quarta-feira, 27 de julho de 2011

Diminua as distâncias, aproxime as emoções

Dia desses, numa palestra de terça, nasceu um assunto que dorme no inconsciente e nos anseios de cada um:
- Você prefere se comunicar, diante de uma situação difícil ou fácil, por escrita (incluindo e-mail e net em geral), por telefone ou pessoalmente? Faça a pergunta você mesmo.
Pensei sobre isso... e percebi o quão estamos todos gradeando nossos muros e nos isolando do mundo, de tudo e todos que amamos. Mesmo os que, como eu, preferem o olho no olho, pecam quando se acomodam com as distâncias físicas e curtem a ideia de que a tecnologia encurta as distâncias. Em alguns casos não podemos negar que realmente ajuda. Mas em muitos outros ela só aumenta e ainda cria abismos que antes não existiam. É preciso avaliar se ela trouxe comodidade ou covardia, quem sabe os dois.


Excluindo as situações em que internet é realmente a melhor opção, temos as que simplesmente nos acomodamos. Quando preferimos conversar horas pelo bate-papo do facebook, ou do msn; quando mandamos e-mails agradecendo algo, convidando ou se declarando; quando mandamos os desculpáveis sms, que alguns fingem que não recebem para não se comprometerem em algo; sem falar nos incontáveis programas de jogo virtual, nos quais se tem oponentes virtuais e uma solidão ensurdecedora no quarto. São situações em que perdemos o aconchego de ouvir a voz de uma pessoa querida, o calor no timbre da voz, a verdade na hesitação dela; em que perdemos o brilho no olhar, a expressão de surpresa ou de dúvida na face, de alegria ou de dor; a sinceridade de um olho que fala e a boca silencia; em que perdemos o calor das mãos, a energia do abraço, o apelo da carícia, a confissão do toque.

Pouco tempo atrás, quando você buscava uma imagem para "contato" o google vinha com fotos de abraços apertados, figuras de mãos dadas. Fiquei tristemente surpresa agora, ao fazer a busca, de só ver "arrobas", logotipos de e-mail, figuras de eletrônicos e moças de telemarketing.

Uma questão parece apontar como rainha nesse cenário todo: um problema hoje, na Era da Informação, é a falta de comunicação. As pessoas querem participar do processo revolucionário das tecnologias de informação, compartilhando a todo instante todo tipo de conteúdos que se imaginar. Mas, ao mesmo tempo, parecem evitar o retorno, seja por sociofobia, falta de hábito, negligência, falta de educação, qualquer sentimento auto-destrutivo ou desvalorização do outro e do contato pessoal. O fato é que se comunicar face a face deixou de ser uma necessidade devido as facilidades tecnológicas e o mundo se acostumou a vidas mais solitárias, independentes e mesmo individualistas. Cada um no seu notebook ou blackberry pensam ter o mundo nas mãos, mas na falta de bateria ou energia elétrica isso se perde, e será que nessas ocasiões as mãos deles serão preenchidas por outras mãos, dadas? Será que, primeiro, eles estão de mãos abertas, dispostas, a postos para o contato real?


Esquecem-se de que comunicação, desde o início de seu entendimento, trata de interação, integração, conectividade. De compartilhamento na convivência, e daí por que não conflitos e dissenções? Com isso há o aprendizado. Trata de colaboração, apoio, calorosidade, afeto, expressão. Trata sobretudo de relacionamento, de compromisso. Será por isso que as pessoas se excluem do contato? Não querem se comprometer com nada ou ninguém além do seu exclusivo interesse pessoal, assegurando que ganhem em troca ou não percam nada na troca? Se for, nada justificável perto do valor que tem uma interação e a sinceridade do olho no olho, mão na mão, face na face. Só deixam de ganhar os que não percebem que isso é imperativo, é mágico, é não negociável, é único. Percepção e sensibilidade, de fato, parece ser para os fortes e corajosos, amantes da vida e das relações.

Houve uma pesquisa sobre comunicação que procurava responder por onde há mais impacto da mensagem no ouvinte. O resultado foi surpreendente e revelador: 7% pelas palavras; 38% pelo tom de voz e inflexão - curvas na fala; 55% pelas expressões, atitudes e gestos. Por dedução, todos os percentuais juntos refletem que a comunicação face a face tem impacto muito significativo sobre as pessoas, ímpar e incomparável. Ralfh Wando devia saber das coisas quando disse que "os olhos conversam tanto quanto as línguas que utilizamos, com a vantagem de que o dialeto ocular, embora não precise de dicionário, é entendido no mundo todo".

