terça-feira, 28 de junho de 2011

Cidade de ironias

Há visões que não nos deixa fechar os olhos.
Há situações que nos acorda da passividade.
Há rotinas que nos impede de se esconder.

'No meio do caminho tem várias pedras'.
Na rua de todo dia, no trânsito nosso de cada dia, é difícil se omitir de sentir o efeito do conto real de nossa cidade sobre nós mesmos.

Cenas inquietantes que te ironizam, minha cidade, e que desafiam nosso olhar, nossa sensibilidade, nosso ser.

A caminho da aula, vê-se dois lados de uma mesma calçada. E entre tantos outros, há uma ladeira para baixo muito íngreme encravada na calçada, um beco de uma só saída para a esquerda. Ironia boba ser para esquerda, triste metáfora ter uma só saída. Esse beco parece ser a entrada de uma comunidade conhecida como favela do Iraque. Pelo que ouvi recebeu esse nome porque sua ocupação aconteceu na época das invasões do Iraque, em 2003. Talvez um nome colocado por brincadeira, talvez por ignorância dos fatos, já que os "invasores" nesse caso são as reais vítimas. Entristece o fato de eles precisarem encarnar invasores para morar, abrindo espaço no chão. E na maioria dos casos não é questão de preferência, mas de, literalmente, só ter um caminho a seguir.

Em viagem boa a uma ilha urbana na zona sul, da ponte de entrada a ela, se vê que à beira do rio estão construindo um centro de compras. Ao lado desse futuro pólo de consumo e lazer ficam habitações fincadas nas águas duvidosas do rio. Nelas sobreviventes 'da lama e do caos'. Imagem desconcertante na beleza histórica da cidade.

Continuamos nosso passo, e nas calçadas de uma alta torre de negócios dorme um filho teu, cidade. Mais a frente um terreno vazio abriga outdoors. A propaganda mora segura para ganhar nossa atenção, um filho teu perece na calçada, à espera de que?

E quando vem a chuva, o campo de futebol das crianças da comunidade vira lama e a beira de todos os lados de rios fica o lixo que teus filhos deixaram cair. Os carros boiam nas consequências do descaso com o meio ambiente e contigo, cidade minha. A mesma chuva boa que aconchega de noite quem dorme tranquilo sob o cobertor. A mesma chuva boa que dá letra para minhas canções e corda para vagar meu pensamento.

Imagens. Estranhas ironias. O bom se torna cruel no mesmo dia, na mesma paisagem, na mesma cidade. Teus filhos tem culpa, cidade minha? Talvez. Mas arranjar culpados não me cabe. Até porque não é teu privilégio ser irônica. Em todos os lugares ainda se vê infinitos lados, bons e maus, de um mesmo plano. Mal me cabe a tentativa de nos fazer enxergar o que tu mostras tão claramente. Nos fazer atuar com responsabilidade universal, nome grande para um conceito simples: ame e zele pelo que/quem dá algo de essencial para ti. Assim, sem escancarar em colorido tuas ironias, sem citar nomes, endereços ou culpados, só tento que te vejam melhor, minha cidade e que façam mais por ti, por nós... E que prevaleça a tua magia.


De encantos, de desencantos. De carnaval, de luto. De belezas, de tristezas. De São João, de zé ninguém. De 1 milhão, de mal 10 reais. De Veneza, de Guiné Bissau. De Nassau, de Henrique Dias. De mascates, de usineiros. De arranhacéus, de habitações sem andar pro céu. De barulho, do meu sossego... Desconfio que a música nasceu dos sons da rua em harmonia com os sons da natureza. E no fim, no conflito, se encontrou a beleza, serena e inocente. Mas às vezes há uma lágrima que sufoca a voz na garganta e corta essa bela sinfonia. É quando se mostra a ironia. Ela não te deixa feia, mas tua beleza já não me parece mais tão inocente. É beleza madura. E tu vives e persistes.


