terça-feira, 26 de julho de 2011

Os Romãnticos

Romantismo para o dicionário significa predominância da imaginação, do sentimentalismo, do poético. Para os "fortes" significa fraqueza. Para o filme The Romantics significa o ato incorrigível de exalar pelos poros o amor que porventura se sinte. Para os amargurados, bobagens mentirosas. Para os apaixonados, um artifício a mais para mostrar o que se sente. Para os românticos significa que nada é bobo desde que seja justificado com amor, ou uma característica tão necessária e involuntária quanto o ato de respirar, ou um ato que os seres humanos criaram porque inconscientemente admitem que sentir e demonstrar o amor que sentem é o que dá sentido à existência. Para mim romantismo é... bem, para que falarmos de mim. Para o google imagens é isso , isso , ou isso , ou outras coisas mais.

Sem pensar se é certo ou errado, bom ou mau, descartável ou necessário. A verdade é que amor é o sentimento mais importante do mundo e o mais necessário também. Amor em todos os sentidos, amplos e irrestritos. E como não podia ser diferente, para toda causa surgem efeitos. O romantismo é um dos efeitos de quem ama. Não de todos os amantes, pois há os que amam alguém ou algo e sentem que o mundo funciona melhor graças a existência disso, mas diz não ser romântico, o que pode ser ou não questionável. Mas é o efeito de muitas pessoas, efeito geralmente não escolhido ou forçado, mas natural e necessário, como flores de primavera.

Recentemente ví um filme intitulado The Romantics. E eu realmente me questionei sobre o que isso - romantismo - seria. Porque para alguns não há nada de romântico nesse filme. Para outros, e principalmente para a escola literária do século18/19, é totalmente romântico, num sentido que, para quem conhece ou já ouviu falar no ultrarromantismo ou mal-do-século, não é muito positivo.

Na verdade, sem querer ser influenciadora, romantismo é uma qualidade que, como qualquer outra coisa, em excesso causa danos terríveis e muitas vezes irremediáveis; que, como a maioria das coisas, na dose certa é capaz de curar doenças e resgatar valores adormecidos, estabelecer laços e estremecer a gente de uma forma única.

Mas ele parece ser mais revelador do que importante. Digo, quando você é romântico com alguém ou por algum motivo, na maioria das vezes seu ato incrivelmente, meigamente ou até loucamente romântico não tem muita importância, mas o motivo que te levou a fazer tão linda ou, em alguns casos, tão absurda ação de amor responde muitas coisas sobre você.

Às vezes diz que você realmente deseja algo e é capaz de tudo para conseguir, mesmo que seja usar os sentimentos de alguém como alavanca, o que não é bom. Às vezes demonstra que alguém é realmente importante para você e ser meigo ou sem noção é apenas uma consequência, esquisita para alguns, do seu sentimento. Uma outra hipótese, a pior delas, é que alguém ser romântico não diz imediatamente que ele/ela ama você ou que saiba que quer você ao lado dele/dela. Romantismo não é sinônimo de amor sincero ou relacionamento perfeito. Mas, uma parece certa, romantismo é uma consequência, a causa é o sentimento. E se ele é verdadeiro não importa quão inacreditável ou discreta seja a consequência desse afeto, ela vai fazer belas impressões digitais na sua vida.

Explicações ou respostas a parte... É que antes se trata de saber cuidar da causa para então entender, ou não, as possíveis consequências. Amor, eis a causa, que a maioria dos humanos não sabe cuidar. Como disse o filme, "somos todos tão sem inspiração. Somos tão cegos às coisas muito pequenas, mas belas. Pequenas coisas belas que fazem a vida valer a pena [...] O jeito como alguém despretenciosamente atravessa a grama, é lindo. O silêncio que se faz depois de uma declaração inesperada e só se pode ouvir garfos e pratos, é mágico. Que tal o som que se faz vindo até aqui. É cascalho, capim, oceano. É verso, verso, refrão. [...] Nós compartilhamos um objetivo: inspirar e ser inspirado. Isso, meus amigos, é imperativo".

E realmente não há mentiras em se dizer que se deixa de lado coisas pequenas e tão belas, compositoras de graça e sentido a muitos momentos, doadoras de respostas a tantos outros momentos especiais e inigualáveis. Sentimentos que existem à disposição no universo e em cada um de nós, como amor e inspiração, conseguem entender essas raridades que não deve se deixar à deriva. Ou ainda outros sentimentos, mas tão essenciais como esses. Só que, infelizmente poucas pessoas estão atentas ou receptivas a raros momentos e pessoas com esses pequenos detalhes, belos detalhes... imperceptíveis à praticidade superficial que as pessoas buscam sem admitir, por ''medo do oceano'', que é misterioso por ser mais profundo que os lagos e rios, mas instigante por encantar de novo a cada sol ou tempestade.

Aviso aos navegantes, não tenham medo do oceano. Naveguem no tempo dele, você com certeza vai ver mais coisas, as quais não admite precisar. Digo isso fazendo uma metáfora com a desse filme que ví: o mocinho tinha desperdiçado anos de convivência ao lado da mulher que realmente amava por ter medo do ''oceano'' que, nas palavras dele, seria ela; e preferiu ''nadar'' em algo mais prático e simples (superficial e alienado?), uma outra mulher, já que toda vez que ele ''nadava no oceano'' era incrível, mas ficava apavorado... talvez porque achasse que precisava desvendar e dominar a imensidão que era aquela mulher. Mas não precisava, nem era isso que ''o oceano'' queria, ele só queria ser navegado, descoberto aos poucos e naturalmente, liberar a cada dia encantos para o mergulhador que tanto amava. Talvez o mocinho tenha sido mesmo covarde e, agora nas palavras da mocinha, "um ato completo de covardia desqualifica uma pessoa de consideração". E depois, medo? Amor não é praga egípcia e romantismo não é doença.

Em vários filmes, livros ou nas conversas nossas de cada dia, há muitas fórmulas de um relacionamento perfeito e estável, entre elas a idealização de se procurar seu oposto com o velho argumento de que "os opostos se atraem". Uma opinião mais polêmica, mas também em grande parte verdadeira é que "Os opostos se atraem e depois eles se aborrecem até a morte", nas palavras da mocinha outra vez. O que, infelizmente ou não, é em muito verdade.

A questão irremediável é que afinidades existem. No começo pode-se fechar os olhos para isso, e alguns até engatam um relacionamento acreditando que água e óleo é uma mistura até aceitável... bem, ficam no mesmo recipiente por quanto tempo se deixar, mas nem chegam a ser uma mistura de fato; se tocam, mas não se diluem um no outro, não mergulham com tranquilidade e naturalidade naquilo que se pode chamar de ''energia familiar'', "sentir-se em casa'' ou sintonia. Depois de um tempo, curto ou longo, e este quase sempre por se fazer vista grossa para tudo, eles entendem que as diferenças não podem ser predominantes e as semelhanças pedem para ser maioria.

Diferenças, além de serem óbvias, são divertidas, necessárias e saudáveis. Por se crescer ao ceder a favor do outro, por conhecer e aceitar coisas novas, com as quais se tinha até preconceito, por entender mais ''o que'' e ''porque'' você gosta do que gosta, por admirar o outro pelas escolhas e também por poder influenciar quando as escolhas não forem das melhores... Diferenças são imprescindíveis, mas se não ocorrem entre pessoas na mesma sintonia fica impossível administrá-las ou achá-las positivas. E então, sintonizados, "em casa", à vontade, a frase "eu entendo" flui naturalmente, dando uma forcinha para os momentos de confusão, discordância e desentendimento de um curto e frio "nada a ver". Além de que, quando há afinidade cada situação é nova magia, nova experiência, decifradas na língua que é entendida pelos navegantes e somadas num cômodo de harmonia. E é entusiasmante, afinal de contas é estimulante compartilhar um mundo o qual é abrigo de pessoas que você ama. E no vai e vem de compassos ritmados, vocês descobrem acordes desconhecidos aos ouvidos até alí, mas muito compreensíveis a partitura de cada um a partir de então.

Encontro sentido nisso quando Anitelli diz que "os opostos se distraem e os dispostos se atraem": aqueles se perdem acomodados que estão no clichê da atração magnética ou aborrecidos com tantos "nada a ver", e estes se encaixam à vontade que estão de negarem, afirmarem ou ficarem em silêncio, sabendo que o cenário é adaptável na clareira, na falta de energia elétrica ou à meia luz. Só não se deixe acomodar no cenário aconchegante, porque mesmo nele coisas novas chegam todos os dias vindo dos bastidores ou da fábrica e nesta hora se permita conhecer e entender, não se deixando cair no extremo do tédio pelo conforto.

No meio de todo esse papo sobre o ser romântico e o se permitir para os sentimentos independentemente da trilha de rosas e bombons, me deparo com a visão de que, tal qual a concepção mais simples do divino como algo de que se tem latente a crença de ser algo superior e necessário, fiel e intacto, todos têm em si a centelha dos mais belos sentimentos e com eles a inspiração de colocá-los em voga, em caixa alta, na direção das pessoas que de alguma forma são especiais, para você ou para o mundo. Ser romântico é ser humano, se a primeira palavra incomoda ela é só uma nomeação cor de rosa para um ato multi-racial, feliz dos que conseguem ativá-lo. Alguns atos são meigos e silenciosos, outros são indiscretos e efusivos ("cheguei!!", mesmo), mas todos escolheram se emocionar e emocionar, inspirar e ser inspirado, entenderam que isso é imperativo.

