terça-feira, 6 de setembro de 2011

Dias ruins x vidas que saltam

O dia começa com uma enchaqueca que não passa desde a tarde do dia anterior. Hora marcada. Vontade zero. Ônibus lotado. A dor persiste. Você está atrasada. Trânsito. Você chega ao seu destino. Ouve o que não quer ouvir. Estresse. Descompasso. Movimento. Água desce dos olhos.

- Descrição típica de dias não tão bons. Mas que todos, uma vez ou outra, tem que passar. Coisas da Vida. Ela sabe o que faz.

Você crê. A água pára. Você se acalma. A hora se ajusta. Você vai para outro lugar. Não se atrasa. Você persiste. A vida nunca desiste de você. Você sorri. O dia se ajeita. As horas passam. Chegam notícias não tão boas. Você está melhor. Você controla a situação. Você crê. Você persiste. Tudo vai ficar bem...

- Descrição de quando você retoma o controle de si, a fé, a coragem, a ousadia, a força, a tenacidade. Descrição de dias na vida, em que você decide não deixar de acreditar nela e ela mostra que nunca desacreditou de você.


Aliás, mais uma vez me dou conta disso, quando achamos que as coisas vão mal, até devem estar mesmo, mas nunca as piores. O teu mal é pequeno para outros males de outras pessoas. Por outro lado, o teu bem rotineiro é, muitas vezes, o bem que outras pessoas tanto precisam.

E no fim do dia, quando você se esforçou o dia todo para não desanimar com seus males, para ver os teus valiosos e impagáveis bens, a vida te traz de bandeja mais motivos para acreditar nela: um homem deficiente, quase não anda, pernas e mãos tortas... Podia ter coragem torta, dignidade torta... Mas não são coisas comparáveis. Problemas no corpo não determinam problemas na alma. Mas dificuldades que se passe, quando bem administradas, são argamassa para uma personalidade fortalecida. Patente. O homenzinho me mostrou isso, sua dignidade, sua humildade, sua resignação, banho de coragem. Outro homem, andar feito de aço, mochila e farda do governo, cabelo cinza. Ia estudar, à noite, com seu andar condicionado por esse quadrado de aço. O quadrado lhe dá o suporte que precisa para ir aonde deseja, mas sua determinação e capacidade de acreditar é que o movem para ir além.

E o dia anuncia terminar. Véspera de feriado. A enchaqueca passou. As costas agora reclamam do peso da mochila. Mas a água não voltará aos olhos. Ônibus demora até demais. Parada cheia. Pessoas. Desejos diferentes, mundos diferentes. Cidade toda engarrafada. Amanhã mais um dia. Novo brilho de sol, nova luz da lua. E nessa épica parada lotada de uma rua movimentada, uma visão de quadro anuncia que a vida sorri para todos nós. A 3 metros de altura as árvores de um lado e d'outro na rua se juntam. As folhas esculpidas estrategicamente abrem um espaço acima delas. Nele, lá, a lua. É crescente. Crescente como a fonte dos desejos de cada um, como fim de novela anunciando que agora quem faz a história somos nós, como quem espreita lá do alto nossas vidas intrigavelmente apaixonantes.

Lição do dia: paixão pela vida. E o resto? Você continua.

Manuella Mirna

"Canta Maria
A melodia singela
Canta que a vida é um dia
Que a vida é bela, minha Maria"

domingo, 4 de setembro de 2011

Em defesa dos animais


Já faz um tempo, que assisti num programa, historinhas de sofrimento e superação de criaturinhas que não falam e se expressam como nós, mas parecem ter sentimentos muitas vezes mais humanos que os de muita gente: os animais.
O programa tratava da defesa aos animais, dando exemplos de pessoas que são tocadas pela lealdade e relativa passividade dos animais e os protegem dos maus tratos. Brasileiros que "protegem cavalos do chicote e do excesso de carga. Acolhem em suas próprias casas cachorros e gatos abandonados. Constroem abrigos para aves, macacos e outros mamíferos expulsos das florestas por traficantes e pelo desmatamento. [...] E (eles) já conseguiram mudar hábitos antigos, vencer tradições de mais de duzentos anos e até abrir todas as gaiolas de uma cidade, só para devolver às ruas e praças o canto do pássaros que viviam presos." Globo Repórter

*Os vídeos do programa estão protegidos, mas aí está um link - http://www.youtube.com/watch?v=qpmcewUeS8s -, este mostra pessoas de uma ONG que na alta madrugada vão caçar animais de rua para socorrer os adoentados, feridos e famintos e castrá-los, para diminuir a prole de animais que passariam pelas mesmas más condições da rua e dos maus tratos aleatórios dos passantes impiedosos.

Vendo o quanto eles só precisam de cuidado e atenção, é revoltante pensar que tantas pessoas maltratam todo tipo de animais, muitas vezes por pura maldade, mal hábito ou insensibilidade. Penoso pensar que tantos animais são abandonados e criados pelas ruas e adversidades, sendo vítimas de fome e doenças. Revoltante saber da existência das carrocinhas¹ e pensar nos animais muito maltratados, mesmo sendo domésticos.
É por "negligência, imperícia e imprudência", nas palavras do Ministério Público, que acontecem casos como o incêndio que destruiu parte do acervo de répteis do Instituto Butantã no ano passado. Quando aí, os próprios funcionários, cinco denunciados pela MP, foram os responsáveis pelo ocorrido. Entre outros casos de tráfico de animais silvestres, criação de animais em cativeiro particular com interesses mesquinhos, ONGs que se passam por defensora dos animais e se apropriam das doações às "necessidades" dos participantes e não fazem o que dizem ter por ideal. Sem contar os casos ocultos de maus tratos domésticos, nos zoológicos e mesmo em "esportes" como a vaquejada, que muitos adoram assistir e por muitos atributos é uma festa ótima, mas nas quais é difícil alguém pensar ou fazer algo pelos animais que ali sofrem, pois tradição ou cultura não podem justificar imprudência com vidas. Casos, e mais casos que só ilustram e refletem a mesquinhes, insensibilidade e primitividade da raça humana. Nunca generalizando, mas direcionando às criaturas inumanas que abusam dessas vidas.

*E em vez de mostrar vídeos mostrando essas situações tristes que só fazem as pessoas quererem fechar a tela e, muitas vezes, fazem alimentar a desesperança na raça humana, coloco aí o link de mais um vídeo de defensores do ideal de cuidar dessas vidas - http://www.youtube.com/watch?v=x69t1y0qE_Q. No caso são duas mulheres que por conta própria decidiram mudar a realidade de maus tratos a cavalos de carroceiros em sua cidade. E, de fato, mudaram, agindo com as próprias mãos, tirando das mãos dos carroceiros o chicote, trocando-o pela sensibilidade e tentando colocar nas suas cabeças mais consciência.


Mas, infelizmente, o que se vê é que são poucas as pessoas a se preocuparem com essas vidas, e muitos os que pensam que isso não lhes diz respeito. Já ouvi alguns que dizem "são só animais, temos que cuidar das nossas crianças abandonadas". Paradoxo pensamento. Creio que nenhuma das pessoas que cuidam dos animais ou trabalham a favor deles dizem para descuidar das crianças ou de qualquer outro problema do país. Por que parece tão difícil tentar uma harmonia geral do ser humano com o mundo? Por que a maioria das pessoas só conseguem se engajar em uma ou duas coisas boas e necessárias?
O orçamento do Estado deve ser administrado para cuidar de todas as necessidades da Nação, e a atenção dos seres humanos deve ser também administrada para tratar dos "perrengues" que surgirem. E assim vamos nós todos, um pouco de cada vez, como um conta gotas, em "atitudes homeopáticas para trazer a paz e a harmonia para este universo".


Ao escrever sobre este tema, ainda uma vez, não quis fechar a janela para não ver os outros tipos de mal tratos que nossa humanidade apresenta, como a mulheres em certos países, moradores de rua, menores "trabalhadores", loucos em sanatórios, idosos em asilos e nas próprias casas... entre outros tipos de desumanidades em relação a raças, credos e sexualidade. Todos frutos do preconceito, da ignorância, do egoísmo, do fanatismo, da razão própria desmedida que cada homem atribui a si em detrimento de outras mentes. Mas, sem desmerecer nenhuma das outras chagas que precisam de atenção, hoje foi para os animais. Se entrasse aqui em todas essas questões, não caberia no texto e, na minha humildade de aprendiz, não sei se conseguiria.