No final das contas, deveríamos admitir nossas capacidades de humanos e sermos razão e emoção, mas principalmente emoção; admitir que nós precisamos no contato mais estreito, precisamos uns dos outros mais de perto, não pela tela fria de um aparelho eletrônico. Como me disse uma amiga, a emoção é o retrato da sinceridade, ela resolve muitos pontos de dúvida ou conflito. Chega uma hora em que é preciso estar para sentir, olhos nos olhos, confronto necessário e inigualável. É preciso entender que caneta seca, internet falha, telefone perde a área... à distância os ruídos prevalecem, mas pessoalmente apontam-se as arestas e estabelecem-se as certezas.
O desafio lançado é se desarmar, procurar diminuir as distâncias, aproximando as emoções. Há distâncias físicas que são irremediáveis, com as quais não se pode lutar, mas se tal contato é importante para você, não interessa a quilometragem que os separa, o fundamental é não deixar a distância física virar uma distância espiritual ou sentimental. E quem vivencia caso semelhante sabe que tem como lidar com as distâncias para aproximar um do outro. É a velha história de que o interessado dá um jeito, porque jeito sempre há.
O fundamental, para todos os casos, é dar valor e atenção aos contatos humanos, momentos que não voltam e dos quais deve-se fazer pedras preciosas. Porque "na era do e-mail, do poder do supercomputador, da internet e da globalização, a atenção constitui o melhor presente que podemos dar a alguém".
E o mágico dessas relações afetivas é aprender a interpretar os gestos, o silêncio, um olhar, porque, como diz Quintana, "quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação". Quanta troca se tem num contato pessoal, tempo incomparável que deve ser levado a sério... poder falar, no dialeto que seja; poder ouvir, na sensibilidade e paciência que aparece nas capacidades humanas.

E enfim, administrar a saudade que se sinta, a vontade que peça passagem, a ousadia que deva realizar-se... em prol de ceder ao que realmente importa: você, os te tocam o coração e todo o resto que compõe esse cenário, e só quem o vive entende e sente a mágica que há nele. Não perca a oportunidade de se declarar, de ver os olhos brilharem, de ouvir o timbre da voz, de sentir o calor do abraço, o suar das mãos, o titubear de certas frases... as surpresas, receios e encantos de cada um que te toca de alguma forma. Levante daí, diminua a distância que no fundo te incomoda e aproxime as emoções, para que 'quando você olhar pro lado, possa estar cercado, só do que te interessa'.

Manuella Mirna

"Anunciamos uma vida melhor.
As condições para isso?
Conversando, agente se entende." Drummond

"[...] Me traz o seu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá tua palavra
Sussurra em meu ouvido
Só o que me interessa." Lenine


terça-feira, 26 de julho de 2011

Os Romãnticos

Romantismo para o dicionário significa predominância da imaginação, do sentimentalismo, do poético. Para os "fortes" significa fraqueza. Para o filme The Romantics significa o ato incorrigível de exalar pelos poros o amor que porventura se sinte. Para os amargurados, bobagens mentirosas. Para os apaixonados, um artifício a mais para mostrar o que se sente. Para os românticos significa que nada é bobo desde que seja justificado com amor, ou uma característica tão necessária e involuntária quanto o ato de respirar, ou um ato que os seres humanos criaram porque inconscientemente admitem que sentir e demonstrar o amor que sentem é o que dá sentido à existência. Para mim romantismo é... bem, para que falarmos de mim. Para o google imagens é isso , isso , ou isso , ou outras coisas mais.

Sem pensar se é certo ou errado, bom ou mau, descartável ou necessário. A verdade é que amor é o sentimento mais importante do mundo e o mais necessário também. Amor em todos os sentidos, amplos e irrestritos. E como não podia ser diferente, para toda causa surgem efeitos. O romantismo é um dos efeitos de quem ama. Não de todos os amantes, pois há os que amam alguém ou algo e sentem que o mundo funciona melhor graças a existência disso, mas diz não ser romântico, o que pode ser ou não questionável. Mas é o efeito de muitas pessoas, efeito geralmente não escolhido ou forçado, mas natural e necessário, como flores de primavera.