Essa caolha encravou em ti como erva daninha em um 'baobá'. E agora tu pareces indissociável da fria desigualdade que corta a espinha dos que no teu chão se deitam para descansar (será que eles conseguem sonhar?). Tu, minha cidade, és parte responsável por meus olhos terem se aberto e eu não conseguir mais fechá-los. E é assim que nas tuas pontes vejo divisão, união e poesia. Nas tuas calçadas enrugadas vejo tema para minhas entrelinhas. Num filho teu do chão ou num filho teu do prédio de milhões, que assiste a esse espetáculo de uma das pontas singelas de tua versão de cidade antiga, vejo suplica para minhas frágeis revoluções textuais. Mas é também no teu pôr-do-sol, que assisto de uma de tuas pontes, do alto de minha janela ou no ônibus que te circula como sangue nas veias, que acordo pela segunda vez no dia e meu dia começa dourado e poético outra vez.


Decerto que tens, cidade minha, infinitas ironias que não cabem nas minhas palavras atropeladas. Mas nem por isso te amo menos, pois aprendi que o lugar que abriga a nós, aos que nos gostam e aos que gostamos é o lugar que estamos em paz, independente de onde seja, ou como seja. Até digo não ser fã do barulho, da fuligem e dos arranhacéus, não é mentira. Mas nessa rede caótica encontro paz nos meus dias e, já que sustentas meus olhos abertos, é também em ti que inflo meu coração de tema para os meus cordéis, na vontade que percebamos "quanta mudança podemos todos nós" a fim de consertar tuas ironias e te fazer sorrir um riso sereno todo dia. Sem talvez(es), sem dois lados da mesma calçada. A fim de te ver inteira.


Enquanto minha voz é baixa e não é chegada a hora do teu riso pleno, vou te fazendo poesias, tu vais dando bordado para minhas rimas às avessas e por ti prezo e peço para que melhores da tua ironia.

E, ainda uma vez, não pense que te renego. Pois é em ti que, por ser lugar meu, encontro o pão de todo dia, as pautas das minhas músicas, as letras que me alimentam, o amor nas entrelinhas, a nobreza de certos olhares, pano para meus pensamentos e melodias, o ensinamento que há nas saudades que sinto e paz para minha trilha. Tua magia penetra. Em ti acordo e digo bom dia. Em ti respiro ao pôr-do-sol. Em ti me aconchego e sob o luar desejo que 'durmam os medos teus' e que tu sonhes em paz.


Durma bem, cidade minha, e que possam sonhar todos os filhos teus.

Manuella Mirna

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Devaneios permitidos

Quarta à tarde. Aula de Teoria Literária. Pouco mais de trinta cabeças sedentas por arte, mas também por tudo que não fosse aula. Um homem distinto lá na frente disposto a falar tudo que sabia e um pouco mais. A teoria do dia não era a melhor de todas, não era melhor que práticas artísticas ou experiências a viver; naquele momento era só teoria, que só desabrocharia anos mais tarde no cotidiano encantado da língua em que escolhemos viver. Mas numa aula assim tudo que não é teoria é vida, é pensamento, é sentimento. Numa aula assim há a meta do assunto a cumprir contra um caminho misterioso e atraente a percorrer. Ficamos com os dois, mas certos dias gostamos mais do segundo. São devaneios permitidos pelas paredes respeitadas de uma sala de aula, devaneios a que nos permitimos por gosto a enxergar o algo a mais, as pequenas grandes coisas, os detalhes apagados pela correria do nosso olhar desatento, o brilho que há em cada coisa, em cada um, em cada...

