Artista plástico e escultor italiano do século XIX-XX que recebeu um filme em sua homenagem em 2004, Amadeo Modigliani é autor dessa frase que adaptei ao título deste post. Originalmente ela seria "Quando eu conhecer sua alma eu pintarei seus olhos".
Casado e muito apaixonado, Modigliani dedicou muitos de seus quadros a reprodução da sua esposa, como ele a enxergava, um tanto diferente para quem via os quadros, mas quem é capaz de contestar a visão particular de cada pessoa acerca de quem ela ama? Ainda mais quando se trata de um artista. As pessoas estranhavam, mas sentiam que a obra refletia um intenso amor. Uma coisa, no entanto, intrigava a todos, inclusive a mulher dele: Modigliani não pintava os olhos de sua amada.
Quando um dia ela lhe perguntou o porquê disso ele foi simples em responder: "When I know your soul I will paint your eyes". Amedeo achava muito difícil representar os olhos das pessoas, em especial da pessoa que mais amava. Acredito que os olhos para ele eram uma janela da alma, um espelho do que era a pessoa, com todos os seus conflitos, medos, mistérios, manias; todos os seus encantos, risos, delicadezas, grandezas, paixões; com todas as suas muitas faces surpreendentes e apaixonantes. Por isso sua mulher, a criatura a que ele mais amava, que achava mais surpreendente, mais complexa, mais humana, mais apaixonadamente humana, tinha o olhar mais misterioso de se pintar. Mesmo assim, não tentava desesperadamente, ele sabia que na hora certa conheceria sua amada a ponto de desvendá-la em cores. Amedeo acreditava que representá-la tão facilmente nas telas seria reduzí-la, diminuir o tudo que ela era a cores convencionais de aquarela.
Acredito que Modigliani compreendia o tão desejado apaixonar-se pela mesma pessoa todos os dias, e devia experimentar isso. Acredito que ele compreendia que é impossível definir cada parte mais discreta e marcante de quem se ama. Acrecito que ele compreendia que as pessoas são um mundo, um vasto mundo cheio de surpresas, e que especialmente aquela pessoa que ele escolheu para amar tem muitos encantos para representar tão facilmente. Acredito que ele compreendia, como Drummond, existirem muitas razões para não se amar uma pessoa, mas apenas uma para amá-la, e aí acrescento que é o simples fato de ser apenas ela mesma.
Decerto, como Drummond parecia saber na sua frase, Modigliani também parecia saber que não há perfeição nas pessoas, que realmente com um pouco de má vontade se acha vários motivos para não encontrar o amor. Mas parecia também saber, e principalmente, ver a verdadeira essência nos momentos, nos sorrisos, nos olhares, nos amores, no seu amor. Parecia saber que acima de tudo que já foi dito sempre existe mais o que se dizer, o que se descobriir, o que se desvendar, com o que se surpreender. Por isso não quis se precipitar em pintar os olhos de sua mulher.
Um dia, como devia ser, ele os fez. Encontrou a hora certa. Fez porque por algum motivo ele conseguiu colorir a essência do que era sua amada. É claro que todas as cores que ele usou não diziam todas as coisas que ela era para ele. Mas ele sabia que o amor de cores vivas estava representado na sua vida, na qual o compartilharia com ela, o descobriria e redescobriria nas muitas faces de sua amada.
Esse pequeno detalhe da vida do pintor me fez entender que realmente aquela pessoa que você ama é muito mais do que ela mesma se descreve. Que há muito ainda a ser dito e desvendado, mesmo com tudo que já foi dito. Que mesmo que você saiba quem está amando, felizmente esse alguém é muito mais do que ele mesmo supõe e você terá sempre novas coisas para amar numa mesma pessoa. E para que a face mais bonita de mostre, ou a face mais engraçada, ou a mais indiscreta, ou a mais marcante, ou todas elas, é preciso também que se deixe ver, se deixe mostrar, se deixe compartilhar aquilo que há de mais especial em você.
