar que nós saibamos dar os próprios passos, que lutemos com as armas dadas por ele e as armas decobertas por nós mesmos, como a coragem e a esperança. Ele irá orientar para que colhamos nossos frutos por mérito de esforço próprio. Mas ele está ali, em algum lugar, nos cuidando, nos olhando, torcendo por nós e esperando que cheguemos até ele. Ele para mim tem um nome, para você pode ter um outro, pode ser uma energia superior, pode ser nada, mas não se pode negar que sente-se sua existência, em algum lugar, aqui dentro.Então, quando conseguimos sair da acomodação do dia a dia, dos padrões do que é adulto ou infantil, das normas às vezes sem sentido da sociedade, dos nossos egos, medos e amargor, conseguimos ver em cada coisa uma oportunidade de nos ver e de crescer. Conseguimos ver a vida como uma escola, conseguimos nos tornar mais justos, corajosos, gentis e esperançosos. Conseguimos perceber que uma 'fantasia' pode retratar uma realidade, tudo depende do ponto de vista, e o que parecia ser algo, na verdade pode ser uma outra coisa. Não se trata de sermos imaginativos e criarmos um mundo particular que não existe. Se trata de saber viver, de ver em três dimensões de fato, de explorar todos os aspectos que a vida tem e vê-la como ela realmente é, ver-nos como somos e como podemos ser. Se trata de tirar da vida tudo que ela pode nos dar, de enxergar mais além de um quadro ou do seu umbigo e, assim, conseguir entender porque que ela, a vida, pode ser a minha Narnia, a sua Narnia.
Então, 'por Narnia': pela sua vida, por você, por como as coisas devem ser, pelo que podemos ser, pelas pessoas que acreditam em nós e esperam que acreditemos nelas, pelas causas ditas perdidas, pela esperança impraticada, pela coragem desacreditada, pela gentileza quase extinta, pela justiça chacoteada, pelo amor que nos faz valer a pena lutar por essas causas e pelas pessoas sempre que o sol ou a lua se apresentarem, por tudo isso e por tudo que ainda acreditas, viva melhor, seja melhor, todos os dias.Manuella Mirna
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