Recentemente ví um filme intitulado The Romantics. E eu realmente me questionei sobre o que isso - romantismo - seria. Porque para alguns não há nada de romântico nesse filme. Para outros, e principalmente para a escola literária do século18/19, é totalmente romântico, num sentido que, para quem conhece ou já ouviu falar no ultrarromantismo ou mal-do-século, não é muito positivo.

Na verdade, sem querer ser influenciadora, romantismo é uma qualidade que, como qualquer outra coisa, em excesso causa danos terríveis e muitas vezes irremediáveis; que, como a maioria das coisas, na dose certa é capaz de curar doenças e resgatar valores adormecidos, estabelecer laços e estremecer a gente de uma forma única.

Mas ele parece ser mais revelador do que importante. Digo, quando você é romântico com alguém ou por algum motivo, na maioria das vezes seu ato incrivelmente, meigamente ou até loucamente romântico não tem muita importância, mas o motivo que te levou a fazer tão linda ou, em alguns casos, tão absurda ação de amor responde muitas coisas sobre você.

Às vezes diz que você realmente deseja algo e é capaz de tudo para conseguir, mesmo que seja usar os sentimentos de alguém como alavanca, o que não é bom. Às vezes demonstra que alguém é realmente importante para você e ser meigo ou sem noção é apenas uma consequência, esquisita para alguns, do seu sentimento. Uma outra hipótese, a pior delas, é que alguém ser romântico não diz imediatamente que ele/ela ama você ou que saiba que quer você ao lado dele/dela. Romantismo não é sinônimo de amor sincero ou relacionamento perfeito. Mas, uma parece certa, romantismo é uma consequência, a causa é o sentimento. E se ele é verdadeiro não importa quão inacreditável ou discreta seja a consequência desse afeto, ela vai fazer belas impressões digitais na sua vida.

Explicações ou respostas a parte... É que antes se trata de saber cuidar da causa para então entender, ou não, as possíveis consequências. Amor, eis a causa, que a maioria dos humanos não sabe cuidar. Como disse o filme, "somos todos tão sem inspiração. Somos tão cegos às coisas muito pequenas, mas belas. Pequenas coisas belas que fazem a vida valer a pena [...] O jeito como alguém despretenciosamente atravessa a grama, é lindo. O silêncio que se faz depois de uma declaração inesperada e só se pode ouvir garfos e pratos, é mágico. Que tal o som que se faz vindo até aqui. É cascalho, capim, oceano. É verso, verso, refrão. [...] Nós compartilhamos um objetivo: inspirar e ser inspirado. Isso, meus amigos, é imperativo".

E realmente não há mentiras em se dizer que se deixa de lado coisas pequenas e tão belas, compositoras de graça e sentido a muitos momentos, doadoras de respostas a tantos outros momentos especiais e inigualáveis. Sentimentos que existem à disposição no universo e em cada um de nós, como amor e inspiração, conseguem entender essas raridades que não deve se deixar à deriva. Ou ainda outros sentimentos, mas tão essenciais como esses. Só que, infelizmente poucas pessoas estão atentas ou receptivas a raros momentos e pessoas com esses pequenos detalhes, belos detalhes... imperceptíveis à praticidade superficial que as pessoas buscam sem admitir, por ''medo do oceano'', que é misterioso por ser mais profundo que os lagos e rios, mas instigante por encantar de novo a cada sol ou tempestade.

Aviso aos navegantes, não tenham medo do oceano. Naveguem no tempo dele, você com certeza vai ver mais coisas, as quais não admite precisar. Digo isso fazendo uma metáfora com a desse filme que ví: o mocinho tinha desperdiçado anos de convivência ao lado da mulher que realmente amava por ter medo do ''oceano'' que, nas palavras dele, seria ela; e preferiu ''nadar'' em algo mais prático e simples (superficial e alienado?), uma outra mulher, já que toda vez que ele ''nadava no oceano'' era incrível, mas ficava apavorado... talvez porque achasse que precisava desvendar e dominar a imensidão que era aquela mulher. Mas não precisava, nem era isso que ''o oceano'' queria, ele só queria ser navegado, descoberto aos poucos e naturalmente, liberar a cada dia encantos para o mergulhador que tanto amava. Talvez o mocinho tenha sido mesmo covarde e, agora nas palavras da mocinha, "um ato completo de covardia desqualifica uma pessoa de consideração". E depois, medo? Amor não é praga egípcia e romantismo não é doença.