Acho que todos somos um pouco de Modigliani e de sua mulher, um pouco dos dois, sempre temos muito a mostar e muito ainda a descobrir. Mas algumas vezes nos fechamos, sem saber bem porque, não deixamos ser desvendados ou não queremos desvendar alguém; não só necessariamente aquele alguém, mas também aquelas pessoas que você conquistou e que conquistaram você de forma especial. Geralmente, nós temos medo de nos mostrar, de sermos descobertos nas nossas muitas faces ou de descobrir em alguém aquela face da qual não iremos querer nos separar. Geralmente por isso perdemos oportunidades de enxergar aquela pessoa tão especial ou de ser vistos de forma tão especial por alguém assim.
Modigliani devia ter também um pouco desse medo, mas ele era artista e não demosntrava tanto. Acho que devíamos tentar ser mais artistas nesse ponto, como em tantos outros. Não temer descobrir e ser descobertos pelas pessoas essenciais que aparecem aqui e ali na nossa vida, entre elas provavelmente existe aquela a quem irás amar muito.
Então, meu bem, quando eu conhecer tua alma, a cada dia que motrares mais dela para mim, buscarei estar atenta para conhecer mais um detalhe indiscreto e marcante de você. E já que não sei pintar, no dia que souber que não irei te reduzir a qualquer poesia, escreverei sobre teus olhos, eles que me encantam, impressionam, surpreendem, te revelam e me revelam tanto, sem eu sequer me dar conta, de forma tão essencial, todos os dias.
Manuella Mirna
"Em busca do desvio do que é normal... mudança de rota representa a sobrevivência do que é essencial..."
domingo, 31 de outubro de 2010
sábado, 16 de outubro de 2010
Sintonia Los Hermanos
Há três anos atrás escrevi no meu caderno um texto de despedida sobre Los Hermanos um tanto triste. Hoje, depois de ontem à noite, prefiro não pensar em despedidas, prefiro pensar que o 'adeus você' é só nome de música e ouví-los dizendo 'não pensa que eu fui por não te amar'. Então, 'pra que minha vida siga adiante', não vou postar o de anos atrás, prefiro pensar em ontem sem pensar que 'todo carnaval tem seu fim'. Prefiro tentar, por mais que seja quase impossível, guardar esse momento em palavras já que se gravou na memória, palavras companheiras que, como eles, são eternas.Depois de três anos, uma espera anciosa e sem saber se valia a pena realmente esperar que eles não seguissem adiante separados, eles voltaram para mais um show, talvez o último, talvez não, prefiro pensar que não.
Estranho pensar neles como um show, como apenas uma banda. Eles são muito mais. Para quem não gosta pode parecer piegas. Mas quem conhece de verdade sente e sabe que não há palavras para definir, muitas coisas mais conectam a eles.
A música brasileira é muito boa, mas sofre alfinetadas ferozes da música gastronômica e existir música como a de Los Hermanos é quase como respirar ar puro no meio de uma cidade maluca. É como voltar pra casa, sentir-se em casa no meio de uma multidão. É como saber que o mundo que se mostra além da sua janela não é tão caótico e egoísta quanto parece, é também poético, depende de como o vemos e nele dá para aprender muito também, ser melhor, por mais que pareça o contrário.
Enxergar o que se passa num coração fatigado de dois velhinhos ali da esquina e acreditar num 'último romance'; contar o momento de morte de duas pessoas cujo amor nunca irá morrer numa 'conversa de botas batidas'; entender do 'sétimo andar' um amor cuidadoso e puro de alguém que não esquece seu outro mesmo que esse não possa mais continuar com ele; sentir os reparos de um coração que tem tudo, mas que também precisa, e muito, daquele alguém com ele o mais rápido possível é 'sentimental' e não é pecado isso. Histórias de amores mil, musicadas com uma harmonia instrumental que só L.H. tem e que nos faz sentir realmente, nem que seja só por um momento, só de ouvir, só de cantar, sentimentos que nosso olhar apressado e nosso coração medroso muitas vezes não se permitem sentir. E quando conseguimos deixar essa música curar nossos sentimentos cautelosos demais, ou exagerados demais, nos tornamos amantes melhores.