*Aí vai um site que trabalha com adoções, esclarecimentos, campanhas, doações e tudo o mais que possa ajudar o mundo animal de alguma forma: http://www.pea.org.br/

Espero que o coração de cada leitor ou de a quem quer que chegue este texto, tenha sido tocado por uma parte das vidas que nosso Planeta abriga, tocado pela noção de responsabilidade e harmonia universal, porque cada pequena ação irradia seu foco, estimulando outras várias ações e mudando realidades.

Manuella Mirna
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¹ "Carrocinha é o nome popular dado aos veículos que os Canis Municipais ou os Centros de Controle de Zoonoses usam para capturar animais errantes. As instalações da grande maioria desses canis públicos são precárias e esse fato, por si, já configura maus tratos aos animais apreendidos. O cambão (instrumento usado para laçar os animais), quando usado por pessoal sem preparo - o que representa a grande maioria dos casos - pode deslocar o maxilar, quebrar dentes ou mesmo causar danos na coluna, fraturas nas patas e até mesmo a morte do animal. Os CCZs também fazem o encaminhamento de animais para laboratórios e faculdades de ciências biológicas, contrariando completamente a legislação brasileira, onde servem como cobaias em experimentos, testes de drogas ou aulas. Estes animais terminam por ter uma morte lenta e dolorosa.
Os Centros de Controle de Zoonose, em várias cidades do Brasil, ainda praticam o extermínio sistemático e indiscriminado de cães e gatos sadios sob o pretexto da prevenção de transmissão de doenças de animais para os seres humanos. Muitas vezes, adotam métodos dolorosos e não humanitários, como tiro de pistola; eletrocussão; câmara de gás e/ou de descompressão rápida; pauladas; enforcamento e injeções letais. Vale salientar que, nos casos das injeções letais, é necessário aplicar um pré-anestésico no animal, o que muitas vezes não é feito porque as autoridades municipais consideram essa medida dispendiosa.

Além das questões éticas e morais envolvidas no extermínio de animais sadios e inocentes, estamos falando de dinheiro público sendo jogado no lixo sistematicamente. O extermínio de animais sadios é um método ineficaz e oneroso para os cofres públicos, conforme concluiu a Organização Mundial de Saúde (OMS) na década de 80. Em informe de 1992, a OMS declara que "a renovação das populações caninas é muito rápida e a taxa de sobrevivência delas se sobrepõe facilmente à taxa de eliminação (a mais elevada registrada até hoje gira em torno de 15% da população canina)". Em substituição a este método, a OMS recomenda como principal estratégia a vacinação sistemática nas áreas de risco de zoonoses e o controle populacional por meio de captura e esterilização, aliados à educação para a posse responsável de animais.

Como se pode ver, matar está longe de ser a solução. O extermínio de animais serve apenas para esconder o problema e alimenta uma indústria criminosa e corrupta nos bastidores dos canis."

terça-feira, 9 de agosto de 2011

As margens ocultas do rio

Sexta passada, vendo um telejornal, me dei conta de coisas que, muitas vezes, durante nossa "dura" vida a gente se esquece: de que há vidas, realmente, mais difíceis que as nossas, e nem por isso mais amargas ou sem sentido.

A reportagem era uma trilha, feita pela equipe de reportagem, em busca da foz e da nascente mais distante do rio Amazonas, tentando mostrar as vidas que se relacionavam com cada cenário desses.

O curso do rio me fez lembrar o curso da vida, cheia de altos e baixos, partes rasas e partes profundas, calmas e muito agitadas, povoadas e sós, perigosas e aconchegantes... mas totalmente inundadas de encanto.


Já nós parecemos a pequena e firme balsa a desbravar as suas águas e as suas margens, seus percalços e todas as suas graças.


E não há como negar que mesmo com todos os meandros e as águas inquietas, a vida é fascinante e sempre reserva uma lição, uma surpresa boa, um sorriso, um aprendizado, ou várias mostragens de tudo isso.

De um lado, as partes boas todos digerem muito bem.


Por outro lado, as partes não tão boas, aquelas que primeiro assustam, para depois melhorar sem tempo determinado (mas creiam, melhora!), não são tão facilmente digeridas por nós.


Acho que porque não são compreendidas na sua razão de ser, na sua finalidade, no seu por quê. Mas, independente das respostas, dentre todos que passam por esses momentos, os sábios conseguem encarar com maturidade e até com certa graça as diferentes margens da vida, ou do rio, literalmente..

Sábios anônimos, como os que ví no programa (Globo Repórter) e não imaginava ser assim:

Uns, moram numa margem perigosa e vivem atentos às mudanças do rio:

"No baixo Amazonas, o rio é navegável, mas a vida em muitas comunidades é regulada pelas marés. Não são nem três da manhã e a dona de casa Maria Luíza dos Santos já prepara o café. Depois, chama os filhos Romário e Simone. Eles precisam se arrumar para ir à escola. Rotina? Até pode ser, mas uma rotina que muda todo dia. “De um dia para outro, a maré atrasa uma hora, todo dia tem um horário”, declara o pescador Pedro dos Santos. Às vezes, eles saem às onze da noite para assistir à aula no dia seguinte [...] Romário vai pela primeira vez à escola neste horário. A irmã já faz isso há anos e não se acostuma. “É complicado acordar essa hora, mas pelo estudo a gente faz tudo”, diz a filha, e estudante, Simone dos Santos.

São três e meia da madrugada, maré alta, hora de viajar. E o barco que faz o transporte escolar tem que sair antes das águas baixarem. Para quem estuda de manhã, não há outro jeito de chegar à escola. Os jovens se acomodam no barco e, dependendo dá para dormir um pouco. Mas, com o mar agitado e o vento forte, ninguém consegue. “Tem a fé que não acontece nada”, diz Simone. O piloto Joniel Lopes leva os alunos para a escola há quatro anos. Em dia de temporal forte, o barco pode até ficar à deriva no Rio Amazonas. ”É muita responsabilidade, inclusive a gente carrega o futuro, não é”, diz o piloto.

A tempestade passou longe, e o barco chegou antes de a escola abrir. Dá para dormir mais um pouquinho. Mas, logo, eles começam a se arrumar ali mesmo e desembarcam para assistir às aulas. Uma tarefa difícil depois da noite que tiveram. Para o professor, eles são guerreiros. “Coisa que muitos brasileiros não fariam, eles fazem para estar aqui todos os dias”, fala o professor.

São oito filhos e muita noite de sono perdido. “Mesmo assim eles tiram nota boa. Graças a deus ainda não desistiram. Está valendo a pena”, relata a mãe de Simone e Romário."

Pois é. Enquanto alguns reclamam ter de acordar cedo demais para ir escola, porque moram longe, ou do ônibus lotado e até mesmo do professor ou da escola, outros "acordam" às onze da noite, viajam um rio imprevisível, numa balsa gasta que não é mais potente do que nenhum carro popular, enfrentam chuva ou não, apreensão sempre e sono irreparável para assistir aula de manhãzinha. E é inspirador que, mesmo com tudo contra, eles não desistem, são de exemplo para o professor e motivo de responsabilidade para o piloto, que diz com toda segurança que carrega o futuro! Não digo que as primeiras situações mão sejam chatas, são sim, mas, às vezes, antes de levantar o dedo para reclamar ou abaixar o dedo para desistir da jornada, temos que olhar para mais adiante, para o outro lado da margem, para outras vidas mais difíceis que as nossas que continuam sonhando e lutando... E continuar sonhando e lutando também.

Outros, fazem arte da lama que encontram nas margens:

"Ao nível do mar, na Foz do Amazonas, os conhecimentos dos primeiros habitantes das margens do maior rio do mundo ainda passam de pai para filho. A cerâmica, que teve origem nas tribos marajoaras, hoje é fonte de sustento dos caboclos no local.
A equipe do Globo Repórter vai até o lugar onde os ribeirinhos tiram a matéria-prima das cerâmicas: a argila das margens dos afluentes do Rio Amazonas. “São quatro horas de trabalho, entre a saída, a extração da matéria-prima e o retorno”, conta o artesão Rosemiro Pereira.
Eles são barreiros profissionais e buscam a argila nos igarapés para vender para olarias e ceramistas. A equipe vai até o local onde é feita a extração de argila. Os barreiros retiram uma camada de terra com folhas e tudo e estão em busca do barro mais uniforme, de cor mais clara. Com a pá afiada, eles vão cortando os blocos de barro. Parecem barras gigantes de chocolate. Os artesões exigentes escolhem o barro com cuidado para fazer cerâmica de melhor qualidade.
As voadeiras ficam carregadas com mais de 100 bolas de barro cada uma. Cada bloco vai ser vendido a R$ 1,20. Depois, nos ceramistas, o barro vai virar jarros, vasos, pratos para decoração. A família toda do artesão Rosemiro está no negócio. Mas cada um cuida da sua produção.
A artesã Rosemaria da Silva gosta de pintar e consegue fazer um vaso em apenas um dia. “Perfeito, perfeição mesmo não existe porque é artesanal, então a gente tenta fazer o melhor possível’, revela a artesã.
E o que era sedimento, barro das barrancas do amazonas, vira arte nas mãos dos ribeirinhos."