Em vários filmes, livros ou nas conversas nossas de cada dia, há muitas fórmulas de um relacionamento perfeito e estável, entre elas a idealização de se procurar seu oposto com o velho argumento de que "os opostos se atraem". Uma opinião mais polêmica, mas também em grande parte verdadeira é que "Os opostos se atraem e depois eles se aborrecem até a morte", nas palavras da mocinha outra vez. O que, infelizmente ou não, é em muito verdade.

A questão irremediável é que afinidades existem. No começo pode-se fechar os olhos para isso, e alguns até engatam um relacionamento acreditando que água e óleo é uma mistura até aceitável... bem, ficam no mesmo recipiente por quanto tempo se deixar, mas nem chegam a ser uma mistura de fato; se tocam, mas não se diluem um no outro, não mergulham com tranquilidade e naturalidade naquilo que se pode chamar de ''energia familiar'', "sentir-se em casa'' ou sintonia. Depois de um tempo, curto ou longo, e este quase sempre por se fazer vista grossa para tudo, eles entendem que as diferenças não podem ser predominantes e as semelhanças pedem para ser maioria.

Diferenças, além de serem óbvias, são divertidas, necessárias e saudáveis. Por se crescer ao ceder a favor do outro, por conhecer e aceitar coisas novas, com as quais se tinha até preconceito, por entender mais ''o que'' e ''porque'' você gosta do que gosta, por admirar o outro pelas escolhas e também por poder influenciar quando as escolhas não forem das melhores... Diferenças são imprescindíveis, mas se não ocorrem entre pessoas na mesma sintonia fica impossível administrá-las ou achá-las positivas. E então, sintonizados, "em casa", à vontade, a frase "eu entendo" flui naturalmente, dando uma forcinha para os momentos de confusão, discordância e desentendimento de um curto e frio "nada a ver". Além de que, quando há afinidade cada situação é nova magia, nova experiência, decifradas na língua que é entendida pelos navegantes e somadas num cômodo de harmonia. E é entusiasmante, afinal de contas é estimulante compartilhar um mundo o qual é abrigo de pessoas que você ama. E no vai e vem de compassos ritmados, vocês descobrem acordes desconhecidos aos ouvidos até alí, mas muito compreensíveis a partitura de cada um a partir de então.

Encontro sentido nisso quando Anitelli diz que "os opostos se distraem e os dispostos se atraem": aqueles se perdem acomodados que estão no clichê da atração magnética ou aborrecidos com tantos "nada a ver", e estes se encaixam à vontade que estão de negarem, afirmarem ou ficarem em silêncio, sabendo que o cenário é adaptável na clareira, na falta de energia elétrica ou à meia luz. Só não se deixe acomodar no cenário aconchegante, porque mesmo nele coisas novas chegam todos os dias vindo dos bastidores ou da fábrica e nesta hora se permita conhecer e entender, não se deixando cair no extremo do tédio pelo conforto.

No meio de todo esse papo sobre o ser romântico e o se permitir para os sentimentos independentemente da trilha de rosas e bombons, me deparo com a visão de que, tal qual a concepção mais simples do divino como algo de que se tem latente a crença de ser algo superior e necessário, fiel e intacto, todos têm em si a centelha dos mais belos sentimentos e com eles a inspiração de colocá-los em voga, em caixa alta, na direção das pessoas que de alguma forma são especiais, para você ou para o mundo. Ser romântico é ser humano, se a primeira palavra incomoda ela é só uma nomeação cor de rosa para um ato multi-racial, feliz dos que conseguem ativá-lo. Alguns atos são meigos e silenciosos, outros são indiscretos e efusivos ("cheguei!!", mesmo), mas todos escolheram se emocionar e emocionar, inspirar e ser inspirado, entenderam que isso é imperativo.