No fim, do filme The Romantics, deste texto incerto, da minha paciência ou da minha vontade, dessa onda de pensamentos ''vai e vem'', entendo algumas coisas e aceito outras, me desfaço de outras tantas. Mas entro em consenso aqui dentro que o que salta mais, pede mais, é mais imperante, é o afeto que se sinta e que nenhuma covardia, ''incoragem'', timidez, pensamento demorado, indecisão, procissão ou prosa prolongada deve calar a voz que salta em sinfonia de acordes maiores, lá de dentro, daqui, da gente. Os românticos sabem disso, e todos podiam entender que os humanos sentem isso. Os quais, por algum motivo esquisito, se enganam, tropeçam, teimam de forma não explicada (que não quer dizer inexplicável) com o que sabem ser a tal casa aconchegante que andam procurando.

Não é que se deva dar vazão a todos os sentimentos, porque há os maus. Nem é que a qualquer pulo do coração se é apontado o caminho. Quase sempre não é pulo que diz a certeza, é algo mais sutil e mais inspirador que um taquicardia, exige um auto-conhecimento e certo dicernimento por parte do sujeito. Acontece que geralmente se sabe quando algo raro bateu à porta, cantou bem de perto ou tocou à beira da piscina... O raro não é rotineiro, é especial, incomum, um diferente que aguça os sentidos, se intromete nos pensamentos de leve e tem um brilho inesperado no olhar, uma verdade simples no sorriso... Apenas não tenha medo, não desvie os olhos, tape os ouvidos ou se vire para a paisagem mais fácil de entender ao seu redor. Realmente o raro pede algo a mais de você, mas se você é capaz de reconhecer a chegada dele, tenha certeza, você é capaz de encontrar o encaixe entre vocês, não é um impossível quebra-cabeça, vai ser mais espontâneo que imagina. Porque "o amor é como o oceano: vasto, aparentemente sem fim. Algumas vezes tortuoso... tranquilo em outras. Assustador por todas as suas profundezas não exploradas, mas uma fonte constante de maravilhas e admiração".

Manuella Mirna

"Amar sem sentir-se amado é um desafio mais difícil que a fome.
Encontrar amor na simplicidade do dia a dia é para quem sabe se alimentar da mágica da
vida e da superação de si mesmo.
Para o insaciável, nem todas as cores preencherão o seu vazio.
Para aquele que já sofreu, que já perdeu, que já aceitou seus erros e assumiu as emoções de suas lágrimas, a aquarela começa agora, em cada gesto, a cada manhã, a cada cor nova em possibilidades que a vida oferece para quem não deseja inverter os papéis de aluno e professor com ela." Espalhe o Amor

"A fantasia é véu que não encobre

Tanto como se diz [...]

A música se foi – durmo ou estou desperto?" J. Keats

quarta-feira, 20 de julho de 2011

"Procura-se um Amigo"

Hoje, na verdade, passados alguns minutos, se comemora o Dia do Amigo. E eu pensei "cheguei agora e não vou mais escrever nada sobre, porque já passou da meia-noite", mas em seguida pensei "que nada! Dia do amigo é todo dia". Clichê não é?! Mas é verdade, porque todo dia é dia de valorizar tudo que é especial, e devemos lembrar mais disso.
Então, "hoje", como todos já devem saber ou ter percebido por ligações, scraps, sms ou comentários do facebook, é Dia do Amigo. Então, feliz dia do amigo para todos! E parabéns para quem recebeu ligações, scraps, sms ou comentários do facebook e saiu com seus amigos hoje, isso quer dizer que você conquistou amigos, pessoas que estão ali para você, pessoalmente, virtualmente ou em pensamento, até nos dias mais chuvosos, principalmente nesses.
E não quis pensar em nada melhor para escrever do que um texto que ganhei e sou apaixonada. Há poucos anos, recebi de uma super amiga minha uma carta, que entre outras coisas lindas de amiga, tinha este poema:

"Procura-se um Amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive."
(autor desconhecido)

Acho que não resta muito mais a acrescentar.
E eu sempre costumo dizer que gostar é pouco para certos sentimentos, que se gosta de pizza, de amigo se ama. Mas a despeito da comparação fajuta, amigo é como pizza, todos querem um pedacinho. E é difícil dividir o nosso pedaço; é ótimo somar pedaços de vários sabores que tanto gostamos, cada um tão especialmente; difícil recusar só mais um; todos têm seu sabor favorito, aquele que tem todos os ingredientes que você mais gosta; todos têm também aquele sabor em que não se gosta de todos os ingredientes, mas que a junção dos outros o torna imperdível, e você sabe que com amor e cuidado tudo é passível de mudança, para melhor, é claro, e sem perder a essência do sabor. A grande diferença entre a pizza e os amigos é que eles não tem preço, nenhum, zero. Tudo que você investe é tempo, dedicação, carinho, ouvidos atentos, mãos a postos, um abraço aconchegante, sorrisos de sobra, dedos para enxugar as lágrimas... E o que você ganha?! Tudo isso e um preenchimento sem igual do lado esquerdo do seu corpo, acima do diafragma... Aliás, preenche todo o corpo, a alma e ainda cura os frio na barriga e os arrepios na espinha que porventura você venha a sentir. Nada como amigos, todos de um sabor diferente e que você curte de forma única e impagável cada um deles.
E é por isso que não se deve temer os sentimentos, doar o que há de melhor em você, se emprestar para outro, amar vários sabores, guardá-los num lugar seguro e impermeável, ser a piza favorita ou dizer para a sua que ela é sua pizza favorita, ou ter vários sabores favoritos... Enfim, não tenha medo do que é belo e especial, porque outros não poderão sentir ou viver por você o que você deseja demonstrar. Junte amigos, faça a festa, se declare, faça caretas, tire fotos com bigodes falsos, ria de besteira, como "afonsho", pague mico junto quando uma de suas pizzas resolver pedir maracas num restaurante mexicano porque quer entrar no clima, "ué, mas é pra ter neh?!"... e crave mais um sorriso e mais um momento e mais sentimentos nas paredes do vagão do trem. Diminua os obstáculos e sinta a magia.
Lembre-se que amigos são os irmãos que escolhemos, mas algumas vezes os irmãos são também amigos e os pais são também amigos... Amigo não tem o pré-requisito de ter sangue diferente, se seus familiares são também seus amigos você deve agradecer todos os dias por isso. Mas se não é seu caso "Diminua os obstáculos e sinta a magia", faça sua parte.
E só posso terminar dizendo que sou muito grata a esse enorme e inusitado trem, chamado vida, e ao seu motorista invisível, por ter o prazer de provar dos sabores que mais gosto nos momentos que resistem ao tempo. E, é claro, por, de temporada e temporada, poder conhecer novos e diferentes sabores que surpreendem o paladar, aguçam os sentidos e passam a ficar guardados na caixa dos sabores impagáveis, o lugar reservado aos meus amigos. Amo vocês, amigos, mami e mana, parceiros e parceiras, bonitões e lindonas impagáveis da minha vida.

Manuella Mirna

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Bons ventos sempre chegam

Segunda à tarde. O sol tentava reinar de fininho, depois de dias de chuva forte. O ônibus andava acelerado pela BR sem nenhuma poça de água ou trânsito. Nesse caminho há várias pontezinhas, sob as quais passam uma água rasa, turva e infinda. A beira desse riozinho algumas casinhas se seguram entre a madeira frágil das paredes e a terra mole da margem. Nada muito garantido. Mas eles encontraram seu abrigo e se é ali que vivem com sua família, aquele lugar não é qualquer um, não é desimportante.

Mais algumas dessas casinhas ficam na ribanceira íngreme entre o rio e a estrada, outras ficam já perto da calçada. Choveu muito esse final de semana, não demais, mas o suficiente para ameaçar a segurança dessas e de outras casas em semelhante estado. Uma dessas, bem na beira da estrada, hoje quando passei por esse caminho, não existia mais. O que havia eram destroços do que pareciam ser paredes e alguns poucos móveis. Na verdade havia unas palhas que formavam um telhado, tábuas de madeira que juntas formavam um quadrado e no meio dessas tábuas um sofá. Deitado nesse sofá, adormecido de um sono que parecia o isolar de todo o barulho e movimento da estrada, um homem.
Olhei algumas vezes para entender a cena. Não sei o que houve bem ao certo. Não sei de que era seu sono. Não sei se o que parecia uma casa, um dia tinha sido uma, ou como ela se destroçou. Mas abaixo dessa "casinha" havia várias na ribanceira e mais lá embaixo na beira do rio. Outras mais na frente da calçada faziam vistas de que a "casinha" do homem do sofá não era isolada. Chuva forte parecia ser o motivo de ela não existir mais. Chuva poética e aconchegante para uns, mas de desalento para outros, como para ele.
Pensei muito que seu sono uma hora iria passar. Algum momento, não muito doce, iria acordá-lo, e o que ele faria então? Será que ele tinha para onde ir ou por quem procurar? ... Perguntas que não se consegue calar. Olhos que não se consegue fechar a caminho de qualquer lugar que mostre suas rugas de encantos e desencantos.