Os economistas que viram isso devem ter se remexido na cadeira: 4 horas de viagem, numa canoinha pequena e frágil, para buscar uma determinada argila na margem dos igarapés, cavando com toda atenção, voltar com perigo da canoa partir de tanto peso e vendem o bloco por R$ 1,20; ao chegar, mais tempo para preparar o barro, dar forma, pintar... imagina o quão barato eles vendem esses jarros! Vidas simples, empenhadas, fortes e persistentes. Do inacreditável esforço eles fazem arte, para sobreviver. Delicados e firmes gestos que compõem histórias de exemplo para qualquer um que pense em reclamar da distância do trabalho, do trânsito, ou do computador lento.

Não consegui pensar no valor do super homem ou da mulher maravilha, antigos heróis da nossa infância, quando ví essas histórias. Tantos e tantos heróis da vida, do nosso Brasil, da nossa história... ocultos, anônimos, simplórios... mas de coração aberto, mãos dispostas e olhos atentos à vida, aos planos, para não perder o ânimo, o entusiasmo e a fé.

Não há muito mais a ser dito, tem coisas que falam por nós. Só sei que não pude não compartilhar isso aqui, para que essas vidas, essas margens ocultas do rio falassem por mim e, de alguma forma, tocassem nosso coração e impulsionassem mudanças de atitude.

E, como não podia deixar de ser, um apelo aos cuidados com nossa Floresta, com nosso Brasil e, consequentemente, com nosso Povo: (placa indígena)

Manuella Mirna

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Diminua as distâncias, aproxime as emoções

Dia desses, numa palestra de terça, nasceu um assunto que dorme no inconsciente e nos anseios de cada um:
- Você prefere se comunicar, diante de uma situação difícil ou fácil, por escrita (incluindo e-mail e net em geral), por telefone ou pessoalmente? Faça a pergunta você mesmo.
Pensei sobre isso... e percebi o quão estamos todos gradeando nossos muros e nos isolando do mundo, de tudo e todos que amamos. Mesmo os que, como eu, preferem o olho no olho, pecam quando se acomodam com as distâncias físicas e curtem a ideia de que a tecnologia encurta as distâncias. Em alguns casos não podemos negar que realmente ajuda. Mas em muitos outros ela só aumenta e ainda cria abismos que antes não existiam. É preciso avaliar se ela trouxe comodidade ou covardia, quem sabe os dois.


Excluindo as situações em que internet é realmente a melhor opção, temos as que simplesmente nos acomodamos. Quando preferimos conversar horas pelo bate-papo do facebook, ou do msn; quando mandamos e-mails agradecendo algo, convidando ou se declarando; quando mandamos os desculpáveis sms, que alguns fingem que não recebem para não se comprometerem em algo; sem falar nos incontáveis programas de jogo virtual, nos quais se tem oponentes virtuais e uma solidão ensurdecedora no quarto. São situações em que perdemos o aconchego de ouvir a voz de uma pessoa querida, o calor no timbre da voz, a verdade na hesitação dela; em que perdemos o brilho no olhar, a expressão de surpresa ou de dúvida na face, de alegria ou de dor; a sinceridade de um olho que fala e a boca silencia; em que perdemos o calor das mãos, a energia do abraço, o apelo da carícia, a confissão do toque.

Pouco tempo atrás, quando você buscava uma imagem para "contato" o google vinha com fotos de abraços apertados, figuras de mãos dadas. Fiquei tristemente surpresa agora, ao fazer a busca, de só ver "arrobas", logotipos de e-mail, figuras de eletrônicos e moças de telemarketing.

Uma questão parece apontar como rainha nesse cenário todo: um problema hoje, na Era da Informação, é a falta de comunicação. As pessoas querem participar do processo revolucionário das tecnologias de informação, compartilhando a todo instante todo tipo de conteúdos que se imaginar. Mas, ao mesmo tempo, parecem evitar o retorno, seja por sociofobia, falta de hábito, negligência, falta de educação, qualquer sentimento auto-destrutivo ou desvalorização do outro e do contato pessoal. O fato é que se comunicar face a face deixou de ser uma necessidade devido as facilidades tecnológicas e o mundo se acostumou a vidas mais solitárias, independentes e mesmo individualistas. Cada um no seu notebook ou blackberry pensam ter o mundo nas mãos, mas na falta de bateria ou energia elétrica isso se perde, e será que nessas ocasiões as mãos deles serão preenchidas por outras mãos, dadas? Será que, primeiro, eles estão de mãos abertas, dispostas, a postos para o contato real?


Esquecem-se de que comunicação, desde o início de seu entendimento, trata de interação, integração, conectividade. De compartilhamento na convivência, e daí por que não conflitos e dissenções? Com isso há o aprendizado. Trata de colaboração, apoio, calorosidade, afeto, expressão. Trata sobretudo de relacionamento, de compromisso. Será por isso que as pessoas se excluem do contato? Não querem se comprometer com nada ou ninguém além do seu exclusivo interesse pessoal, assegurando que ganhem em troca ou não percam nada na troca? Se for, nada justificável perto do valor que tem uma interação e a sinceridade do olho no olho, mão na mão, face na face. Só deixam de ganhar os que não percebem que isso é imperativo, é mágico, é não negociável, é único. Percepção e sensibilidade, de fato, parece ser para os fortes e corajosos, amantes da vida e das relações.

Houve uma pesquisa sobre comunicação que procurava responder por onde há mais impacto da mensagem no ouvinte. O resultado foi surpreendente e revelador: 7% pelas palavras; 38% pelo tom de voz e inflexão - curvas na fala; 55% pelas expressões, atitudes e gestos. Por dedução, todos os percentuais juntos refletem que a comunicação face a face tem impacto muito significativo sobre as pessoas, ímpar e incomparável. Ralfh Wando devia saber das coisas quando disse que "os olhos conversam tanto quanto as línguas que utilizamos, com a vantagem de que o dialeto ocular, embora não precise de dicionário, é entendido no mundo todo".

No final das contas, deveríamos admitir nossas capacidades de humanos e sermos razão e emoção, mas principalmente emoção; admitir que nós precisamos no contato mais estreito, precisamos uns dos outros mais de perto, não pela tela fria de um aparelho eletrônico. Como me disse uma amiga, a emoção é o retrato da sinceridade, ela resolve muitos pontos de dúvida ou conflito. Chega uma hora em que é preciso estar para sentir, olhos nos olhos, confronto necessário e inigualável. É preciso entender que caneta seca, internet falha, telefone perde a área... à distância os ruídos prevalecem, mas pessoalmente apontam-se as arestas e estabelecem-se as certezas.
O desafio lançado é se desarmar, procurar diminuir as distâncias, aproximando as emoções. Há distâncias físicas que são irremediáveis, com as quais não se pode lutar, mas se tal contato é importante para você, não interessa a quilometragem que os separa, o fundamental é não deixar a distância física virar uma distância espiritual ou sentimental. E quem vivencia caso semelhante sabe que tem como lidar com as distâncias para aproximar um do outro. É a velha história de que o interessado dá um jeito, porque jeito sempre há.
O fundamental, para todos os casos, é dar valor e atenção aos contatos humanos, momentos que não voltam e dos quais deve-se fazer pedras preciosas. Porque "na era do e-mail, do poder do supercomputador, da internet e da globalização, a atenção constitui o melhor presente que podemos dar a alguém".
E o mágico dessas relações afetivas é aprender a interpretar os gestos, o silêncio, um olhar, porque, como diz Quintana, "quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação". Quanta troca se tem num contato pessoal, tempo incomparável que deve ser levado a sério... poder falar, no dialeto que seja; poder ouvir, na sensibilidade e paciência que aparece nas capacidades humanas.

E enfim, administrar a saudade que se sinta, a vontade que peça passagem, a ousadia que deva realizar-se... em prol de ceder ao que realmente importa: você, os te tocam o coração e todo o resto que compõe esse cenário, e só quem o vive entende e sente a mágica que há nele. Não perca a oportunidade de se declarar, de ver os olhos brilharem, de ouvir o timbre da voz, de sentir o calor do abraço, o suar das mãos, o titubear de certas frases... as surpresas, receios e encantos de cada um que te toca de alguma forma. Levante daí, diminua a distância que no fundo te incomoda e aproxime as emoções, para que 'quando você olhar pro lado, possa estar cercado, só do que te interessa'.