No fim, do filme The Romantics, deste texto incerto, da minha paciência ou da minha vontade, dessa onda de pensamentos ''vai e vem'', entendo algumas coisas e aceito outras, me desfaço de outras tantas. Mas entro em consenso aqui dentro que o que salta mais, pede mais, é mais imperante, é o afeto que se sinta e que nenhuma covardia, ''incoragem'', timidez, pensamento demorado, indecisão, procissão ou prosa prolongada deve calar a voz que salta em sinfonia de acordes maiores, lá de dentro, daqui, da gente. Os românticos sabem disso, e todos podiam entender que os humanos sentem isso. Os quais, por algum motivo esquisito, se enganam, tropeçam, teimam de forma não explicada (que não quer dizer inexplicável) com o que sabem ser a tal casa aconchegante que andam procurando.

Não é que se deva dar vazão a todos os sentimentos, porque há os maus. Nem é que a qualquer pulo do coração se é apontado o caminho. Quase sempre não é pulo que diz a certeza, é algo mais sutil e mais inspirador que um taquicardia, exige um auto-conhecimento e certo dicernimento por parte do sujeito. Acontece que geralmente se sabe quando algo raro bateu à porta, cantou bem de perto ou tocou à beira da piscina... O raro não é rotineiro, é especial, incomum, um diferente que aguça os sentidos, se intromete nos pensamentos de leve e tem um brilho inesperado no olhar, uma verdade simples no sorriso... Apenas não tenha medo, não desvie os olhos, tape os ouvidos ou se vire para a paisagem mais fácil de entender ao seu redor. Realmente o raro pede algo a mais de você, mas se você é capaz de reconhecer a chegada dele, tenha certeza, você é capaz de encontrar o encaixe entre vocês, não é um impossível quebra-cabeça, vai ser mais espontâneo que imagina. Porque "o amor é como o oceano: vasto, aparentemente sem fim. Algumas vezes tortuoso... tranquilo em outras. Assustador por todas as suas profundezas não exploradas, mas uma fonte constante de maravilhas e admiração".

Manuella Mirna

"Amar sem sentir-se amado é um desafio mais difícil que a fome.
Encontrar amor na simplicidade do dia a dia é para quem sabe se alimentar da mágica da
vida e da superação de si mesmo.
Para o insaciável, nem todas as cores preencherão o seu vazio.
Para aquele que já sofreu, que já perdeu, que já aceitou seus erros e assumiu as emoções de suas lágrimas, a aquarela começa agora, em cada gesto, a cada manhã, a cada cor nova em possibilidades que a vida oferece para quem não deseja inverter os papéis de aluno e professor com ela." Espalhe o Amor

"A fantasia é véu que não encobre

Tanto como se diz [...]

A música se foi – durmo ou estou desperto?" J. Keats

quarta-feira, 20 de julho de 2011

"Procura-se um Amigo"

Hoje, na verdade, passados alguns minutos, se comemora o Dia do Amigo. E eu pensei "cheguei agora e não vou mais escrever nada sobre, porque já passou da meia-noite", mas em seguida pensei "que nada! Dia do amigo é todo dia". Clichê não é?! Mas é verdade, porque todo dia é dia de valorizar tudo que é especial, e devemos lembrar mais disso.
Então, "hoje", como todos já devem saber ou ter percebido por ligações, scraps, sms ou comentários do facebook, é Dia do Amigo. Então, feliz dia do amigo para todos! E parabéns para quem recebeu ligações, scraps, sms ou comentários do facebook e saiu com seus amigos hoje, isso quer dizer que você conquistou amigos, pessoas que estão ali para você, pessoalmente, virtualmente ou em pensamento, até nos dias mais chuvosos, principalmente nesses.
E não quis pensar em nada melhor para escrever do que um texto que ganhei e sou apaixonada. Há poucos anos, recebi de uma super amiga minha uma carta, que entre outras coisas lindas de amiga, tinha este poema:

"Procura-se um Amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive."
(autor desconhecido)