Do outro lado da estrada, mais a frente, mais casinhas. Dessa vez erguidas sobre um pequeno campo. Construídas muito juntas, elas parecem ter a intenção de se apoiarem unas nas outras, formar um pequeno povoado desconhecido mas unido de alguma maneira, já que isoladas elas parecem mais vazias e frágeis. No campo ao lado delas "moram" torres de energia elétrica de altíssima potência. Alta potência junto de frágil potência material. Potências de natureza diferentes, é claro, mas ainda assim chama a atenção quando você as coloca na mesma cena. Imaginar que parte da cidade é iluminada pela energia que sai daquelas torres e talvez as casinhas nem recebam essa energia elétrica. Perceber que as torres tomam um espaço bem maior que as casinhas e, no entanto, as torres armazenam energia - parte "abstrata" de uma casa, que não pesa ou ocupa espaço -, e as casinhas abrigam pessoas, vidas, histórias - parte fundamental do mundo e que decerto ocupa mais espaço que energia, espaço imerecido ao que parece. Cena curiosa.

Nesta tarde, a hora anunciava que o sol estava para se pôr, a luz no céu ficando mais amena a cada quilômetro pela estrada. Ventava muito, dizendo que à noite haveria chuva (realmente choveu esta noite). E o vento, quando desci na parada, parecia especial.
Cada vento tem um gosto diferente, sibila algo novo.
Esse, como outros de outras ocasiões, parecia querer acalmar o que havia, não assustar. Acalmar a inquietude de cenas que ficaram atrás na estrada. Parecia querer dizer que tudo ia ficar bem. Que de alguma forma, nem sempre tão simples, nem sempre tão rápida, mas de alguma maneira as coisas iam harmonizar-se, encontrar melhor diretriz, uma saída boa para o que agora não parecia ter uma. Porque como acontece do dia a dia, muitas vezes de repente, no meio do caos, com um pouco de boa vontade, se encontra os melhores sentimentos e valores vivos, como não se imaginava ainda existir.

Trata de não se desesperar, mas não esperar sentado. Acreditar e ir adiante. Porque numa tarde assim, num caminho que parece ser fadado a histórias tristes, numa segunda que dizem ser ingrata, há um Sol, brando, mas há. Um mesmo Sol que brilha para todos, ilumina e acorda todas as cenas de uma mesma cidade, todas as raças de um mesmo povo, todos os degraus e buracos de uma mesma estrada. E no fim, no seu ponto de parada naquela etapa, quando você precisar descer e continuar o caminho achando que a bagagem pesa demais, bons ventos sempre chegam. Para as casinhas, para o homem do sofá, para mim, para você, saiba: bons ventos sempre chegam quando você menos espera. Em forma de experiências impagáveis, soluções inesperadas, situações incomparáveis, oportunidades imperdíveis, momentos únicos, verdades necessárias, pessoas especiais... bons ventos sempre chegam.

Apenas continue seu caminho, faça o que sentir que deve, seja o melhor que puder, seja pessoal e social ao mesmo tempo, tenha as atitudes que espera nos outros, abra sorrisos, enxugue lágrimas, para você e para as pessoas do seu mundo e esteja atento a esses ventos. E aí, quando sentir uma brisa diferente, não deixe ela só passar por você, se permita inundar-se dela, pois ela irá te levar para outros rumos, até mais belos e encantados do que você imaginava. Deixe-se levar por essas ocasiões concretas, cheias de consequências visíveis e sociais, mas também invisíveis aos olhos humanos.
Enfim, não perca a oportunidade de sentir, pensar, ser, fazer melhor e espalhar a mudança e o afeto por aí. Porque bons ventos, apesar de tudo, sempre chegam, só cabe a nós saber enxergá-los e de fato transformar o nosso mundo a partir deles.

P.S. [Mensagem relacionada] Neste período de chuvas muitas pessoas estão sofrendo as consequências do descaso humano com o meio ambiente e com as cidades. Acho que já há alguns anos a humanidade tem percebido que os atos inconsequentes de só sugar da natureza sem restituí-la, ou seja, a falta de um manejo dos recursos naturais para que se possa usá-los sem devastar a natureza, tem causado muitos problemas para nós mesmos. É verdade que nem todos agem mal assim, algumas pessoas e empresas corajosas fazem a sua parte no todo. Mas, infelizmente, os anos de descuido mostram todos os dias suas consequências. Infelizmente, alguns sofrem mais diretamente as consequências disso. Mas, no dia a dia, nas pequenas como nas grandes coisas, cada um pode ser a mudança que espera no outro, como pensava Gandhi. E pode aí ser o bom vento de alguém, aproveitando-se das oportunidades que aparecem como brisas na nossa estrada, para que façamos ou não algo a partir daí. Então, pegue roupas que você não quiser mais, mas que ainda podem ser usadas por outras pessoa, alimentos e água, se você puder, e doe. Procure postos de coleta mais perto de você: http://pe360graus.globo.com/noticias/cidades/chuvas/2010/06/23/NWS,515506,4,214,NOTICIAS,766-CRESCE-NUMERO-DOACOES-VITIMAS-ENCHENTE-PERNAMBUCO.aspx.
Preces e pensamentos positivos também são ajuda e medicação e não medem distância, nem necessitam de um posto de coleta. O pouco que você faça, pode ser muito para quem precisa.

Manuella Mirna

terça-feira, 28 de junho de 2011

Cidade de ironias

Há visões que não nos deixa fechar os olhos.
Há situações que nos acorda da passividade.
Há rotinas que nos impede de se esconder.

'No meio do caminho tem várias pedras'.
Na rua de todo dia, no trânsito nosso de cada dia, é difícil se omitir de sentir o efeito do conto real de nossa cidade sobre nós mesmos.

Cenas inquietantes que te ironizam, minha cidade, e que desafiam nosso olhar, nossa sensibilidade, nosso ser.

A caminho da aula, vê-se dois lados de uma mesma calçada. E entre tantos outros, há uma ladeira para baixo muito íngreme encravada na calçada, um beco de uma só saída para a esquerda. Ironia boba ser para esquerda, triste metáfora ter uma só saída. Esse beco parece ser a entrada de uma comunidade conhecida como favela do Iraque. Pelo que ouvi recebeu esse nome porque sua ocupação aconteceu na época das invasões do Iraque, em 2003. Talvez um nome colocado por brincadeira, talvez por ignorância dos fatos, já que os "invasores" nesse caso são as reais vítimas. Entristece o fato de eles precisarem encarnar invasores para morar, abrindo espaço no chão. E na maioria dos casos não é questão de preferência, mas de, literalmente, só ter um caminho a seguir.

Em viagem boa a uma ilha urbana na zona sul, da ponte de entrada a ela, se vê que à beira do rio estão construindo um centro de compras. Ao lado desse futuro pólo de consumo e lazer ficam habitações fincadas nas águas duvidosas do rio. Nelas sobreviventes 'da lama e do caos'. Imagem desconcertante na beleza histórica da cidade.

Continuamos nosso passo, e nas calçadas de uma alta torre de negócios dorme um filho teu, cidade. Mais a frente um terreno vazio abriga outdoors. A propaganda mora segura para ganhar nossa atenção, um filho teu perece na calçada, à espera de que?

E quando vem a chuva, o campo de futebol das crianças da comunidade vira lama e a beira de todos os lados de rios fica o lixo que teus filhos deixaram cair. Os carros boiam nas consequências do descaso com o meio ambiente e contigo, cidade minha. A mesma chuva boa que aconchega de noite quem dorme tranquilo sob o cobertor. A mesma chuva boa que dá letra para minhas canções e corda para vagar meu pensamento.

Imagens. Estranhas ironias. O bom se torna cruel no mesmo dia, na mesma paisagem, na mesma cidade. Teus filhos tem culpa, cidade minha? Talvez. Mas arranjar culpados não me cabe. Até porque não é teu privilégio ser irônica. Em todos os lugares ainda se vê infinitos lados, bons e maus, de um mesmo plano. Mal me cabe a tentativa de nos fazer enxergar o que tu mostras tão claramente. Nos fazer atuar com responsabilidade universal, nome grande para um conceito simples: ame e zele pelo que/quem dá algo de essencial para ti. Assim, sem escancarar em colorido tuas ironias, sem citar nomes, endereços ou culpados, só tento que te vejam melhor, minha cidade e que façam mais por ti, por nós... E que prevaleça a tua magia.


De encantos, de desencantos. De carnaval, de luto. De belezas, de tristezas. De São João, de zé ninguém. De 1 milhão, de mal 10 reais. De Veneza, de Guiné Bissau. De Nassau, de Henrique Dias. De mascates, de usineiros. De arranhacéus, de habitações sem andar pro céu. De barulho, do meu sossego... Desconfio que a música nasceu dos sons da rua em harmonia com os sons da natureza. E no fim, no conflito, se encontrou a beleza, serena e inocente. Mas às vezes há uma lágrima que sufoca a voz na garganta e corta essa bela sinfonia. É quando se mostra a ironia. Ela não te deixa feia, mas tua beleza já não me parece mais tão inocente. É beleza madura. E tu vives e persistes.