Manuella Mirna

"Anunciamos uma vida melhor.
As condições para isso?
Conversando, agente se entende." Drummond

"[...] Me traz o seu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá tua palavra
Sussurra em meu ouvido
Só o que me interessa." Lenine


terça-feira, 26 de julho de 2011

Os Romãnticos

Romantismo para o dicionário significa predominância da imaginação, do sentimentalismo, do poético. Para os "fortes" significa fraqueza. Para o filme The Romantics significa o ato incorrigível de exalar pelos poros o amor que porventura se sinte. Para os amargurados, bobagens mentirosas. Para os apaixonados, um artifício a mais para mostrar o que se sente. Para os românticos significa que nada é bobo desde que seja justificado com amor, ou uma característica tão necessária e involuntária quanto o ato de respirar, ou um ato que os seres humanos criaram porque inconscientemente admitem que sentir e demonstrar o amor que sentem é o que dá sentido à existência. Para mim romantismo é... bem, para que falarmos de mim. Para o google imagens é isso , isso , ou isso , ou outras coisas mais.

Sem pensar se é certo ou errado, bom ou mau, descartável ou necessário. A verdade é que amor é o sentimento mais importante do mundo e o mais necessário também. Amor em todos os sentidos, amplos e irrestritos. E como não podia ser diferente, para toda causa surgem efeitos. O romantismo é um dos efeitos de quem ama. Não de todos os amantes, pois há os que amam alguém ou algo e sentem que o mundo funciona melhor graças a existência disso, mas diz não ser romântico, o que pode ser ou não questionável. Mas é o efeito de muitas pessoas, efeito geralmente não escolhido ou forçado, mas natural e necessário, como flores de primavera.

Recentemente ví um filme intitulado The Romantics. E eu realmente me questionei sobre o que isso - romantismo - seria. Porque para alguns não há nada de romântico nesse filme. Para outros, e principalmente para a escola literária do século18/19, é totalmente romântico, num sentido que, para quem conhece ou já ouviu falar no ultrarromantismo ou mal-do-século, não é muito positivo.

Na verdade, sem querer ser influenciadora, romantismo é uma qualidade que, como qualquer outra coisa, em excesso causa danos terríveis e muitas vezes irremediáveis; que, como a maioria das coisas, na dose certa é capaz de curar doenças e resgatar valores adormecidos, estabelecer laços e estremecer a gente de uma forma única.

Mas ele parece ser mais revelador do que importante. Digo, quando você é romântico com alguém ou por algum motivo, na maioria das vezes seu ato incrivelmente, meigamente ou até loucamente romântico não tem muita importância, mas o motivo que te levou a fazer tão linda ou, em alguns casos, tão absurda ação de amor responde muitas coisas sobre você.

Às vezes diz que você realmente deseja algo e é capaz de tudo para conseguir, mesmo que seja usar os sentimentos de alguém como alavanca, o que não é bom. Às vezes demonstra que alguém é realmente importante para você e ser meigo ou sem noção é apenas uma consequência, esquisita para alguns, do seu sentimento. Uma outra hipótese, a pior delas, é que alguém ser romântico não diz imediatamente que ele/ela ama você ou que saiba que quer você ao lado dele/dela. Romantismo não é sinônimo de amor sincero ou relacionamento perfeito. Mas, uma parece certa, romantismo é uma consequência, a causa é o sentimento. E se ele é verdadeiro não importa quão inacreditável ou discreta seja a consequência desse afeto, ela vai fazer belas impressões digitais na sua vida.

Explicações ou respostas a parte... É que antes se trata de saber cuidar da causa para então entender, ou não, as possíveis consequências. Amor, eis a causa, que a maioria dos humanos não sabe cuidar. Como disse o filme, "somos todos tão sem inspiração. Somos tão cegos às coisas muito pequenas, mas belas. Pequenas coisas belas que fazem a vida valer a pena [...] O jeito como alguém despretenciosamente atravessa a grama, é lindo. O silêncio que se faz depois de uma declaração inesperada e só se pode ouvir garfos e pratos, é mágico. Que tal o som que se faz vindo até aqui. É cascalho, capim, oceano. É verso, verso, refrão. [...] Nós compartilhamos um objetivo: inspirar e ser inspirado. Isso, meus amigos, é imperativo".

E realmente não há mentiras em se dizer que se deixa de lado coisas pequenas e tão belas, compositoras de graça e sentido a muitos momentos, doadoras de respostas a tantos outros momentos especiais e inigualáveis. Sentimentos que existem à disposição no universo e em cada um de nós, como amor e inspiração, conseguem entender essas raridades que não deve se deixar à deriva. Ou ainda outros sentimentos, mas tão essenciais como esses. Só que, infelizmente poucas pessoas estão atentas ou receptivas a raros momentos e pessoas com esses pequenos detalhes, belos detalhes... imperceptíveis à praticidade superficial que as pessoas buscam sem admitir, por ''medo do oceano'', que é misterioso por ser mais profundo que os lagos e rios, mas instigante por encantar de novo a cada sol ou tempestade.

Aviso aos navegantes, não tenham medo do oceano. Naveguem no tempo dele, você com certeza vai ver mais coisas, as quais não admite precisar. Digo isso fazendo uma metáfora com a desse filme que ví: o mocinho tinha desperdiçado anos de convivência ao lado da mulher que realmente amava por ter medo do ''oceano'' que, nas palavras dele, seria ela; e preferiu ''nadar'' em algo mais prático e simples (superficial e alienado?), uma outra mulher, já que toda vez que ele ''nadava no oceano'' era incrível, mas ficava apavorado... talvez porque achasse que precisava desvendar e dominar a imensidão que era aquela mulher. Mas não precisava, nem era isso que ''o oceano'' queria, ele só queria ser navegado, descoberto aos poucos e naturalmente, liberar a cada dia encantos para o mergulhador que tanto amava. Talvez o mocinho tenha sido mesmo covarde e, agora nas palavras da mocinha, "um ato completo de covardia desqualifica uma pessoa de consideração". E depois, medo? Amor não é praga egípcia e romantismo não é doença.

Em vários filmes, livros ou nas conversas nossas de cada dia, há muitas fórmulas de um relacionamento perfeito e estável, entre elas a idealização de se procurar seu oposto com o velho argumento de que "os opostos se atraem". Uma opinião mais polêmica, mas também em grande parte verdadeira é que "Os opostos se atraem e depois eles se aborrecem até a morte", nas palavras da mocinha outra vez. O que, infelizmente ou não, é em muito verdade.

A questão irremediável é que afinidades existem. No começo pode-se fechar os olhos para isso, e alguns até engatam um relacionamento acreditando que água e óleo é uma mistura até aceitável... bem, ficam no mesmo recipiente por quanto tempo se deixar, mas nem chegam a ser uma mistura de fato; se tocam, mas não se diluem um no outro, não mergulham com tranquilidade e naturalidade naquilo que se pode chamar de ''energia familiar'', "sentir-se em casa'' ou sintonia. Depois de um tempo, curto ou longo, e este quase sempre por se fazer vista grossa para tudo, eles entendem que as diferenças não podem ser predominantes e as semelhanças pedem para ser maioria.

Diferenças, além de serem óbvias, são divertidas, necessárias e saudáveis. Por se crescer ao ceder a favor do outro, por conhecer e aceitar coisas novas, com as quais se tinha até preconceito, por entender mais ''o que'' e ''porque'' você gosta do que gosta, por admirar o outro pelas escolhas e também por poder influenciar quando as escolhas não forem das melhores... Diferenças são imprescindíveis, mas se não ocorrem entre pessoas na mesma sintonia fica impossível administrá-las ou achá-las positivas. E então, sintonizados, "em casa", à vontade, a frase "eu entendo" flui naturalmente, dando uma forcinha para os momentos de confusão, discordância e desentendimento de um curto e frio "nada a ver". Além de que, quando há afinidade cada situação é nova magia, nova experiência, decifradas na língua que é entendida pelos navegantes e somadas num cômodo de harmonia. E é entusiasmante, afinal de contas é estimulante compartilhar um mundo o qual é abrigo de pessoas que você ama. E no vai e vem de compassos ritmados, vocês descobrem acordes desconhecidos aos ouvidos até alí, mas muito compreensíveis a partitura de cada um a partir de então.