Acho que não resta muito mais a acrescentar.
E eu sempre costumo dizer que gostar é pouco para certos sentimentos, que se gosta de pizza, de amigo se ama. Mas a despeito da comparação fajuta, amigo é como pizza, todos querem um pedacinho. E é difícil dividir o nosso pedaço; é ótimo somar pedaços de vários sabores que tanto gostamos, cada um tão especialmente; difícil recusar só mais um; todos têm seu sabor favorito, aquele que tem todos os ingredientes que você mais gosta; todos têm também aquele sabor em que não se gosta de todos os ingredientes, mas que a junção dos outros o torna imperdível, e você sabe que com amor e cuidado tudo é passível de mudança, para melhor, é claro, e sem perder a essência do sabor. A grande diferença entre a pizza e os amigos é que eles não tem preço, nenhum, zero. Tudo que você investe é tempo, dedicação, carinho, ouvidos atentos, mãos a postos, um abraço aconchegante, sorrisos de sobra, dedos para enxugar as lágrimas... E o que você ganha?! Tudo isso e um preenchimento sem igual do lado esquerdo do seu corpo, acima do diafragma... Aliás, preenche todo o corpo, a alma e ainda cura os frio na barriga e os arrepios na espinha que porventura você venha a sentir. Nada como amigos, todos de um sabor diferente e que você curte de forma única e impagável cada um deles.
E é por isso que não se deve temer os sentimentos, doar o que há de melhor em você, se emprestar para outro, amar vários sabores, guardá-los num lugar seguro e impermeável, ser a piza favorita ou dizer para a sua que ela é sua pizza favorita, ou ter vários sabores favoritos... Enfim, não tenha medo do que é belo e especial, porque outros não poderão sentir ou viver por você o que você deseja demonstrar. Junte amigos, faça a festa, se declare, faça caretas, tire fotos com bigodes falsos, ria de besteira, como "afonsho", pague mico junto quando uma de suas pizzas resolver pedir maracas num restaurante mexicano porque quer entrar no clima, "ué, mas é pra ter neh?!"... e crave mais um sorriso e mais um momento e mais sentimentos nas paredes do vagão do trem. Diminua os obstáculos e sinta a magia.
Lembre-se que amigos são os irmãos que escolhemos, mas algumas vezes os irmãos são também amigos e os pais são também amigos... Amigo não tem o pré-requisito de ter sangue diferente, se seus familiares são também seus amigos você deve agradecer todos os dias por isso. Mas se não é seu caso "Diminua os obstáculos e sinta a magia", faça sua parte.
E só posso terminar dizendo que sou muito grata a esse enorme e inusitado trem, chamado vida, e ao seu motorista invisível, por ter o prazer de provar dos sabores que mais gosto nos momentos que resistem ao tempo. E, é claro, por, de temporada e temporada, poder conhecer novos e diferentes sabores que surpreendem o paladar, aguçam os sentidos e passam a ficar guardados na caixa dos sabores impagáveis, o lugar reservado aos meus amigos. Amo vocês, amigos, mami e mana, parceiros e parceiras, bonitões e lindonas impagáveis da minha vida.

Manuella Mirna

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Bons ventos sempre chegam

Segunda à tarde. O sol tentava reinar de fininho, depois de dias de chuva forte. O ônibus andava acelerado pela BR sem nenhuma poça de água ou trânsito. Nesse caminho há várias pontezinhas, sob as quais passam uma água rasa, turva e infinda. A beira desse riozinho algumas casinhas se seguram entre a madeira frágil das paredes e a terra mole da margem. Nada muito garantido. Mas eles encontraram seu abrigo e se é ali que vivem com sua família, aquele lugar não é qualquer um, não é desimportante.

Mais algumas dessas casinhas ficam na ribanceira íngreme entre o rio e a estrada, outras ficam já perto da calçada. Choveu muito esse final de semana, não demais, mas o suficiente para ameaçar a segurança dessas e de outras casas em semelhante estado. Uma dessas, bem na beira da estrada, hoje quando passei por esse caminho, não existia mais. O que havia eram destroços do que pareciam ser paredes e alguns poucos móveis. Na verdade havia unas palhas que formavam um telhado, tábuas de madeira que juntas formavam um quadrado e no meio dessas tábuas um sofá. Deitado nesse sofá, adormecido de um sono que parecia o isolar de todo o barulho e movimento da estrada, um homem.
Olhei algumas vezes para entender a cena. Não sei o que houve bem ao certo. Não sei de que era seu sono. Não sei se o que parecia uma casa, um dia tinha sido uma, ou como ela se destroçou. Mas abaixo dessa "casinha" havia várias na ribanceira e mais lá embaixo na beira do rio. Outras mais na frente da calçada faziam vistas de que a "casinha" do homem do sofá não era isolada. Chuva forte parecia ser o motivo de ela não existir mais. Chuva poética e aconchegante para uns, mas de desalento para outros, como para ele.
Pensei muito que seu sono uma hora iria passar. Algum momento, não muito doce, iria acordá-lo, e o que ele faria então? Será que ele tinha para onde ir ou por quem procurar? ... Perguntas que não se consegue calar. Olhos que não se consegue fechar a caminho de qualquer lugar que mostre suas rugas de encantos e desencantos.