Essa caolha encravou em ti como erva daninha em um 'baobá'. E agora tu pareces indissociável da fria desigualdade que corta a espinha dos que no teu chão se deitam para descansar (será que eles conseguem sonhar?). Tu, minha cidade, és parte responsável por meus olhos terem se aberto e eu não conseguir mais fechá-los. E é assim que nas tuas pontes vejo divisão, união e poesia. Nas tuas calçadas enrugadas vejo tema para minhas entrelinhas. Num filho teu do chão ou num filho teu do prédio de milhões, que assiste a esse espetáculo de uma das pontas singelas de tua versão de cidade antiga, vejo suplica para minhas frágeis revoluções textuais. Mas é também no teu pôr-do-sol, que assisto de uma de tuas pontes, do alto de minha janela ou no ônibus que te circula como sangue nas veias, que acordo pela segunda vez no dia e meu dia começa dourado e poético outra vez.


Decerto que tens, cidade minha, infinitas ironias que não cabem nas minhas palavras atropeladas. Mas nem por isso te amo menos, pois aprendi que o lugar que abriga a nós, aos que nos gostam e aos que gostamos é o lugar que estamos em paz, independente de onde seja, ou como seja. Até digo não ser fã do barulho, da fuligem e dos arranhacéus, não é mentira. Mas nessa rede caótica encontro paz nos meus dias e, já que sustentas meus olhos abertos, é também em ti que inflo meu coração de tema para os meus cordéis, na vontade que percebamos "quanta mudança podemos todos nós" a fim de consertar tuas ironias e te fazer sorrir um riso sereno todo dia. Sem talvez(es), sem dois lados da mesma calçada. A fim de te ver inteira.


Enquanto minha voz é baixa e não é chegada a hora do teu riso pleno, vou te fazendo poesias, tu vais dando bordado para minhas rimas às avessas e por ti prezo e peço para que melhores da tua ironia.

E, ainda uma vez, não pense que te renego. Pois é em ti que, por ser lugar meu, encontro o pão de todo dia, as pautas das minhas músicas, as letras que me alimentam, o amor nas entrelinhas, a nobreza de certos olhares, pano para meus pensamentos e melodias, o ensinamento que há nas saudades que sinto e paz para minha trilha. Tua magia penetra. Em ti acordo e digo bom dia. Em ti respiro ao pôr-do-sol. Em ti me aconchego e sob o luar desejo que 'durmam os medos teus' e que tu sonhes em paz.


Durma bem, cidade minha, e que possam sonhar todos os filhos teus.

Manuella Mirna

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Devaneios permitidos

Quarta à tarde. Aula de Teoria Literária. Pouco mais de trinta cabeças sedentas por arte, mas também por tudo que não fosse aula. Um homem distinto lá na frente disposto a falar tudo que sabia e um pouco mais. A teoria do dia não era a melhor de todas, não era melhor que práticas artísticas ou experiências a viver; naquele momento era só teoria, que só desabrocharia anos mais tarde no cotidiano encantado da língua em que escolhemos viver. Mas numa aula assim tudo que não é teoria é vida, é pensamento, é sentimento. Numa aula assim há a meta do assunto a cumprir contra um caminho misterioso e atraente a percorrer. Ficamos com os dois, mas certos dias gostamos mais do segundo. São devaneios permitidos pelas paredes respeitadas de uma sala de aula, devaneios a que nos permitimos por gosto a enxergar o algo a mais, as pequenas grandes coisas, os detalhes apagados pela correria do nosso olhar desatento, o brilho que há em cada coisa, em cada um, em cada...

E desconcentrada do todo, como criança, brinco com versos de mestres:
"o essencial é invisível aos olhos"...
mas muito nítido para o olhar.
porque entre tantas palavras belas eu escolho 'sodade', e ela se vê em meu olhar.
"gosto muito do pôr-do-sol, vamos ver um"...
mas se você não aparecer a tempo de vê-lo,
se meu pôr te parecer o nascer,
e meu nascer parecer futuro para ti,
não faz mal,
podemos ver então as estrelas e nos fazer lua para elas 'espiar'.
"se tu vens às três da tarde desde Às quatro começarei a ser feliz"...
mas se não é sensato falar em felicidade nesse mundo,
falo de algo assim mais sadio que ansiedade e mais pleno que alegria,
algo assim sem razão aparente;
razão: coisa que não existe no meu sonho, mas no dia prende meus pulos de criança.

E imersa de novo nas quatro paredes feitas de metas e artes, sou apenas uma entre as mentes que se permitem devaneios instigados pelo homem distinto lá da frente:
"adoro o som dos sinos e o som da máquina fotográfica, congelam o tempo"...
verdade, quando o sino bate seis horas, tudo que ocorre dentro das seis horas se congela, de alguma forma se imortaliza, de alguma forma se percebe a importância dessa hora, paramos sem perceber contemplando aquele momento de agora, aquela tempo que o som de um badalo insistente quis imortalizar e nos fazer dar valor não só para a importância daquele momento, mas para todos.
Verdade, quando a máquina faz 'clic', ela diz que guardou aquele momento para sempre. Como diz Quintana, os momentos são belos justamente por serem finitos, mas são tão belos que queremos tê-los para sempre de alguma forma e para sempre lembrar dos sorrisos e dos sentimentos que ilustram uma fotografia, que marcaram uma vida.
E sem saber bem porque me vem uma vontade humana de não perder esses momentos, de não deixar que eles passem sem que notemos suas ilustres presenças. Pois sem nossos mosaicos de momentos o que seria a vida? Nossa colcha seria vazia, e toda furada não nos acalentaria nos dias de frio. Porque sem percebermos são esses momentos, essas lembranças e essas pessoas das fotografias que nos protegem do frio dos nossos medos e se abrigam conosco das tempestades do caminho.

E entre outros, um devaneio final fecha nossa respeitosa permissão de aula de arte:
"as intervenções da arquitetura na cidade"
O homem distinto lá na frente disse essa frase ao contar uma história que aconteceu com ele. Um amigo seu, que fazia arquitetura na época, o fez observar como as luzes de um prédio se apagavam e se acendiam, o fez ver esse movimento e entender que arquitetura era mais que fazer prédio, era intervir na cidade e na percepção das coisas e o disse essa frase.
E me lembrei de como é bom ficar na varanda observando esse movimento, quase bobo, das luzes de um prédio ao longe. E agora senti também a saudade da saudade de uma pessoa que sente falta de olhar as luzes dos postes e dos carros à noite, o movimento das pessoas, o corre-corre de vidas tão cansadas, que acreditam por vezes estarem invisíveis. Ato quase banal, mas tão singelo, tão vivo. São vidas. São histórias. São pessoas e seus pensamentos, suas conversas, suas progressões de cena. É como contemplar o mundo respirando, se renovando a cada apagar de luzes para um novo acender em outro cômodo... nada será do mesmo jeito que foi de um apagar e acender há segundos trás. E aí, nada parece tão confortante quanto olhar para a vida de frente e assim percebermos que nossa vida vira obra de arte se quisermos vê-la assim, se quisermos perceber que para um outro, na varanda da sua casa, num ônibus, passando de noite pela cidade, somos focos de luz e história, momentos de vida e sossego para ele. Movimento, vida, poesia. Saudade.

E eu me pergunto: Devaneios?!
Não, doces verdades. Elas só pedem olhos atentos, olhos sensíveis, olhos que vejam o algo a mais da vida, olhos como os dessa pessoa que conseguiu me fazer sentir a saudade que ele sente de observar a vida de ângulos tão 'bobos', tão poéticos, tão vivos.

Manuella Mirna

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O peso de um "e se..." - abra suas janelas

"Querida Clair,
Eu não sei como a sua história terminou, mas se o que você sentia naquela época era amor verdadeiro, então nunca é tarde demais. Se era verdadeiro, então por que não seria agora? Você só precisa de coragem para seguir seu coração.'e' e 'se' são palavras que por si só não apresentam nenhuma ameaça, mas se colocadas juntas, lado a lado, elas têm o poder de nos assombrar a vida toda: 'e se...', 'e se...', 'e se...'
É difícil imaginar um amor como o de Julieta, um amor que nos faça abandonar entes queridos, que os faça cruzar oceanos. Mas eu gostaria de acreditar que se eu um dia sentir esse amor, terei coragem de persegui-lo. E Clair, se não o fez naquela época, espero que ainda o faça um dia.
Com todo amor, Julieta." retirado de cena do filme "Cartas para Julieta"

Começamos com uma carta. O tema? Amor. Sim. Aqui estamos nós de novo falando de amor, se é que é possível falar. E por que não? Este filme é definitivamente uma carta direto para o coração, porque não tem endereço mais apropriado e receptivo. A maioria das pessoas, no entanto, tem uma visão estreita sobre o amor ou sobre amar. Teimo em chamar atenção para que amemos, nos apaixonemos: por alguém, por um sonho, por uma causa, pelos dias, pelas estações ou por uma só, pelo ser, pela vida. Então, partindo do amor mais óbvio e apaixonante, mais popular e sentido, lá vai um exemplo do filme para ficarmos bem amolecidos:

Pedaço da cena em que ela está no balcão de Julieta refletindo e ele chega e sobe numa árvore para alcançá-la.
Ele: - [...] o mais importante é que só tem uma Sophie [...] Presta atenção, presta bastante atenção, eu moro em Londres, uma cidade histórica, linda e vibrante, na qual eu amo viver. E você em Nova York, que é super estimada [...] Como o Atlântico é largo demais para atravessar todos os dias a nado, de barco ou de avião, vamos decidir na moeda [...] Mas se você não quiser aceitar isso, eu deixo Londres com todo prazer se você estiver me esperando do outro lado. Porque a verdade, Sophie, é que eu te amo, loucamente, profundamente, verdadeiramente e apaixonadamente. [...]
Olhos e sorrisos falam mais que palavras e neste momento ele cai da árvore.
Ele: - Por favor, me diga que ninguém viu isso. Ela: - Ninguém viu. (mas todos olhando) Ele: - Que bom, é muito bom. Ela: - consegue se mexer? Ele: - só os meus lábios (eles se beijam).