Encontro sentido nisso quando Anitelli diz que "os opostos se distraem e os dispostos se atraem": aqueles se perdem acomodados que estão no clichê da atração magnética ou aborrecidos com tantos "nada a ver", e estes se encaixam à vontade que estão de negarem, afirmarem ou ficarem em silêncio, sabendo que o cenário é adaptável na clareira, na falta de energia elétrica ou à meia luz. Só não se deixe acomodar no cenário aconchegante, porque mesmo nele coisas novas chegam todos os dias vindo dos bastidores ou da fábrica e nesta hora se permita conhecer e entender, não se deixando cair no extremo do tédio pelo conforto.

No meio de todo esse papo sobre o ser romântico e o se permitir para os sentimentos independentemente da trilha de rosas e bombons, me deparo com a visão de que, tal qual a concepção mais simples do divino como algo de que se tem latente a crença de ser algo superior e necessário, fiel e intacto, todos têm em si a centelha dos mais belos sentimentos e com eles a inspiração de colocá-los em voga, em caixa alta, na direção das pessoas que de alguma forma são especiais, para você ou para o mundo. Ser romântico é ser humano, se a primeira palavra incomoda ela é só uma nomeação cor de rosa para um ato multi-racial, feliz dos que conseguem ativá-lo. Alguns atos são meigos e silenciosos, outros são indiscretos e efusivos ("cheguei!!", mesmo), mas todos escolheram se emocionar e emocionar, inspirar e ser inspirado, entenderam que isso é imperativo.

No fim, do filme The Romantics, deste texto incerto, da minha paciência ou da minha vontade, dessa onda de pensamentos ''vai e vem'', entendo algumas coisas e aceito outras, me desfaço de outras tantas. Mas entro em consenso aqui dentro que o que salta mais, pede mais, é mais imperante, é o afeto que se sinta e que nenhuma covardia, ''incoragem'', timidez, pensamento demorado, indecisão, procissão ou prosa prolongada deve calar a voz que salta em sinfonia de acordes maiores, lá de dentro, daqui, da gente. Os românticos sabem disso, e todos podiam entender que os humanos sentem isso. Os quais, por algum motivo esquisito, se enganam, tropeçam, teimam de forma não explicada (que não quer dizer inexplicável) com o que sabem ser a tal casa aconchegante que andam procurando.

Não é que se deva dar vazão a todos os sentimentos, porque há os maus. Nem é que a qualquer pulo do coração se é apontado o caminho. Quase sempre não é pulo que diz a certeza, é algo mais sutil e mais inspirador que um taquicardia, exige um auto-conhecimento e certo dicernimento por parte do sujeito. Acontece que geralmente se sabe quando algo raro bateu à porta, cantou bem de perto ou tocou à beira da piscina... O raro não é rotineiro, é especial, incomum, um diferente que aguça os sentidos, se intromete nos pensamentos de leve e tem um brilho inesperado no olhar, uma verdade simples no sorriso... Apenas não tenha medo, não desvie os olhos, tape os ouvidos ou se vire para a paisagem mais fácil de entender ao seu redor. Realmente o raro pede algo a mais de você, mas se você é capaz de reconhecer a chegada dele, tenha certeza, você é capaz de encontrar o encaixe entre vocês, não é um impossível quebra-cabeça, vai ser mais espontâneo que imagina. Porque "o amor é como o oceano: vasto, aparentemente sem fim. Algumas vezes tortuoso... tranquilo em outras. Assustador por todas as suas profundezas não exploradas, mas uma fonte constante de maravilhas e admiração".

Manuella Mirna

"Amar sem sentir-se amado é um desafio mais difícil que a fome.
Encontrar amor na simplicidade do dia a dia é para quem sabe se alimentar da mágica da
vida e da superação de si mesmo.
Para o insaciável, nem todas as cores preencherão o seu vazio.
Para aquele que já sofreu, que já perdeu, que já aceitou seus erros e assumiu as emoções de suas lágrimas, a aquarela começa agora, em cada gesto, a cada manhã, a cada cor nova em possibilidades que a vida oferece para quem não deseja inverter os papéis de aluno e professor com ela." Espalhe o Amor

"A fantasia é véu que não encobre

Tanto como se diz [...]

A música se foi – durmo ou estou desperto?" J. Keats

quarta-feira, 20 de julho de 2011

"Procura-se um Amigo"

Hoje, na verdade, passados alguns minutos, se comemora o Dia do Amigo. E eu pensei "cheguei agora e não vou mais escrever nada sobre, porque já passou da meia-noite", mas em seguida pensei "que nada! Dia do amigo é todo dia". Clichê não é?! Mas é verdade, porque todo dia é dia de valorizar tudo que é especial, e devemos lembrar mais disso.
Então, "hoje", como todos já devem saber ou ter percebido por ligações, scraps, sms ou comentários do facebook, é Dia do Amigo. Então, feliz dia do amigo para todos! E parabéns para quem recebeu ligações, scraps, sms ou comentários do facebook e saiu com seus amigos hoje, isso quer dizer que você conquistou amigos, pessoas que estão ali para você, pessoalmente, virtualmente ou em pensamento, até nos dias mais chuvosos, principalmente nesses.
E não quis pensar em nada melhor para escrever do que um texto que ganhei e sou apaixonada. Há poucos anos, recebi de uma super amiga minha uma carta, que entre outras coisas lindas de amiga, tinha este poema:

"Procura-se um Amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive."
(autor desconhecido)

Acho que não resta muito mais a acrescentar.
E eu sempre costumo dizer que gostar é pouco para certos sentimentos, que se gosta de pizza, de amigo se ama. Mas a despeito da comparação fajuta, amigo é como pizza, todos querem um pedacinho. E é difícil dividir o nosso pedaço; é ótimo somar pedaços de vários sabores que tanto gostamos, cada um tão especialmente; difícil recusar só mais um; todos têm seu sabor favorito, aquele que tem todos os ingredientes que você mais gosta; todos têm também aquele sabor em que não se gosta de todos os ingredientes, mas que a junção dos outros o torna imperdível, e você sabe que com amor e cuidado tudo é passível de mudança, para melhor, é claro, e sem perder a essência do sabor. A grande diferença entre a pizza e os amigos é que eles não tem preço, nenhum, zero. Tudo que você investe é tempo, dedicação, carinho, ouvidos atentos, mãos a postos, um abraço aconchegante, sorrisos de sobra, dedos para enxugar as lágrimas... E o que você ganha?! Tudo isso e um preenchimento sem igual do lado esquerdo do seu corpo, acima do diafragma... Aliás, preenche todo o corpo, a alma e ainda cura os frio na barriga e os arrepios na espinha que porventura você venha a sentir. Nada como amigos, todos de um sabor diferente e que você curte de forma única e impagável cada um deles.
E é por isso que não se deve temer os sentimentos, doar o que há de melhor em você, se emprestar para outro, amar vários sabores, guardá-los num lugar seguro e impermeável, ser a piza favorita ou dizer para a sua que ela é sua pizza favorita, ou ter vários sabores favoritos... Enfim, não tenha medo do que é belo e especial, porque outros não poderão sentir ou viver por você o que você deseja demonstrar. Junte amigos, faça a festa, se declare, faça caretas, tire fotos com bigodes falsos, ria de besteira, como "afonsho", pague mico junto quando uma de suas pizzas resolver pedir maracas num restaurante mexicano porque quer entrar no clima, "ué, mas é pra ter neh?!"... e crave mais um sorriso e mais um momento e mais sentimentos nas paredes do vagão do trem. Diminua os obstáculos e sinta a magia.
Lembre-se que amigos são os irmãos que escolhemos, mas algumas vezes os irmãos são também amigos e os pais são também amigos... Amigo não tem o pré-requisito de ter sangue diferente, se seus familiares são também seus amigos você deve agradecer todos os dias por isso. Mas se não é seu caso "Diminua os obstáculos e sinta a magia", faça sua parte.
E só posso terminar dizendo que sou muito grata a esse enorme e inusitado trem, chamado vida, e ao seu motorista invisível, por ter o prazer de provar dos sabores que mais gosto nos momentos que resistem ao tempo. E, é claro, por, de temporada e temporada, poder conhecer novos e diferentes sabores que surpreendem o paladar, aguçam os sentidos e passam a ficar guardados na caixa dos sabores impagáveis, o lugar reservado aos meus amigos. Amo vocês, amigos, mami e mana, parceiros e parceiras, bonitões e lindonas impagáveis da minha vida.

Manuella Mirna

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Bons ventos sempre chegam

Segunda à tarde. O sol tentava reinar de fininho, depois de dias de chuva forte. O ônibus andava acelerado pela BR sem nenhuma poça de água ou trânsito. Nesse caminho há várias pontezinhas, sob as quais passam uma água rasa, turva e infinda. A beira desse riozinho algumas casinhas se seguram entre a madeira frágil das paredes e a terra mole da margem. Nada muito garantido. Mas eles encontraram seu abrigo e se é ali que vivem com sua família, aquele lugar não é qualquer um, não é desimportante.