Enxergar que 'nessa vida não se pode mais errar, que entre as estrelas e o chão' ainda 'existe o mar' e 'deixa estar'; entender que a despedida num 'adeus você' às vezes é necessária, é crescimento e que não é por falta de amor; ver 'além do que se vê' que 'é difícil ser feliz mais do que já somos todos nós'; experimentar a casa segura que o amor pode te dar e 'deixa o verão' pra mais tarde, porque da porta pra lá as vezes é hostil demais para o essencial. Aprendizados e valorizações que muitas vezes não conseguimos tirar dos momentos, das pessoas, da vida, às vezes passamos por ela e não entendemos as mensagens que ela nos dá. L.H., acho eu, consegue captá-las e colocar em letras tão delicadas que se não quisermos ver além não percebemos o belo no meio do caus que vivemos.
Até separações com 'a flor' na mão e que 'assim será', traições com 'a outra', estar aflito e só vendo 'os passáros'. Nada disso é realmente triste com acordes perfeitos e a certeza de que precisamos de momentos assim algumas vezes para experimentar sentimentos e lições que a vida sutilmente mostra com a única finalidade de nos tornar mais vivos e mais corajosos. Acho que L.H. entendeu que a música e a poesia são formas de encarar verdades que não precisam ser necessariamente tristes e que assim você se torne poema nessas horas.
Saber que num 'horizonte distante' 'através eu ví, só o amor é luz... não me falta ao passo coração'; e 'paquetá' sozinho e tristonho, admita com certo humor um quase erro e pegue no ar o amor que quase deixou cair - não deixar passar as raras pessoas da nossa vida é um dom - 'e desse engodo eu vi luzir de longe o teu farol minha ilha perdida é aí o meu pôr-do-sol'; numa 'casa pré-fabricada' descobrir um abrigo num sorriso, qualquer coisa nele explica a paz que ele te dá, o amor constrói casas que o vento não leva; 'veja bem meu bem' onde você não está ela está, a saudade. Cantar amor não é piegas quando L.H. nos mostra as faces mais lindas, os detalhes mais singelos, o delicado e o sensual de um sentimento que não vence, que vale a pena em qualquer lugar, que pode não ser eterno para algumas pessoas, mas não precisa ser. Ele, o amor, eterniza-se em si mesmo, pelos momentos, sorrisos, olhares, beijos e sensações que sempre vão ficar gravados. Ele ensina, nos mostra, nos desmascara, nos faz, assim, nós mesmos, melhores, eternos.
Enfim, é difícil quando se olha pela janela e não vemos exatamente o mundo dos nossos sonhos. É difícil quando no meio de tanta desordem você conseguir enxergar coisas melhores, sorrisos indecifráveis, olhares inexplicáveis, pessoas especiais, momentos únicos, soluções e esperanças e forças e sonhos e amor e tudo que há de melhor na vida. Mas é preciso saber entrever no meio de todo caos o que o mundo realmente pode ser pra você, o que nele você pode aprender, a pessoa que você realmente é, melhor do que a janela te induz a ser. Acho que Los Hermanos, de alguma forma, sabe disso: que a vida é mais do que ela mostra ser, que há realmente o especial em algum lugar. Mas o essencial é invisível aos olhos apressados, é preciso não ter medo de ir além, de sentir além, de ser mais, de viver mais, de sentir mais. Música pode ser uma maneira estranha de fazer isso, mas é uma fórmula infalível, pois nem sempre conseguimos sozinhos o que certos acordes conseguem traduzir, entrando pelos poros, agitando a cabeça, o coração, a alma. De forma a instigar o melhor em nós, os sentimentos mais ocultos, as sensações mais necessárias, os desejos que não podemos afogar, as pessoas que precisamos estar perto, as coisas que não devemos esquecer, as coisas que precisamos lembrar mais, as coisas que devemos deixar de lado, a vida e amor que precisamos viver mais.