Você deve estar pensando: "ela acredita mesmo em contos de fada!" Não, acredito no conto da vida. E realmente acredito na incrível capacidade de contistas que temos cada um de nós. Vejo isso nos contos de não-fada, nos contos da vida, de formas únicas e bonitas, às vezes até estranhas e engraçadas. Esse é apenas um exemplo hollywoodiano, mas que sai das telas para amolecer nossos corações e nos dizer para sermos roteiristas melhores das nossas histórias de amor. De amor sim, mas no sentido amplo da palavra, no sentido que não se esgota e toca todos os cantinhos e áreas das nossas vidas.
E aí, não só no cantinho mais restrito e popular de amor, mas em todos os cantinhos, é importante tentarmos evitar os 'e se...'. Pararmos de imaginar o que poderia acontecer e fazermos o que acreditamos ser certo, ser necessário; o que sentimos que devemos e queremos fazer. O poder de mudar o rumo das histórias vem de nós, da caneta que escreve as nossas páginas todos os dias, e as deixarmos sentir o peso de um ' e se...' é muito doloroso e desnecessário para o ser que pôde chegar na lua.
Para mim esse filme, como tantos outros, é só uma dica, que se resume em quebrarmos as barreiras que criamos; em corrermos atrás do que acreditamos e amamos, ou sabemos que podemos vir amar; em contornar algumas dificuldades, como a água faz; em derrubar as que precisam ser derrubadas, como os heróis fazem; em ousarmos mais e nos culparmos menos; em fazermos mais e calcularmos menos; em evitar nossos tão presentes 'e se...'.
Não é que devemos agir sem pensar. Não se trata de impulsividade, mas de coragem. De permitir a nós mesmos sair da redoma aparentemente segura e enxergar as possibilidades, provando para a vida que sabemos, ou mesmo tentamos, dar valor a ela e escrevemos direitinho seus capítulos.
E fazer isso pela simples razão de que quando decidimos dar vazão ao amor, abrir as portas para seus encantos, seus mistérios, suas lições, seus confortos... quando decidimos aplicar a maior capacidade humana, a de amar: pessoas e não pessoas, momentos e natureza, sonhos e ideais, atitudes e sociedade, a vida veste seu sentido pela raiz e se encarrega de trazer do inesperado as suas magias.

Manuella Mirna

Tua face, Minha face... na face do Mundo

Como um dia comum.
Como uma tarde dessas.
Sem uma razão convincente.
Somos uma face não tão boa de nós.
Perdemos o tato ou o olhar, meigo, atento.
Perdemos a audição ou a atenção, fiel, leal.
Nos perdemos do que somos nós.
Daquela face rara.
A melhor.
E tratamos com indiferença ou insensibilidade o diferente de nós.
Não melhor ou pior.
Mas diferente.
Tendência humana cega que encontra o erro só no oposto. Encontrando todas as razões para justificar a razão própria. E se desconhece o significado de "compreensão"... ou só de um pouco mais de humanidade.
Muitas vezes não se quer falar nisso.
Muitas vezes não se encontra ''tempo'' para pensar nisso.
Muitas vezes não encontramos oportunidades de agir assim.
Muitas vezes justificamos a nossa falta de vontade com qualquer uma dessas coisas.
Não se trata de incapacidade, ou predisposição genética; nem mesmo de maldade.
Não. É somente a nossa cegueira, pelo orgulho bobo e egocentrismo imaturo.
E quando nos recusamos a observar o que está na nossa frente, nos perdemos de nós mesmos, esquecemos do que somos, ou poderíamos ser; esquecemos o melhor que somos ou poderíamos ser.
Quando passamos pelas ruas, pelos momentos, pelas pessoas... sem tentar notar a necessidade dos olhares ou o brilho dos sorrisos, perdemos oportunidades de sermos a luz de alguém ou de deixar que alguém seja a nossa luz naquele dia.
Às vezes precisamos olhar para fora para então olharmos para dentro com maturidade. Às vezes precisamos enxergar o outro para nos enxergamos na proporção certa. Às vezes precisamos nos permitir, não tratar uns aos outros como lobos desconfiados, mas como aliados de um mesmo ideal. Por mais impossível que pareça, se começa dos próximos mais próximos.
Não é tão difícil. Às vezes basta um espelho iluminado pelo sol e inclinado na diagonal. Às vezes basta que se admita os próprios defeitos e limitações para compreender os dos outros. Que se pise no chão sem pedestais ou saltos de madeira. Que nos percamos de si... Sim, mas dos nossos medos, dos nossos entraves, dos nossos argumentos, dos nossos "nãos". Que se encare o próximo com humanidade, face a face. Que nos encaremos com maturidade, face a face.
Que entendamos que muitas vezes na tua face, está refletida a minha, e na minha face está a do mundo.
Olhe. E queira ver.

Manuella Mirna

sábado, 12 de fevereiro de 2011

... Sem se perder de si

...E enquanto agente deixa os sentimentos correrem à solta pelas horas, surgem PaLaVrAs ao VeNtO:

...Não mude a essência mais bela de você por medo de encarar o novo,
o inesperado,
algo com o qual você não imaginava se deparar,
sendo bom ou ruim.

Não tema qualquer novo sentimento,
nova situação,
nova pessoa,
novo problema,
nova oportunidade,
novos caminhos a trilhar.

Lembre-se que acima de tudo isso há você,
com seu mais íntimo jeito de sorrir pra vida.
Não esqueça isso,
nunca.

Muitas vezes,
o novo,
com o qual você tem medo de lidar,
é muito melhor do que você imagina,
sendo bom ou ruim,
tem consequências mágicas,
inesperadas e edificantes.

Do lado de lá do rio,
que parece medonho vendo de cá,
existem coisas que você precisa tanto.

Mas só vai saber disso depois que estiver lá,
depois de você ter passado por toda a imensidão de águas desconhecidas.

Aí então descobrirá que não pode mais viver sem essa nova verdade.

Mas não esqueça de você,
de quem você é,
de como você sorri tão feliz,
do quanto você faz rir,
do olhar que sonda aos outros e a vida com discrição e intimidade,
com entusiasmo e novidade.

Mude,
mas não seja outra pessoa que não você mesmo,
de quem tanto outros precisam,
de quem tanto você mesmo precisa,
para que jamais esqueça seus valores e seu próprio valor.

Mude os defeitos,
porque ''para vencer as trevas lá fora você tem que vencê-las dentro de si mesmo''.
Mas não mude sua essência,
porque o mundo precisa das particularidades que só você tem.

... Viva... Sinta... Queira... Mude... sem jamais se perder de si!

Manuella Mirna

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Trechos de uma história real - olhe em volta

"Há um ano atrás eu conheci um homem que estava numa maré de azar e achei que poderia ajudá-lo. Não sei se ajudei. Sim, agora meu amigo Sr. Ayers tem um teto. Ele tem uma chave. Tem uma cama. Mas sua condição mental e seu bem-estar são tão precários atualmente quanto no dia em que nos conhecemos. Há quem diga que eu o ajudei. Especialistas em saúde mental dizem que o simples fato de ser amigo de alguém pode mudar a qualidade de seu cérebro, melhorar sua funcionalidade com o mundo. Não sei se foi o caso do Sr. Ayers. Talvez nossa amizade o tenha ajudado. Talvez não. Eu posso, entretanto, falar por mim. Posso afirmar que ao testemunhar a coragem do Sr. Ayers, sua humildade, sua fé no poder de sua arte, aprendi a dignidade de ser leal a algo que você acredita. E acima de tudo, manter tudo isso, se prender ao que se gosta, acreditando, sem dúvida, que isso o levará para casa." Fala final do Sr. Lopez no filme "O Solista"