Mais algumas dessas casinhas ficam na ribanceira íngreme entre o rio e a estrada, outras ficam já perto da calçada. Choveu muito esse final de semana, não demais, mas o suficiente para ameaçar a segurança dessas e de outras casas em semelhante estado. Uma dessas, bem na beira da estrada, hoje quando passei por esse caminho, não existia mais. O que havia eram destroços do que pareciam ser paredes e alguns poucos móveis. Na verdade havia unas palhas que formavam um telhado, tábuas de madeira que juntas formavam um quadrado e no meio dessas tábuas um sofá. Deitado nesse sofá, adormecido de um sono que parecia o isolar de todo o barulho e movimento da estrada, um homem.
Olhei algumas vezes para entender a cena. Não sei o que houve bem ao certo. Não sei de que era seu sono. Não sei se o que parecia uma casa, um dia tinha sido uma, ou como ela se destroçou. Mas abaixo dessa "casinha" havia várias na ribanceira e mais lá embaixo na beira do rio. Outras mais na frente da calçada faziam vistas de que a "casinha" do homem do sofá não era isolada. Chuva forte parecia ser o motivo de ela não existir mais. Chuva poética e aconchegante para uns, mas de desalento para outros, como para ele.
Pensei muito que seu sono uma hora iria passar. Algum momento, não muito doce, iria acordá-lo, e o que ele faria então? Será que ele tinha para onde ir ou por quem procurar? ... Perguntas que não se consegue calar. Olhos que não se consegue fechar a caminho de qualquer lugar que mostre suas rugas de encantos e desencantos.

Do outro lado da estrada, mais a frente, mais casinhas. Dessa vez erguidas sobre um pequeno campo. Construídas muito juntas, elas parecem ter a intenção de se apoiarem unas nas outras, formar um pequeno povoado desconhecido mas unido de alguma maneira, já que isoladas elas parecem mais vazias e frágeis. No campo ao lado delas "moram" torres de energia elétrica de altíssima potência. Alta potência junto de frágil potência material. Potências de natureza diferentes, é claro, mas ainda assim chama a atenção quando você as coloca na mesma cena. Imaginar que parte da cidade é iluminada pela energia que sai daquelas torres e talvez as casinhas nem recebam essa energia elétrica. Perceber que as torres tomam um espaço bem maior que as casinhas e, no entanto, as torres armazenam energia - parte "abstrata" de uma casa, que não pesa ou ocupa espaço -, e as casinhas abrigam pessoas, vidas, histórias - parte fundamental do mundo e que decerto ocupa mais espaço que energia, espaço imerecido ao que parece. Cena curiosa.

Nesta tarde, a hora anunciava que o sol estava para se pôr, a luz no céu ficando mais amena a cada quilômetro pela estrada. Ventava muito, dizendo que à noite haveria chuva (realmente choveu esta noite). E o vento, quando desci na parada, parecia especial.
Cada vento tem um gosto diferente, sibila algo novo.
Esse, como outros de outras ocasiões, parecia querer acalmar o que havia, não assustar. Acalmar a inquietude de cenas que ficaram atrás na estrada. Parecia querer dizer que tudo ia ficar bem. Que de alguma forma, nem sempre tão simples, nem sempre tão rápida, mas de alguma maneira as coisas iam harmonizar-se, encontrar melhor diretriz, uma saída boa para o que agora não parecia ter uma. Porque como acontece do dia a dia, muitas vezes de repente, no meio do caos, com um pouco de boa vontade, se encontra os melhores sentimentos e valores vivos, como não se imaginava ainda existir.

Trata de não se desesperar, mas não esperar sentado. Acreditar e ir adiante. Porque numa tarde assim, num caminho que parece ser fadado a histórias tristes, numa segunda que dizem ser ingrata, há um Sol, brando, mas há. Um mesmo Sol que brilha para todos, ilumina e acorda todas as cenas de uma mesma cidade, todas as raças de um mesmo povo, todos os degraus e buracos de uma mesma estrada. E no fim, no seu ponto de parada naquela etapa, quando você precisar descer e continuar o caminho achando que a bagagem pesa demais, bons ventos sempre chegam. Para as casinhas, para o homem do sofá, para mim, para você, saiba: bons ventos sempre chegam quando você menos espera. Em forma de experiências impagáveis, soluções inesperadas, situações incomparáveis, oportunidades imperdíveis, momentos únicos, verdades necessárias, pessoas especiais... bons ventos sempre chegam.

Apenas continue seu caminho, faça o que sentir que deve, seja o melhor que puder, seja pessoal e social ao mesmo tempo, tenha as atitudes que espera nos outros, abra sorrisos, enxugue lágrimas, para você e para as pessoas do seu mundo e esteja atento a esses ventos. E aí, quando sentir uma brisa diferente, não deixe ela só passar por você, se permita inundar-se dela, pois ela irá te levar para outros rumos, até mais belos e encantados do que você imaginava. Deixe-se levar por essas ocasiões concretas, cheias de consequências visíveis e sociais, mas também invisíveis aos olhos humanos.
Enfim, não perca a oportunidade de sentir, pensar, ser, fazer melhor e espalhar a mudança e o afeto por aí. Porque bons ventos, apesar de tudo, sempre chegam, só cabe a nós saber enxergá-los e de fato transformar o nosso mundo a partir deles.

P.S. [Mensagem relacionada] Neste período de chuvas muitas pessoas estão sofrendo as consequências do descaso humano com o meio ambiente e com as cidades. Acho que já há alguns anos a humanidade tem percebido que os atos inconsequentes de só sugar da natureza sem restituí-la, ou seja, a falta de um manejo dos recursos naturais para que se possa usá-los sem devastar a natureza, tem causado muitos problemas para nós mesmos. É verdade que nem todos agem mal assim, algumas pessoas e empresas corajosas fazem a sua parte no todo. Mas, infelizmente, os anos de descuido mostram todos os dias suas consequências. Infelizmente, alguns sofrem mais diretamente as consequências disso. Mas, no dia a dia, nas pequenas como nas grandes coisas, cada um pode ser a mudança que espera no outro, como pensava Gandhi. E pode aí ser o bom vento de alguém, aproveitando-se das oportunidades que aparecem como brisas na nossa estrada, para que façamos ou não algo a partir daí. Então, pegue roupas que você não quiser mais, mas que ainda podem ser usadas por outras pessoa, alimentos e água, se você puder, e doe. Procure postos de coleta mais perto de você: http://pe360graus.globo.com/noticias/cidades/chuvas/2010/06/23/NWS,515506,4,214,NOTICIAS,766-CRESCE-NUMERO-DOACOES-VITIMAS-ENCHENTE-PERNAMBUCO.aspx.
Preces e pensamentos positivos também são ajuda e medicação e não medem distância, nem necessitam de um posto de coleta. O pouco que você faça, pode ser muito para quem precisa.

Manuella Mirna

terça-feira, 28 de junho de 2011

Cidade de ironias

Há visões que não nos deixa fechar os olhos.
Há situações que nos acorda da passividade.
Há rotinas que nos impede de se esconder.

'No meio do caminho tem várias pedras'.
Na rua de todo dia, no trânsito nosso de cada dia, é difícil se omitir de sentir o efeito do conto real de nossa cidade sobre nós mesmos.

Cenas inquietantes que te ironizam, minha cidade, e que desafiam nosso olhar, nossa sensibilidade, nosso ser.

A caminho da aula, vê-se dois lados de uma mesma calçada. E entre tantos outros, há uma ladeira para baixo muito íngreme encravada na calçada, um beco de uma só saída para a esquerda. Ironia boba ser para esquerda, triste metáfora ter uma só saída. Esse beco parece ser a entrada de uma comunidade conhecida como favela do Iraque. Pelo que ouvi recebeu esse nome porque sua ocupação aconteceu na época das invasões do Iraque, em 2003. Talvez um nome colocado por brincadeira, talvez por ignorância dos fatos, já que os "invasores" nesse caso são as reais vítimas. Entristece o fato de eles precisarem encarnar invasores para morar, abrindo espaço no chão. E na maioria dos casos não é questão de preferência, mas de, literalmente, só ter um caminho a seguir.

Em viagem boa a uma ilha urbana na zona sul, da ponte de entrada a ela, se vê que à beira do rio estão construindo um centro de compras. Ao lado desse futuro pólo de consumo e lazer ficam habitações fincadas nas águas duvidosas do rio. Nelas sobreviventes 'da lama e do caos'. Imagem desconcertante na beleza histórica da cidade.