E desconcentrada do todo, como criança, brinco com versos de mestres:
"o essencial é invisível aos olhos"...
mas muito nítido para o olhar.
porque entre tantas palavras belas eu escolho 'sodade', e ela se vê em meu olhar.
"gosto muito do pôr-do-sol, vamos ver um"...
mas se você não aparecer a tempo de vê-lo,
se meu pôr te parecer o nascer,
e meu nascer parecer futuro para ti,
não faz mal,
podemos ver então as estrelas e nos fazer lua para elas 'espiar'.
"se tu vens às três da tarde desde Às quatro começarei a ser feliz"...
mas se não é sensato falar em felicidade nesse mundo,
falo de algo assim mais sadio que ansiedade e mais pleno que alegria,
algo assim sem razão aparente;
razão: coisa que não existe no meu sonho, mas no dia prende meus pulos de criança.

E imersa de novo nas quatro paredes feitas de metas e artes, sou apenas uma entre as mentes que se permitem devaneios instigados pelo homem distinto lá da frente:
"adoro o som dos sinos e o som da máquina fotográfica, congelam o tempo"...
verdade, quando o sino bate seis horas, tudo que ocorre dentro das seis horas se congela, de alguma forma se imortaliza, de alguma forma se percebe a importância dessa hora, paramos sem perceber contemplando aquele momento de agora, aquela tempo que o som de um badalo insistente quis imortalizar e nos fazer dar valor não só para a importância daquele momento, mas para todos.
Verdade, quando a máquina faz 'clic', ela diz que guardou aquele momento para sempre. Como diz Quintana, os momentos são belos justamente por serem finitos, mas são tão belos que queremos tê-los para sempre de alguma forma e para sempre lembrar dos sorrisos e dos sentimentos que ilustram uma fotografia, que marcaram uma vida.
E sem saber bem porque me vem uma vontade humana de não perder esses momentos, de não deixar que eles passem sem que notemos suas ilustres presenças. Pois sem nossos mosaicos de momentos o que seria a vida? Nossa colcha seria vazia, e toda furada não nos acalentaria nos dias de frio. Porque sem percebermos são esses momentos, essas lembranças e essas pessoas das fotografias que nos protegem do frio dos nossos medos e se abrigam conosco das tempestades do caminho.

E entre outros, um devaneio final fecha nossa respeitosa permissão de aula de arte:
"as intervenções da arquitetura na cidade"
O homem distinto lá na frente disse essa frase ao contar uma história que aconteceu com ele. Um amigo seu, que fazia arquitetura na época, o fez observar como as luzes de um prédio se apagavam e se acendiam, o fez ver esse movimento e entender que arquitetura era mais que fazer prédio, era intervir na cidade e na percepção das coisas e o disse essa frase.
E me lembrei de como é bom ficar na varanda observando esse movimento, quase bobo, das luzes de um prédio ao longe. E agora senti também a saudade da saudade de uma pessoa que sente falta de olhar as luzes dos postes e dos carros à noite, o movimento das pessoas, o corre-corre de vidas tão cansadas, que acreditam por vezes estarem invisíveis. Ato quase banal, mas tão singelo, tão vivo. São vidas. São histórias. São pessoas e seus pensamentos, suas conversas, suas progressões de cena. É como contemplar o mundo respirando, se renovando a cada apagar de luzes para um novo acender em outro cômodo... nada será do mesmo jeito que foi de um apagar e acender há segundos trás. E aí, nada parece tão confortante quanto olhar para a vida de frente e assim percebermos que nossa vida vira obra de arte se quisermos vê-la assim, se quisermos perceber que para um outro, na varanda da sua casa, num ônibus, passando de noite pela cidade, somos focos de luz e história, momentos de vida e sossego para ele. Movimento, vida, poesia. Saudade.

E eu me pergunto: Devaneios?!
Não, doces verdades. Elas só pedem olhos atentos, olhos sensíveis, olhos que vejam o algo a mais da vida, olhos como os dessa pessoa que conseguiu me fazer sentir a saudade que ele sente de observar a vida de ângulos tão 'bobos', tão poéticos, tão vivos.

Manuella Mirna