No dia a dia das grandes cidades, como Los Angeles ou mesmo como uma Recife, imersos no caos de fumaça e barulho que nos rodeia, tapamos nossa visão aos detalhes, aos olhares, aos anônimos das ruas, dos ônibus ou dos metrôs. Simplesmente e, muitas vezes, sem perceber nos fechamos aos nossos semelhantes, às diversas histórias que cabem em cada ser do nosso mundo. Tentando apenas sobreviver a mais um dia, resolver nossas questões, dissolver nossos problemas, a maioria de nós se tranca numa bolha individual que nos deixa impermeáveis ao mundo, às pessoas e aos dramas delas. Quando alguém, um simples homem, sem nenhuma capacidade ou dom de outro mundo, decide sair da sua bolha e enxergar o próximo, o meio que o rodeia, ele pode mudar muitas coisas e de um pequeno núcleo fazer essa mudança irradiar para influências maiores, fazer com que menos uma história seja inteiramente triste.
Sr. Lopez, um jornalista americano de Los Angeles, segundo mostra o filme, baseado em fatos reais, é o tipo de cara que tenta extrair dos dias os detalhes, os trechos do cotidiano que inspiram instigantes matérias na sua coluna. Em um dia qualquer, em mais uma tentativa de se inserir no mundo de forma mais convicente, ele se dapara com o Sr. Ayers, um morador de rua com um admirável talento para música e uma singular sensibilidade para ver as pequenas coisas. Ele, no entanto, tinha uma mente frágil que o fazia passar por louco. Não acho que chegava a tanto, mas uma mente saudável era tudo que ele não tinha. Essa condição o impedia de fazer progredir sua vida.
Sr. Lopez achou neste homem o tipo de história que ele procurava naquele momento, do tipo que não podia passar em branco, além de uma oportunidade para inserir Sr. Ayers de volta ao mundo dos homens sãos. Mas o que ele pensou ser apenas mais um forte relato de vida e uma ajuda casual, uma lição para seus leitores, na verdade, de modo mais completo, complicado e sensível passou a fazer parte da história dele próprio. Não que todas as outras histórias que ele contasse não tivesse relação na sua própria. Só que a do Sr. Ayers, de alguma forma, tocou mais esse jornalista e fez com que a vida dele nunca mais fosse a mesma.
Me parece que o Sr. Lopez, como um típico homem urbanamente ocupado, costumava deixar as histórias de vidas que ele contava em algum lugar que não estivesse tão próximo a ele, para não ter maiores envolvimentos. Sem julgamentos, pois cada um que tenta se resguardar em sua própria vida vê uma razão nisso, embora não seja, vendo com um pouco mais de sensibilidade, tão belo assim. Com a história de vida do Sr. Ayers, contudo, seu senso humanamente solidário não o permitiu se afastar e largar mão de alguém que precisava de ajuda. Foi assim que um típico homem urbano, querendo ajudar alguém de alguma forma permanente ou eficaz, se envolveu profundamente com a vida intrigante de um pobre desconhecido.
Mesmo assim, Sr. Lopez não conseguiu tudo que pretendia. Sr. Ayers não foi um músico famoso. Não se curou mentalmente. Não passou a levar uma vida com responsabilidades e progressos como qualquer outra. Mas tenho certeza de que ele é mais feliz hoje. Tenho certeza de que em algum lugar de sua mente obscura a vida passou a gritar em mais cores, passou a ser melhor elaborada para ele, a música foi mais bem satisfeita e seu coração tornou-se mais vivo.
Com esses trechos de uma história real que relato para vocês agora, não posso deixar de perceber o poder que cada um de nós tem. A influência positiva que podemos ser para pessoas até então anônimas para nós. Algumas não precisam palavras, apenas um gesto gentil ou um sorriso ou um olhar atento. Outras apenas precisam de uma palavra cortês, algo que as faça se sentir parte de um grupo ou simplesmente visíveis. Decerto, como apareceu para o Sr. Lopez, há aquelas que precisam de algo mais: um gesto amigo, um sorriso, um ouvido atento, um olhar atento; mãos firmes, prontas para doar o que se puder; uma palavra, duas palavras, várias palavras que as mantenham firmes, fazendo parte do mundo, tentando fazer parte de si mesmos.
E assim, como se fosse a primeira vez que você pensou nisso, vire-se um pouco de lado, enxergue ao redor, estenda os olhos, os ouvidos e as mãos, seja alguém que faz um mundo melhor apartir de seu próprio mundo. Seja, como diz nosso amigo Gandhi, a mudança que espera no mundo. Saia da sua bolha, os que tiverem uma, e enfrentem a luz do dia lá fora como se ela te desse um tal poder, como se por isso você tivesse que tornar outras pessoas maiores do que elas pensam ser. Não é questão de ser missionário, o Sr. Lopez não é um, ele é apenas um homem comum, que no seu dia a dia comum, encontrou alguém que precisava de ajuda, e assim ele fez, o ajudou. Pelo menos assim pensou estar fazendo. Mas no final das contas, o que ele percebeu com um doce espanto foi que o beneficiado tinha sido ele. Todo o envolvimento dele em uma vida tão complicada e abandonada como a do Sr. Ayers, despertou esse nobre jornalista para coisas da vida que nos esquecemos de observar no dia a dia, coisas que um morador de rua discriminado de diversas formas consegue perceber: como a humildade em dar ou receber ajuda, a simplicidade de dar valor às pequenas coisas e não aos muitos títulos e pompas do mundo; como a dignidade que há em ser leal àquilo que acreditamos, podendo ser desde um tipo de arte ou profissão até princípios e pensamentos subestimados pela sociedade; como a fé no poder de algo que nós amamos, acreditando que isso não só abre os mais belos e íntimos caminhos da alma, mas também oportunidades valiosas na vida. Porque quando fazemos algo com carinho, quando investimos tempo a algo ou alguém com dedicação, quando procuramos olhar ao redor, sair dos nossos pedestais e ir atrás do outro ou de algo que te faça sentir-se melhor... Isso, tudo isso, abre caminhos que o olhar estreito de uma humanidade egoísta não consegue entrever.

"O Sr. Ayers ainda mora no apartamento. É membro do Lamp (Abrigo para moradores de rua). E continua a tocar violoncelo, violino, contrabaixo, piano, violão, trompete, trompa, bateria e gaita. O Sr. Lopez continua a escrever sua coluna para o Los Angeles Times. Ele está aprendendo a tocar violão. Há 90 mil sem teto nas ruas da Grande Los Angeles." frase final do filme

... Por uma última reflexão, já que falamos em números reais:
O Brasil tem aproximadamente 1.8 milhão de moradores de rua. No Grande Recife, no entanto, como em praticamente todas as regiões metropolitanas, é complicadíssimo estimar uma quantidade. A triste verdade é que por conta de não terem domicílio fixo, os moradores de rua são "cidadãos invisíveis", excluídos do universo ''visível'' que é pesquisado nos censos oficiais. Dessa forma, a falta de informações dificulta as ações de governo nessa área. Aqui em Recife, o governo iniciou estudos na área, mas, infelizmente, não se vê muita ação afirmativa no dia a dia da cidade.
Bem, acho que essa última ressalva com certeza diz alguma coisa que não se pode deixar passar. A questão é: você, eu, todos nós, podemos, nas pequenas ações ou no simples ato de dedicar tempo e/ou atenção para as muitas versões de ''pessoas invisíveis'', como fez o Sr. Lopez, mudar a situação de alguém, quer seja material, espiritual ou mental. Sei que não parece possível fazer tudo o que o Sr. Lopez fez em uma determinada história que ele presenciou por todos que você vê. Sei que é difícil conseguir entrar no mundo de ''invisíveis'' como o Sr. Ayers, mas na verdade esse caso de um morador de rua serve de ilustração para vários outros tipos de pessoas que precisam ser vistas, pobres ou não. Sei que não temos super poderes de transformar a vida de todos os ''invisíveis'' em uma perfeição, até porque a de ninguém é perfeita, cada um carrega sua história. Mas sei também que o mínimo que se faz é válido, pois um pequeno e tímido feixe de luz causa um belo efeito no meio da compelta escuridão.