Continuamos nosso passo, e nas calçadas de uma alta torre de negócios dorme um filho teu, cidade. Mais a frente um terreno vazio abriga outdoors. A propaganda mora segura para ganhar nossa atenção, um filho teu perece na calçada, à espera de que?

E quando vem a chuva, o campo de futebol das crianças da comunidade vira lama e a beira de todos os lados de rios fica o lixo que teus filhos deixaram cair. Os carros boiam nas consequências do descaso com o meio ambiente e contigo, cidade minha. A mesma chuva boa que aconchega de noite quem dorme tranquilo sob o cobertor. A mesma chuva boa que dá letra para minhas canções e corda para vagar meu pensamento.

Imagens. Estranhas ironias. O bom se torna cruel no mesmo dia, na mesma paisagem, na mesma cidade. Teus filhos tem culpa, cidade minha? Talvez. Mas arranjar culpados não me cabe. Até porque não é teu privilégio ser irônica. Em todos os lugares ainda se vê infinitos lados, bons e maus, de um mesmo plano. Mal me cabe a tentativa de nos fazer enxergar o que tu mostras tão claramente. Nos fazer atuar com responsabilidade universal, nome grande para um conceito simples: ame e zele pelo que/quem dá algo de essencial para ti. Assim, sem escancarar em colorido tuas ironias, sem citar nomes, endereços ou culpados, só tento que te vejam melhor, minha cidade e que façam mais por ti, por nós... E que prevaleça a tua magia.


De encantos, de desencantos. De carnaval, de luto. De belezas, de tristezas. De São João, de zé ninguém. De 1 milhão, de mal 10 reais. De Veneza, de Guiné Bissau. De Nassau, de Henrique Dias. De mascates, de usineiros. De arranhacéus, de habitações sem andar pro céu. De barulho, do meu sossego... Desconfio que a música nasceu dos sons da rua em harmonia com os sons da natureza. E no fim, no conflito, se encontrou a beleza, serena e inocente. Mas às vezes há uma lágrima que sufoca a voz na garganta e corta essa bela sinfonia. É quando se mostra a ironia. Ela não te deixa feia, mas tua beleza já não me parece mais tão inocente. É beleza madura. E tu vives e persistes.


Essa caolha encravou em ti como erva daninha em um 'baobá'. E agora tu pareces indissociável da fria desigualdade que corta a espinha dos que no teu chão se deitam para descansar (será que eles conseguem sonhar?). Tu, minha cidade, és parte responsável por meus olhos terem se aberto e eu não conseguir mais fechá-los. E é assim que nas tuas pontes vejo divisão, união e poesia. Nas tuas calçadas enrugadas vejo tema para minhas entrelinhas. Num filho teu do chão ou num filho teu do prédio de milhões, que assiste a esse espetáculo de uma das pontas singelas de tua versão de cidade antiga, vejo suplica para minhas frágeis revoluções textuais. Mas é também no teu pôr-do-sol, que assisto de uma de tuas pontes, do alto de minha janela ou no ônibus que te circula como sangue nas veias, que acordo pela segunda vez no dia e meu dia começa dourado e poético outra vez.


Decerto que tens, cidade minha, infinitas ironias que não cabem nas minhas palavras atropeladas. Mas nem por isso te amo menos, pois aprendi que o lugar que abriga a nós, aos que nos gostam e aos que gostamos é o lugar que estamos em paz, independente de onde seja, ou como seja. Até digo não ser fã do barulho, da fuligem e dos arranhacéus, não é mentira. Mas nessa rede caótica encontro paz nos meus dias e, já que sustentas meus olhos abertos, é também em ti que inflo meu coração de tema para os meus cordéis, na vontade que percebamos "quanta mudança podemos todos nós" a fim de consertar tuas ironias e te fazer sorrir um riso sereno todo dia. Sem talvez(es), sem dois lados da mesma calçada. A fim de te ver inteira.


Enquanto minha voz é baixa e não é chegada a hora do teu riso pleno, vou te fazendo poesias, tu vais dando bordado para minhas rimas às avessas e por ti prezo e peço para que melhores da tua ironia.

E, ainda uma vez, não pense que te renego. Pois é em ti que, por ser lugar meu, encontro o pão de todo dia, as pautas das minhas músicas, as letras que me alimentam, o amor nas entrelinhas, a nobreza de certos olhares, pano para meus pensamentos e melodias, o ensinamento que há nas saudades que sinto e paz para minha trilha. Tua magia penetra. Em ti acordo e digo bom dia. Em ti respiro ao pôr-do-sol. Em ti me aconchego e sob o luar desejo que 'durmam os medos teus' e que tu sonhes em paz.


Durma bem, cidade minha, e que possam sonhar todos os filhos teus.

Manuella Mirna

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Devaneios permitidos

Quarta à tarde. Aula de Teoria Literária. Pouco mais de trinta cabeças sedentas por arte, mas também por tudo que não fosse aula. Um homem distinto lá na frente disposto a falar tudo que sabia e um pouco mais. A teoria do dia não era a melhor de todas, não era melhor que práticas artísticas ou experiências a viver; naquele momento era só teoria, que só desabrocharia anos mais tarde no cotidiano encantado da língua em que escolhemos viver. Mas numa aula assim tudo que não é teoria é vida, é pensamento, é sentimento. Numa aula assim há a meta do assunto a cumprir contra um caminho misterioso e atraente a percorrer. Ficamos com os dois, mas certos dias gostamos mais do segundo. São devaneios permitidos pelas paredes respeitadas de uma sala de aula, devaneios a que nos permitimos por gosto a enxergar o algo a mais, as pequenas grandes coisas, os detalhes apagados pela correria do nosso olhar desatento, o brilho que há em cada coisa, em cada um, em cada...

E desconcentrada do todo, como criança, brinco com versos de mestres:
"o essencial é invisível aos olhos"...
mas muito nítido para o olhar.
porque entre tantas palavras belas eu escolho 'sodade', e ela se vê em meu olhar.
"gosto muito do pôr-do-sol, vamos ver um"...
mas se você não aparecer a tempo de vê-lo,
se meu pôr te parecer o nascer,
e meu nascer parecer futuro para ti,
não faz mal,
podemos ver então as estrelas e nos fazer lua para elas 'espiar'.
"se tu vens às três da tarde desde Às quatro começarei a ser feliz"...
mas se não é sensato falar em felicidade nesse mundo,
falo de algo assim mais sadio que ansiedade e mais pleno que alegria,
algo assim sem razão aparente;
razão: coisa que não existe no meu sonho, mas no dia prende meus pulos de criança.

E imersa de novo nas quatro paredes feitas de metas e artes, sou apenas uma entre as mentes que se permitem devaneios instigados pelo homem distinto lá da frente:
"adoro o som dos sinos e o som da máquina fotográfica, congelam o tempo"...
verdade, quando o sino bate seis horas, tudo que ocorre dentro das seis horas se congela, de alguma forma se imortaliza, de alguma forma se percebe a importância dessa hora, paramos sem perceber contemplando aquele momento de agora, aquela tempo que o som de um badalo insistente quis imortalizar e nos fazer dar valor não só para a importância daquele momento, mas para todos.
Verdade, quando a máquina faz 'clic', ela diz que guardou aquele momento para sempre. Como diz Quintana, os momentos são belos justamente por serem finitos, mas são tão belos que queremos tê-los para sempre de alguma forma e para sempre lembrar dos sorrisos e dos sentimentos que ilustram uma fotografia, que marcaram uma vida.
E sem saber bem porque me vem uma vontade humana de não perder esses momentos, de não deixar que eles passem sem que notemos suas ilustres presenças. Pois sem nossos mosaicos de momentos o que seria a vida? Nossa colcha seria vazia, e toda furada não nos acalentaria nos dias de frio. Porque sem percebermos são esses momentos, essas lembranças e essas pessoas das fotografias que nos protegem do frio dos nossos medos e se abrigam conosco das tempestades do caminho.