Los Hermanos. É difícil descrever algo que realmente só sentindo se explica, se se explicar. Mas não podia deixar de tentar gravar L.H. aqui, de alguma humilde forma, mas verdadeira. Ontem, pode ter sido o último show, ou não, mas o que eles representam para quem deles gosta, o que suas músicas são capazes de fazer para quem ouvi, é para sempre. Eles nos contam histórias, algumas tristes outras alegres, mas todas necessárias. Histórias que às vezes traduzem as nossas, histórias que às vezes traduzem nossas qusse histórias, histórias que nos levam a fazer histórias mais belas ou mais apixonadas ou mais especiais, ou tudo de uma vez.
... Eternamente Los será a sensibilidade acordeada.
Obrigada Los Hermanos! Sem mais palavras.
Manuella Mirna
Obrigada Los Hermanos! Sem mais palavras.
Manuella Mirna
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Enxergando as Eleições
2010, ano de eleições, daquelas longas e complexas. Poderia ser mais um ano de exercício da cidadania e da democracia, mas tem sido bem mais que isso, infelizmente, para pior. Estamos tendo uma das eleições mais desleais que nosso país já assistiu, se bem que, em se tratando de eleições diretas e realmente democráticas ele não assistiu a muitas, mas essa, com certeza, irá ser lembrada pela mentira e pelo jogo sujo.No Brasil, a democracia sempre sofreu duros testes para se efetivar, como os votos de cabresto e as oligarquias cafeeiras que controlaram as decisões nas eleições durante a República Velha, e a até a Ditadura para ameaçar os sonhos de cidadania e liberdade, mas ainda hoje ela parece cair por terra a qualquer momento. Não falo aqui da democracia como direito do povo de comparecer às urnas, mas da democracia conscientizada, aquela em que não somos marionetes de politicagem, aquela em que não somos "convidados" a responder em um plesbicito o que os candidatos não estão preparados ou tem medo de tomar posição, aquela na qual não há leilão para ver quem engana mais o eleitor por um voto, aquela a qual não é pichada por propostas infantis e mirabolantes que em nada, de fato, colaboram para o crescimento do país e sim para o descredito do cidadão diante do seu direito de escolha. Os mais conscientes perguntam-se se realmente esse tal direito tem valor e que valor é esse: cestas básicas, tijolos, uma nota de $600, tarifas reduzidas nas operadoras de celular ou leitores digitais?
É realmente lamentável que um país com fama de pacífico e amistoso tenha tanta guerra durante processos políticos tão importantes, que deveriam ser celebração da democracia. Guerras por um voto, pela melhor mentira, por um eleitor, por uma cadeira confortável num palecete no centro do páis. No meio desse tiroteio de idéias muitas vezes mascaradas com um discurso popular, o eleitor fica sem saber em quem acreditar, o que ouvir, o que defender, o que escolher. Nessa loucura de campanha, o cidadão não consegue distinguir o verdadeiro do mentiroso e acaba por não exercer com a devida consciência e satisfação sua democracia.
A política atual, com raras exeções que nos custam muito identificar, tenta de todas as maneiras nos furtar o direito de pensar com clareza, de refletir com discernimento, pois o que se diz não se escreve, o que se faz não se divulga, e quando algo vem à tona mais nos parece que a única coisa feita no palecete é tentar nos esconder as falcatruas. Para compeltar o cenário, a mídia, que deveria esclarecer o eleitor e informar de forma objetiva e sobretudo ética a verdade das campanhas eleitorais, dos políticos, o cerne de cada proposta e a distinção entre o dizer e o fazer de cada candidato, entra no joguete político e passa a distribuir a mentira melhor paga.