Manuella Mirna

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Minha Narnia, sua Narnia

As Crônicas de Narnia (The Chronicles of Narnia), divididas em sete, formam um clássico livro enquadrado como infantil, o qual deu origem aos filmes da série assistidos nos cinemas desde 2005. Eu estava assistindo o segundo, um dia desses, quando então percebi que ele era mais que uma aventura para distração da criançada. Percebi que Narnia é mais que um reino lendário da fantasia de algum autor viajado. Percebi que as muitas batalhas vividas nas crônicas não são meros jogos de ação narrativa para ludibriar. Percebi que Susan, Peter, Edmund e Lucy podem ser eu, você ou qualquer um. Foi então que lembrei que todo conto de fada, toda historinha contada na infância, toda fantasia, fábula ou qualquer outra história que não pareça deste mundo é na verdade um reflexo do nosso mundo, da nossa gente, dos nossos dramas, medos, maldades e virtudes e, principalmente, um espelho do que devemos ser ou fazer para ser humanos melhores. Com As Crônicas de Narnia não é diferente, tudo nelas pode ter um reflexo em nós, em nossas vidas.
No final do segundo filme consegui enxergar assim. Alguns dizem que Narnia é como se fosse uma espécie de céu ou purgatório, eu não posso dizer nada ao certo, mas posso também colocar minha visão e cada um, como eu, compreender a seu modo. No final daquele filme Peter e Susan não precisarão mais voltar a Narnia, já aprenderam tudo que lá deviam, já estão prontos para de forma única e mais madura enfrentar o mundo dos humanos, uma ilha perdida na qual se encontra uma caverna contendo uma rara fenda que leva a Narnia. Passei então a ver Narnia como um mundo que alguns, marinheiros errantes, aventureiros e corajosos o suficiente para explorar a vida, podem aprender coisas que o dia a dia dos humanos acomodados não permite aprender. Como um lugar em que você é mais do que sempre pensou ser, onde você pode se experimentar, ver suas capacidades com mais clareza do que na prisão do cotidiano, ver que seu potencial é bem maior do que supõe e cabe a você descobri-lo para o mal ou para o bem. Fazendo a escolha certa você irá se testar, passar por dificuldades, obstáculos inimagináveis que o ajudarão a ser mais corajoso, humilde, justo, resistente, gentil, esperançoso, perspicaz.
'Acontece', alguns dirão, 'que não existe uma fenda numa caverna por onde eu possa adentrar e me aventurar num mundo que me deixará melhor, isso não existe!' Aí então eu responderei dizendo que a eles falta um pouco de boa vontade para enxergar as coisas de um outro jeito, não mentiroso, mas diferente. Pois Narnia não precisa ser fisicamente um outro lugar, mas pode ser um outro mundo dentro deste em que vivemos. Podemos tratar o nosso mundo como essa experiência narniana que nos permite ser humanos melhores. Podemos ver as batalhas como as dificuldades encontradas de várias formas no cotidiano. Podemos ver os majestosos reis e rainhas como nós mesmos, crianças errantes, que em busca de um mundo melhor, em busca de perpectivas melhores em suas vidas se aventuram nela todos os dias procurando maneiras de aprender coisas novas, enxergando pessoas e experiências que as façam ser diferentes, apenas modos de fazer algo diferente apartir na renovação delas mesmas. Podemos ver um livro ou filme infantil como um reflexo do nosso mundo sacal, das maldades humanas, dos dramas vividos e um espelho do que podemos ser se quisermos enxergar a vida como a melhor aventura, um espelho onde possamos entrever o que devemos fazer para sermos mais do que agora.
E assim, com cada um dos reis e rainhas, com cada um dos personagens dessa 'fantasia' se aprendem valores, virtudes que deveríamos ser mais atentos e obstinados em adquirir.
Com Lucy aprendemos a ser mais esperançosos, a perceber que acreditar não é viver de ilusão, mas crer em novas possibilidades, crer que os obstáculos são menores do que parecem, que somos maiores do que os outros supõe. E crendo mais fazemos mais, clareamos nossa mente para ver outros caminhos. Com ela aprendemos também a ser destemidos, superando as espectativas quando tudo o que os outros pensam é que você seria a primeira a se machucar naquele caos, passando até serenidade e doçura tanto nos bons quanto nos maus momentos.
Com Susan aprendemos que o ceticismo tem duas faces: a primeira nos mantém vendo a realidade e isso é bom, pois dela não podemos fugir, temos que enxergar as coisas com senso de realidade para não ser covardes; a segunda, no entanto, nos mostra o perigo de ser descrente ao extremo, pois isso pode também manter fincados os nossos pés no chão, não só sobrepostos, o que impede-nos de alçar voos maiores para ver as coisas de uma outra perspectiva, para achar caminhos que a realidade fincada, o ceticismo, fica cega para ver. Com ela aprendemos principalmente a ser gentis e servir e auxiliar não só nossos amados irmãos de sangue, mas também aqueles desconhecidos que se tornam nossos irmãos se assim o quisermos ver, oferecendo um chamado amigo sempre.
Com Edmund vemos que o egoísmo e a soberba, quando se apresentam em nós, nos faz se distanciar de quem e do que prezamos, nos faz sentir o gosto amargo da solidão e a dor de ter esmagado alguns para satisfazer o nosso ego. Mesmo assim, ele nos mostra que nunca é tarde para voltar atrás e provar que o amor e a amizade são mais importantes, porque ficamos mais fortes quando temos a segurança e o amor dos que nos amam. Com ele aprendemos principalmente a ser justos e verdadeiros, usando da imparcialidade e da capacidade de se colocar no lugar do outro, premissas para quem pretende a justiça.
Com Peter entendemos que o orgulho, quando aparece em nós, pode nos fazer ir por um caminho mais longo e tortuoso. Mas com ele aprendemos principalmente que o amor por um idéia, o amor por um povo, o amor pelo bem e pela paz nos faz alcançar vitórias ditas impossíveis. Nos faz esquecer o orgulho por uma causa maior, por um bem maior, nos faz pensar no bem-estar do outro para depois pensarmos em nossas temperanças, nos faz ser mais apaixonados pela vida e mais corajosos para lutar pelo que acreditamos.
E agora, por mais que pareça bobo falar de um leão, tente o exercício de ver além. Assim, Aslam para mim ilustra que mesmo quando tudo parece sombrio, perdido, sem jeito; mesmo quando quando tudo parece não passar da mais dura das realidades, sempre há alguém que olha por nós, que olha nossos passos, orienta intuitivamente ou diretamente, e estará lá quando chegarmos onde precisamos. Ele não vai fazer o serviço por nós, não vai lutar as nossas batalhas por nós, vai deixar que nós saibamos dar os próprios passos, que lutemos com as armas dadas por ele e as armas decobertas por nós mesmos, como a coragem e a esperança. Ele irá orientar para que colhamos nossos frutos por mérito de esforço próprio. Mas ele está ali, em algum lugar, nos cuidando, nos olhando, torcendo por nós e esperando que cheguemos até ele. Ele para mim tem um nome, para você pode ter um outro, pode ser uma energia superior, pode ser nada, mas não se pode negar que sente-se sua existência, em algum lugar, aqui dentro.
Então, quando conseguimos sair da acomodação do dia a dia, dos padrões do que é adulto ou infantil, das normas às vezes sem sentido da sociedade, dos nossos egos, medos e amargor, conseguimos ver em cada coisa uma oportunidade de nos ver e de crescer. Conseguimos ver a vida como uma escola, conseguimos nos tornar mais justos, corajosos, gentis e esperançosos. Conseguimos perceber que uma 'fantasia' pode retratar uma realidade, tudo depende do ponto de vista, e o que parecia ser algo, na verdade pode ser uma outra coisa. Não se trata de sermos imaginativos e criarmos um mundo particular que não existe. Se trata de saber viver, de ver em três dimensões de fato, de explorar todos os aspectos que a vida tem e vê-la como ela realmente é, ver-nos como somos e como podemos ser. Se trata de tirar da vida tudo que ela pode nos dar, de enxergar mais além de um quadro ou do seu umbigo e, assim, conseguir entender porque que ela, a vida, pode ser a minha Narnia, a sua Narnia.
Então, 'por Narnia': pela sua vida, por você, por como as coisas devem ser, pelo que podemos ser, pelas pessoas que acreditam em nós e esperam que acreditemos nelas, pelas causas ditas perdidas, pela esperança impraticada, pela coragem desacreditada, pela gentileza quase extinta, pela justiça chacoteada, pelo amor que nos faz valer a pena lutar por essas causas e pelas pessoas sempre que o sol ou a lua se apresentarem, por tudo isso e por tudo que ainda acreditas, viva melhor, seja melhor, todos os dias.

Manuella Mirna

domingo, 26 de dezembro de 2010

... e Isso É Natal

Era dia 24 de dezembro de 2010, quando voltava para casa para me preparar para a ceia e de uma das pontes da cidade avistei uma minúscula parte do mundo, do nosso mundo.
Era pôr do sol e além de toda cor que havia do céu sobre as pessoas, havia algo mais, uma magia, uma ternura no ar, um sonho, vários sonhos...
Pensei sobre aquilo e percebi que aquele ar abraçava a todos, era parte da paisagem, era parte da janela de quem via, era parte da respiração das pessoas e parte do sentimento de quem era capaz de sentir o que há de verdade em dias assim.
Percebi que assim como o Sol nasce para todos, aquele ar, aquela magia, aquela sensação se colocava a disposição do mundo, em dias como aquele, em dias que podem ser todos os dias, se assim quisermos.
Pensei um minuto nas pessoas, nas suas vidas e quantas histórias diferentes, umas boas outras não tão boas, o vento compartilhava em silêncio, trazia um pouco da magia própria, mas levava em troca um pouca da vida de quem ele via.
Pensei em quantas pessoas estavam sentindo a mesma coisa que eu, pensei em quantas pessoas não conseguiam sentir isso, por diversos motivos.
Pensei nos que têm cegueira mesmo às claras e são indiferentes à vida, aqueles que não permitem ser tocados pelas magias do mundo, pelas sensações de momentos mágicos que podemos fazer durar o ano inteiro.
Pensei nos que não alcançam a importância de dias assim, que não se importam, que estão ocupados demais com outras coisas, que não acreditam em ninguém e nada além de si, do que vêem, do que ganham, do que têm.
Pensei nos que de tantas dores e tantas privações não mais conseguem se encantar, se permitir à mudança pela apreciação, pela conexão com um dia especial que traz uma mensagem subliminar.
Pensando em diversos tipos de pessoas, em tipos de vida, em todas as vidas que o vento devia ver num pavor mudo ou num entusiasmo contido, percebi o quanto é difícil universalizar um sentimento, uma lembrança, uma mudança.
E refleti que diante de um quadro assim deve ser bem mais fácil ficar triste, não acreditar, se acomodar ou fingir nada ver.
Mas lembrei que pensar assim é invalidar toda positividade, carinho e solidariedade que, no meio de todo esse aparente caos, continua ativa e operante no mundo e quantas boas ações assim ainda pretendem se instalar.
E por isso pensei no desperdício que é colocar sonhos à deriva, amor à deriva, fatos bons à deriva por um punhado de realidade ainda necessitada de reformas.
Porque, afinal de contas, sempre existiu e existe dois quadros num mesmo quadro, e se nos focamos só em um, que grita mais ao nosso desespero humano, perdemos os encantos e motivações de mudança que o outro quadro pode nos dar, nos levando inclusive a pintar por cima daquele horror uma bela imagem reformada.
E assim pensei no poder que esse dia tem de colocar à disposição de todos um mesmo ideal e influenciar a maioria acerca dele.
Porque embora não sejam todos que pensem realmente nele, são todos que o recebem, e a maioria que o abraça, deixando entrar a magia em seus corações, em seus lares, em suas vidas, renovando a esperança e a mudança por mais um ano.
E sei que é dessa forma que vai se pintando por cima do horror uma imagem mais bonita, reformada, uma vontade inerte em todos, uma realidade necessária para todos.