E entre outros, um devaneio final fecha nossa respeitosa permissão de aula de arte:
"as intervenções da arquitetura na cidade"
O homem distinto lá na frente disse essa frase ao contar uma história que aconteceu com ele. Um amigo seu, que fazia arquitetura na época, o fez observar como as luzes de um prédio se apagavam e se acendiam, o fez ver esse movimento e entender que arquitetura era mais que fazer prédio, era intervir na cidade e na percepção das coisas e o disse essa frase.
E me lembrei de como é bom ficar na varanda observando esse movimento, quase bobo, das luzes de um prédio ao longe. E agora senti também a saudade da saudade de uma pessoa que sente falta de olhar as luzes dos postes e dos carros à noite, o movimento das pessoas, o corre-corre de vidas tão cansadas, que acreditam por vezes estarem invisíveis. Ato quase banal, mas tão singelo, tão vivo. São vidas. São histórias. São pessoas e seus pensamentos, suas conversas, suas progressões de cena. É como contemplar o mundo respirando, se renovando a cada apagar de luzes para um novo acender em outro cômodo... nada será do mesmo jeito que foi de um apagar e acender há segundos trás. E aí, nada parece tão confortante quanto olhar para a vida de frente e assim percebermos que nossa vida vira obra de arte se quisermos vê-la assim, se quisermos perceber que para um outro, na varanda da sua casa, num ônibus, passando de noite pela cidade, somos focos de luz e história, momentos de vida e sossego para ele. Movimento, vida, poesia. Saudade.

E eu me pergunto: Devaneios?!
Não, doces verdades. Elas só pedem olhos atentos, olhos sensíveis, olhos que vejam o algo a mais da vida, olhos como os dessa pessoa que conseguiu me fazer sentir a saudade que ele sente de observar a vida de ângulos tão 'bobos', tão poéticos, tão vivos.

Manuella Mirna

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O peso de um "e se..." - abra suas janelas

"Querida Clair,
Eu não sei como a sua história terminou, mas se o que você sentia naquela época era amor verdadeiro, então nunca é tarde demais. Se era verdadeiro, então por que não seria agora? Você só precisa de coragem para seguir seu coração.'e' e 'se' são palavras que por si só não apresentam nenhuma ameaça, mas se colocadas juntas, lado a lado, elas têm o poder de nos assombrar a vida toda: 'e se...', 'e se...', 'e se...'
É difícil imaginar um amor como o de Julieta, um amor que nos faça abandonar entes queridos, que os faça cruzar oceanos. Mas eu gostaria de acreditar que se eu um dia sentir esse amor, terei coragem de persegui-lo. E Clair, se não o fez naquela época, espero que ainda o faça um dia.
Com todo amor, Julieta." retirado de cena do filme "Cartas para Julieta"

Começamos com uma carta. O tema? Amor. Sim. Aqui estamos nós de novo falando de amor, se é que é possível falar. E por que não? Este filme é definitivamente uma carta direto para o coração, porque não tem endereço mais apropriado e receptivo. A maioria das pessoas, no entanto, tem uma visão estreita sobre o amor ou sobre amar. Teimo em chamar atenção para que amemos, nos apaixonemos: por alguém, por um sonho, por uma causa, pelos dias, pelas estações ou por uma só, pelo ser, pela vida. Então, partindo do amor mais óbvio e apaixonante, mais popular e sentido, lá vai um exemplo do filme para ficarmos bem amolecidos:

Pedaço da cena em que ela está no balcão de Julieta refletindo e ele chega e sobe numa árvore para alcançá-la.
Ele: - [...] o mais importante é que só tem uma Sophie [...] Presta atenção, presta bastante atenção, eu moro em Londres, uma cidade histórica, linda e vibrante, na qual eu amo viver. E você em Nova York, que é super estimada [...] Como o Atlântico é largo demais para atravessar todos os dias a nado, de barco ou de avião, vamos decidir na moeda [...] Mas se você não quiser aceitar isso, eu deixo Londres com todo prazer se você estiver me esperando do outro lado. Porque a verdade, Sophie, é que eu te amo, loucamente, profundamente, verdadeiramente e apaixonadamente. [...]
Olhos e sorrisos falam mais que palavras e neste momento ele cai da árvore.
Ele: - Por favor, me diga que ninguém viu isso. Ela: - Ninguém viu. (mas todos olhando) Ele: - Que bom, é muito bom. Ela: - consegue se mexer? Ele: - só os meus lábios (eles se beijam).

Você deve estar pensando: "ela acredita mesmo em contos de fada!" Não, acredito no conto da vida. E realmente acredito na incrível capacidade de contistas que temos cada um de nós. Vejo isso nos contos de não-fada, nos contos da vida, de formas únicas e bonitas, às vezes até estranhas e engraçadas. Esse é apenas um exemplo hollywoodiano, mas que sai das telas para amolecer nossos corações e nos dizer para sermos roteiristas melhores das nossas histórias de amor. De amor sim, mas no sentido amplo da palavra, no sentido que não se esgota e toca todos os cantinhos e áreas das nossas vidas.
E aí, não só no cantinho mais restrito e popular de amor, mas em todos os cantinhos, é importante tentarmos evitar os 'e se...'. Pararmos de imaginar o que poderia acontecer e fazermos o que acreditamos ser certo, ser necessário; o que sentimos que devemos e queremos fazer. O poder de mudar o rumo das histórias vem de nós, da caneta que escreve as nossas páginas todos os dias, e as deixarmos sentir o peso de um ' e se...' é muito doloroso e desnecessário para o ser que pôde chegar na lua.
Para mim esse filme, como tantos outros, é só uma dica, que se resume em quebrarmos as barreiras que criamos; em corrermos atrás do que acreditamos e amamos, ou sabemos que podemos vir amar; em contornar algumas dificuldades, como a água faz; em derrubar as que precisam ser derrubadas, como os heróis fazem; em ousarmos mais e nos culparmos menos; em fazermos mais e calcularmos menos; em evitar nossos tão presentes 'e se...'.
Não é que devemos agir sem pensar. Não se trata de impulsividade, mas de coragem. De permitir a nós mesmos sair da redoma aparentemente segura e enxergar as possibilidades, provando para a vida que sabemos, ou mesmo tentamos, dar valor a ela e escrevemos direitinho seus capítulos.
E fazer isso pela simples razão de que quando decidimos dar vazão ao amor, abrir as portas para seus encantos, seus mistérios, suas lições, seus confortos... quando decidimos aplicar a maior capacidade humana, a de amar: pessoas e não pessoas, momentos e natureza, sonhos e ideais, atitudes e sociedade, a vida veste seu sentido pela raiz e se encarrega de trazer do inesperado as suas magias.

Manuella Mirna

Tua face, Minha face... na face do Mundo

Como um dia comum.
Como uma tarde dessas.
Sem uma razão convincente.
Somos uma face não tão boa de nós.
Perdemos o tato ou o olhar, meigo, atento.
Perdemos a audição ou a atenção, fiel, leal.
Nos perdemos do que somos nós.
Daquela face rara.
A melhor.
E tratamos com indiferença ou insensibilidade o diferente de nós.
Não melhor ou pior.
Mas diferente.
Tendência humana cega que encontra o erro só no oposto. Encontrando todas as razões para justificar a razão própria. E se desconhece o significado de "compreensão"... ou só de um pouco mais de humanidade.
Muitas vezes não se quer falar nisso.
Muitas vezes não se encontra ''tempo'' para pensar nisso.
Muitas vezes não encontramos oportunidades de agir assim.
Muitas vezes justificamos a nossa falta de vontade com qualquer uma dessas coisas.
Não se trata de incapacidade, ou predisposição genética; nem mesmo de maldade.
Não. É somente a nossa cegueira, pelo orgulho bobo e egocentrismo imaturo.
E quando nos recusamos a observar o que está na nossa frente, nos perdemos de nós mesmos, esquecemos do que somos, ou poderíamos ser; esquecemos o melhor que somos ou poderíamos ser.
Quando passamos pelas ruas, pelos momentos, pelas pessoas... sem tentar notar a necessidade dos olhares ou o brilho dos sorrisos, perdemos oportunidades de sermos a luz de alguém ou de deixar que alguém seja a nossa luz naquele dia.
Às vezes precisamos olhar para fora para então olharmos para dentro com maturidade. Às vezes precisamos enxergar o outro para nos enxergamos na proporção certa. Às vezes precisamos nos permitir, não tratar uns aos outros como lobos desconfiados, mas como aliados de um mesmo ideal. Por mais impossível que pareça, se começa dos próximos mais próximos.
Não é tão difícil. Às vezes basta um espelho iluminado pelo sol e inclinado na diagonal. Às vezes basta que se admita os próprios defeitos e limitações para compreender os dos outros. Que se pise no chão sem pedestais ou saltos de madeira. Que nos percamos de si... Sim, mas dos nossos medos, dos nossos entraves, dos nossos argumentos, dos nossos "nãos". Que se encare o próximo com humanidade, face a face. Que nos encaremos com maturidade, face a face.
Que entendamos que muitas vezes na tua face, está refletida a minha, e na minha face está a do mundo.
Olhe. E queira ver.

Manuella Mirna