Diante disso tudo é natural que o brasileiro ache votar em branco/nulo como única solução para seu descredito ou eleja um palhaço para rir da própria desgraça. Mas isso não é fazer jus a cidadania, por mais que essa hoje em dia pareça utopica; isso não melhora as coisas, só pioram. Até porque o brasileiro orgulha-se de ser alguém que não desiste nunca, então ele é o último que deve desestimular-se, que deve achar que não há mais jeito e deixar-se dobrar às muitas tentavas insanas de borrar nossa democracia. Assim, ele não deve acreditar em qualquer coisa, o que lhe pareça mais politicamente correto ou o que lhe apareça mais sorridente e amigável. Não deve acreditar em calúnias sem fundamento que surgem em epoca de campanha com o único objetivo de angariar mais votos e vencer o "campeonato". Não deve aceitar como fato tudo que um tipo de imprenssa mercenária diz. Não deve achar que o fato de ilegalidades sairem de baixo do pano é ruim, é ruim também, mas é um indício de que o governate do país está mais atento, quer desmascarar as corrupções, fichar quem as fazem, e não teme ser colocado no pálio também porque não tem nada a esconder.
O fato de haver politicagem não quer dizer que a democracia e a cidadania não valem à pena. Aquela política descompromissada mostra sinais de extinção, mostra que está prestes a cair de vez, escândalos explodem no noticiário todos os dias, prisões e cassações são decretadas, leis, ainda que a custo, prometem agir com eficácia, os candidatos ao poder tem representantes em todas as classes, de todos os sexos e ideologias. As coisas estão se descentralizando e a ganância de políticos e partidos que sempre fizeram o povo de joguete deixa cair o véu cada dia mais, promessas quaisquer não sustentam mais um voto. Já a democracia e a cidadania sempre existirão, são direitos conquistados que jamais vão sair de moda. Significam progresso e não há mais como andar para trás, estamos indo em frente, crescendo sempre, por mais que pareça ser por um caminho tortuoso e camuflado tenha certeza que muito pior já foi.
Acredite, antes o índice de analfabetismo era gritante e não havia perspectiva de eleitores conscientes. Antes a única mídia que havia, ainda muito imatura, andava junto com os poderosos políticos controladores do povo e quando surgiram outras mais conscientes que decidiram denunciar a realidade foram censuradas. Antes as máscaras não caiam, antes nada era divulgado e quando surgiu um governo que iria fazer mais pelo povo as armas tomaram o poder e traumatizaram vidas, mentes, famílias, sonhos, histórias.
Enfim, hoje as coisas estão melhores, ainda que pareça absurdo dizer isso, é verdade. E se estamos desestimulados diante da democracia, não é culpa só da corrupção ou só dos políticos, é culpa nossa também que por imaturidade política fizemos escolhas erradas das quais nós mesmos nos arrependemos depois. Algumas não faz tanto tempo, infelizmente. Mas justamente por hoje a situação mostrar mudanças, justamente por hoje enxergarmos que erramos em muitas escolhas é que devemos enxergar com muito cuidado e responsabilidade essas eleições, praticar o "além do que se vê", do que é dito, do que é anunciado na tevê ou em pedaços de entrevistas que com uma boa montagem compromete qualquer um. Precisamos usar de toda nossa conciência e direito de escolha para refletir sobre os melhores canditados, estudar suas propostas e principalmente o que há por trás de seus sorrisos e discursos politicamente corretos. Devemos mostrar que estamos amadurecendo politicamente, criando discernimento político e que qualquer propaganda bem feita ou promessas mirabolantes não irão ganhar nosso voto. O brasileiro quer mais, ele principalmente é capaz de escolher bem, refletindo e pesquisando, e depois de enxergar a verdade por trás dessa eleição de leilão ele poderá ter a consciência de que não foi marionete de joguetes políticos dessa vez.