E isso é Natal: toda aquela sensação que ví da ponte, toda ela que se dispõe às pessoas, toda ela que apela por mudanças no mais íntimo de cada um;
todos os sorrisos que devem haver dos mais escondidos cantinhos aos mais altos edifícios;
todas as lágrimas que sentem-se agora confortadas por esperança, por solidariedade, por amor de qualquer forma que seja;
todas as histórias que há numa fila de supermercado á procura de um tender às 20 horas da noite de 24 de dezembro;
todas as felicitações que desejamos dos nossos familiares aos mais desconhecidos ambulantes na rua, num desejo consciente ou inconsciente, mas intrínseco, de que eles realmente encontrem a melhor forma de serem felizes;
todas as luzes na cidade que prefiro acreditar que custam mais que milhões de watts, custam sonhos que se inspiram ao ver tanta luz ao seu redor, sorrisos que se abrem de encanto quando a vontade é de chorar, esperanças que se acendem nos planos frustrados, porque várias lâmpadas acesas não podem apenas iluminar a cidade, mas conseguem acalentar nosso coração;
todo o esforço de cada um em se ligar a família que, embora maquinal algumas vezes, é uma tentativa do mundo todo ano de fazer com que um olhe nos olhos do outro, com que um pense no outro na hora de comprar um presentinho ou na hora de escrever um cartão, fazer com que se juntem mãos amigas, às vezes o ano inteiro longe, para servir à mesa, para lavar os pratos, para dar um abraço.

Uma tentativa que não cansa de tentar fazer as pessoas acreditarem a todo custo, a todo caus, a todo vapor de vidas cada dia mais ocupadas de que o amor existe, a paz pode existir, o bem existe, a esperança existe, os amigos são importantes, as famílias são fundamentais, o sorriso move montanhas, a solidariedade é possível, o bom exemplo pega, a mudança é necessária, a reflexão é bem vinda e que alguém a 2010 anos atrás veio nos demonstrar tudo isso e muito mais na doce vontade que dessemos as mãos aos estranhos e aos irmãos e nos amássemos.

E isso é Natal! Hora de lembrar que isso é o que tem valor.
Papai Noel é bom enquanto somos crianças e enquanto vemos filmes bonitos de Natal, mas ele não é o centro das atenções nessa época, pelo menos não deve ser, os presentes que sua imagem nos leva a dar também não devem ser.
Se é difícil ele ser esquecido, então o lembremos por suas virtudes, esqueçamos o consumismo e o lucro que sua imagem entrelinhas carrega e sobretudo lembremos mais do real homenageado da noite.
Assim, junto com os presentes que daremos por lembranças sim a quem nós temos apreço, ofertemos um pouco da solidariedade que ele nos inspira e da sua doçura, porque isso não só nos ensina ele, mas principalmente o aniversariante da noite de Natal.
Ontem, hoje, amanhã, depois de amanhã... o ano inteiro, tenha um bom Natal, porque todo dia é dia de renascer, de renovar-se, de fazer os outros acreditarem que tudo pode ser melhor, fazendo as coisas serem melhores começando por nós, mostrando que é tempo de dar as mãos, de desatar os corações, de abrir os olhos e não fechar diante de alguém e de sua súplica ou de seu sorriso.
Comprimente o mundo, acorde para si mesmo todos os dias e mostre para toda essa magia que vale o esforço de ela colocar-se a disposição em épocas assim, para que sejamos um pouco mágicos, um pouco melhores, um pouco mais apaixonados, para que nos lembremos de que apenas devemos ser um pouco mais humanos.

E um Feliz Natal a todos, todos os dias!

Manuella Mirna

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Versões (Mais do Mesmo)

Sentimos, pensamos, falamos, agimos.

Vemos, ouvimos, reproduzimos.

Entendemos, não entendemos.

Tiramos conclusões.

Versões. Mais interpretações da mesma coisa a todo tempo.

Todos os dias convivemos com as propriedades de um mundo que é novo a cada novo olhar, é diferente a cada nova intenção. Mas é o mesmo, o mesmo ar meu é o ar seu e o oceano é nosso, é de todos. Assim corre a mesmice de uma terra que se reinventa a cada pessoa. Sábia é ela que se dá a chance de novas faces, de flexibilidade, de novas idéias e novos sentimentos. Sábio de nós se soubermos, a cada dia, enxergar as coisas a nosso modo, mas respeitar os outros diversos modos que uma mesma coisa pode ser vista; se soubermos, como o mundo, ser multifacetados, nos dar a oportunidade de ter novas versões a cada nova situação, de nos reinventar e descobrir, talvez, um novo lado oculto e saudável de nós mesmos; se soubermos discernir a melhor opção, o que não passa de farsas do que é realmente uma boa face.
No entanto, há um perigo na multiplicidade das coisas que é praticamente tão presente quanto o saldo positivo disso. Porque o homem tem tanto a capacidade de enxergar coisas boas quanto as más. Geralmente, por interesses próprios ele tende a ver primeiramente o pior lado e muitas vezes inventar a pior versão. Quando ele consegue entender que ninguém vive só, que ele não está fadado a uma única alternativa na vida ou a um único 'eu' de si mesmo e que o "essencial é invisível aos olhos", ele vê melhor, vê aquele lado, entende aquela versão, sonda aquela face aparentemente discreta e desimportante, mas que com interesse se torna a melhor versão, sua ou de outrem, pois sempre existe um novo, talvez melhor, jeito de ver as coisas, de ver aos outros, de se ver.
Não é ingenuidade tentar ser amiga das versões e enxergá-las belas. Ingenuidade é insistir em algo ou em alguém ou numa visão que não tem mais alternativas, não tem perspectivas melhores, não mostra sorrisos para você, só dores que você escolheu sentir por não abrir mão de uma idéia, de um sentimento, de uma atitude caduca.
Assim, ver outras opções não implica não ver a realidade e sermos 'dom quixotes' vulgares, o que acontece é que a realidade pode ser mais agradável do que você a enxerga. Pois não significa que a forma que você vê as coisas seja a verdade absoluta, muitas vezes vemos pior ou melhor do que é, dificilmente vemos como é. A diferença de níveis de percepção, no entanto, é importante para posteriromente aprendermos com os extremos. Só que podemos entender de uma forma mais equilibrada sem ter que passar por esses extremos tão intensamente, podemos mudar de opção quando percebemos a bancarrota de uma, podemos nos encorajar em seguir novos rumos quando o desgaste já tomou conta de uma versão antiga.
O mundo é fênix, somos fênix. O mundo tem muito mais caminhos do que imaginamos, há muito mais formas de olhar a vida que somente da sua janela, há outras janelas, há outros olhares. Você tem muito mais possibilidades de criação que supõe, você tem muito mais capacidades do que um dia já contabilizou, há sempre um novo 'eu' em 'nós'. A vida não perderá a essência por ter outras possibilidades, as pessoas não perderão a essência por terem outras faces de si mesmo, continua vida, continuamos nós. Um rio não deixa de ser o rio com suas curvas sinuosas, suas árvores misteriosas, seus ciclos mais singulares só porque uma chuva caiu e ele foi obrigado a abrir um caminho pela floresta para escoar sua água ou a cortar algumas árvores para adaptar as águas.
As versões são necessárias, várias delas, de muitos outros além de você. Não teríamos uma vida tão malandra de experiências, tão esperta de oportunidades, tão inocente por espectativas se não fosse os muitos olhares tão particulares e elaborados acerca da vida e das pessoas. Por isso, não tenha medo ou acomodação de encarar o novo, um novo sentimento, uma nova idéia, uma nova atitude, porque muito há dentro de uma mesma esfera, muitas são as possibilidades, muitas são as formas, pois muitos são os olhares. Encare as versões, encare o que a vida ainda pode dar, o que os outros podem ser sem você ainda saber, encare as faces que você tem sem perceber. Sempre vai haver uma maneira ao mesmo tempo realista e mágica de ver a vida, então reinvente e chegue a melhor versão de ser feliz.

Manuella Mirna