Manuella Mirna
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Verdade Inconveniente, mas necessária
Não estava pensando em postar algo relacionado ao meio ambiente, por ser um tema já muito comentado e não quero me encher de clichês. Mas na faculdade um professor nos passou uma análise crítica sobre o filme "Uma Verdade Inconveniente" e acabei por achar muito importante mostrar para vocês meu rascunho, afinal somos colegas de Planeta não é?! =D Não podemos negar ser um assunto fundamental hoje em dia, por relacionar-se diretamente, e muito, com nossa vida, e nunca é demais informações e histórias que nos façam refletir sobre esse tema para mudar com mais rapidez e consciência certas atitudes tão contra a natureza. Então, que tal pensar mais um pouco sobre o meio ambiente?!
Conforme o autor, o complicado, no entanto, é provar para a humanidade e para a banca de cientistas negadores do Aquecimento que ele, de fato, existe e que há um consenso científico em nós sermos os causadores dele.
No filme, Al Gore mostra diversas fotografias tentando provar os efeitos desse dito fantasma. A Patagônia, por exemplo, há 75 anos era um enorme deserto de gelo, o qual hoje virou um lago azul com vegetação nas margens e apenas os picos das montanhas estão nevados. O Monte Kilimanjaro é outro que há 30 anos estava inteiramente coberto de gelo e uma foto de 2006 mostra a cobertura nevada com apenas 20% da original, que por previsões climáticas, até o final de 2020, desaparecerá.
Além de imagens o filme se utiliza de gráficos, projeções de pesquisas científicas e explicações esclarecedoras. Ensina, assim, que a atmosfera é a que mais sofre com todas as ações praticadas pelo ser humano e, consequentemente, o efeito dessa fragilidade cai sobre a sociedade, a qual nota todos os dias as mudanças climáticas que acarretam grandes desastres naturais.
Mostra, ademais, que o efeito estufa é um mecanismo natural necessário à sobrevivência humana, mas o excesso de gases, na maioria tóxicos, exalados para a atmosfera não conseguem ser filtrados por ela e, assim, superaquecem o Planeta. Por isso, em menos de 50 anos o nível de gás carbônico na atmosfera, gás tóxico mais abundante no ar devido ao seu largo uso nas atividades humanas, subiu mais que o dobro do nível estável que mantinha.
Assim, conforme é explicado no filme, quanto mais calor maiores tempestades ocorrem, o que se constatou com enormes furacões nas últimas décadas, como o Jeanne, o Frances, o Juan e, mais recentemente, o Katrina. Esse teve categoria 1, dentre as 5 que um furacão pode assumir, mas por ter passado por águas quentes, reflexo do aquecimento gradual das águas oceânicas, aumentou sua velocidade e umidade, causando a destruição de parte dos Estados Unidos, como foi visto em 2005.
Nesse ritmo de aquecimento das águas e do ar, as calotas polares tendem a derreter. Fato que já é noticiado nos jornais, como o derretimento das calotas na Antártida. O filme, no entanto, faz previsões ainda piores do que já é percebido. A Groelândia, por exemplo, derreteu só em 2005 mais do que o previsto para aquele ano e para 1992. Assim, se ela quebrar e derreter ou metade dela e metade do oeste da Antártida ou ainda o Ártico quebrar e derreter, o nível das águas oceânicas subirá 6 metros. Dessa forma, a Flórida e a Baía de São Francisco seriam quase completamente inundadas, os arredores de Pequim, Shangai e Calcutá ficariam debaixo d´água e a Holanda desapareceria. Então, Al Gore leva a refletir, se é forte o impacto de centenas de milhares de refugiados, como seria com os aproximadamente 100 milhões de refugiados desses desastres?
Esses fatos, pesquisas e previsões são provas incontestes de que o Aquecimento Global não é um fantasma como pensam alguns cientistas e ignoram algumas pessoas, ele existe e as causas que levam até ele devem ser combatidas. No entanto, como afirmou Al Gore, algo irá realmente ser feito não só quando a humanidade se convencer da veracidade dos fatos, mas também quando entender que ela é a principal causadora dessa realidade.
Para isso, ela deverá entender que os seus hábitos enquanto integrantes de uma sociedade consumista estão errados; que a economia dos materiais de qual faz parte, ou seja, o sistema de extração dos recursos naturais à produção, distribuição e consumo está em crise. Entender, assim, que um sistema linear não pode funcionar muito tempo em um Planeta finito, pois seus recursos não durarão para sempre e de perto esse processo é muito mais complexo do que parece ao creditá-lo funcionando linearmente.
Dessa maneira, esse processo econômico criado pelo homem esbarra nos limites naturais do Planeta. Prova disso, é que 75% dos peixes estão exauridos com a pesca irregular e as toxinas despejadas na água pelas indústrias, 80% das florestas estão desmatadas para plantação de soja, milho, trigo ou para pecuária, a qual é responsável por 18% da poluição do ar. Além disso, apenas nas 3 últimas décadas, 1/3 dos recursos da natureza foram consumidos, carregando a capacidade da Terra. Só os Estados Unidos, com 5% da população mundial, usa o equivalente a 30% dos recursos. Para isso, ele utiliza-se dos de países que não tem a economia tão forte para extrair suas riquezas, esgotando o meio-ambiente deles ao máximo. E ainda coloca indústrias em países que tem mão de obra abundante e barata para acelerar a produção e baratear os custos. Toda essa degradação e poluição do meio ambiente volta, não só para os EUA, como também para o mundo inteiro através das correntes de ar, aquecendo a atmosfera e gerando furacões, ciclones e fortes tempestades.
Assim, nesse sistema abusivo, no qual mais vale fortalecer a economia do país, o consumismo nas pessoas é cada vez mais estimulado pela mídia e até por certos governos. Como no ataque de 11 de setembro, quando Bush orientou às pessoas a fazerem compras para esquecer o ocorrido. Logo, o consumo virou também arma política para alienar a população da realidade. O objetivo maior desse processo é vender produtos descartáveis a preços baixos o mais rápido possível para comprarmos mais depois, enchendo os cofres públicos e privados do dinheiro pelo qual se trabalha horas para obter. No final das contas 99% do consumido pela sociedade vira lixo, esse, por sua vez, na maioria das vezes é incinerado, poluindo o ar com os gases tóxicos dos produtos e os formados na combustão. Ou então, e não melhor, o lixo é jogado em aterros sanitários ou lixões, degradando o solo com o líquido formado por ele e poluindo os lençóis de água subterrânea.
Por conseguinte, o filme Uma Verdade Inconveniente leva à reflexão de uma série de questões importantes acerca da nossa sociedade e dos hábitos necessários de mudança. Decerto, atitudes positivas das Organizações Não Governamentais, como o Greenpeace, e mesmo de certos governos, como da Alemanha e França, lutam para preservar as florestas e o mundo marinho, para conseguir uma produção limpa, estimular o consumo justo, fazer o bloqueio de aterros, lixões e incinerações e isso já é uma demonstração de economia promissora e sustentável. No entanto, muito mais deve ser feito para não desperdiçar os recursos e as pessoas vítimas desse sistema explorador, substituindo-o por um sistema fechado, renovável, no qual a extração, a produção e o consumo tenham um propósito e o cuidado necessário e o lixo não seja simplesmente jogado fora. Dessa forma, sustentabilidade e economia provariam sua possível equidade, com uma química verde, energia renovável e economias locais vivas. Isso não é utópico, sonhar é continuar apostando no velho e falido sistema que nos encontramos, é necessária uma nova ideologia. Assim, provada a existência do Aquecimento e de quem é a responsabilidade dele, é uma questão moral e não política, como disse Al Gore, agir em conjunto para sanar o problema. Pois a crise é global, é a habilidade humana de viver que está em risco, é o futuro que está ameaçado de existir.
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