Do outro lado da estrada, mais a frente, mais casinhas. Dessa vez erguidas sobre um pequeno campo. Construídas muito juntas, elas parecem ter a intenção de se apoiarem unas nas outras, formar um pequeno povoado desconhecido mas unido de alguma maneira, já que isoladas elas parecem mais vazias e frágeis. No campo ao lado delas "moram" torres de energia elétrica de altíssima potência. Alta potência junto de frágil potência material. Potências de natureza diferentes, é claro, mas ainda assim chama a atenção quando você as coloca na mesma cena. Imaginar que parte da cidade é iluminada pela energia que sai daquelas torres e talvez as casinhas nem recebam essa energia elétrica. Perceber que as torres tomam um espaço bem maior que as casinhas e, no entanto, as torres armazenam energia - parte "abstrata" de uma casa, que não pesa ou ocupa espaço -, e as casinhas abrigam pessoas, vidas, histórias - parte fundamental do mundo e que decerto ocupa mais espaço que energia, espaço imerecido ao que parece. Cena curiosa.

Nesta tarde, a hora anunciava que o sol estava para se pôr, a luz no céu ficando mais amena a cada quilômetro pela estrada. Ventava muito, dizendo que à noite haveria chuva (realmente choveu esta noite). E o vento, quando desci na parada, parecia especial.
Cada vento tem um gosto diferente, sibila algo novo.
Esse, como outros de outras ocasiões, parecia querer acalmar o que havia, não assustar. Acalmar a inquietude de cenas que ficaram atrás na estrada. Parecia querer dizer que tudo ia ficar bem. Que de alguma forma, nem sempre tão simples, nem sempre tão rápida, mas de alguma maneira as coisas iam harmonizar-se, encontrar melhor diretriz, uma saída boa para o que agora não parecia ter uma. Porque como acontece do dia a dia, muitas vezes de repente, no meio do caos, com um pouco de boa vontade, se encontra os melhores sentimentos e valores vivos, como não se imaginava ainda existir.

Trata de não se desesperar, mas não esperar sentado. Acreditar e ir adiante. Porque numa tarde assim, num caminho que parece ser fadado a histórias tristes, numa segunda que dizem ser ingrata, há um Sol, brando, mas há. Um mesmo Sol que brilha para todos, ilumina e acorda todas as cenas de uma mesma cidade, todas as raças de um mesmo povo, todos os degraus e buracos de uma mesma estrada. E no fim, no seu ponto de parada naquela etapa, quando você precisar descer e continuar o caminho achando que a bagagem pesa demais, bons ventos sempre chegam. Para as casinhas, para o homem do sofá, para mim, para você, saiba: bons ventos sempre chegam quando você menos espera. Em forma de experiências impagáveis, soluções inesperadas, situações incomparáveis, oportunidades imperdíveis, momentos únicos, verdades necessárias, pessoas especiais... bons ventos sempre chegam.

Apenas continue seu caminho, faça o que sentir que deve, seja o melhor que puder, seja pessoal e social ao mesmo tempo, tenha as atitudes que espera nos outros, abra sorrisos, enxugue lágrimas, para você e para as pessoas do seu mundo e esteja atento a esses ventos. E aí, quando sentir uma brisa diferente, não deixe ela só passar por você, se permita inundar-se dela, pois ela irá te levar para outros rumos, até mais belos e encantados do que você imaginava. Deixe-se levar por essas ocasiões concretas, cheias de consequências visíveis e sociais, mas também invisíveis aos olhos humanos.
Enfim, não perca a oportunidade de sentir, pensar, ser, fazer melhor e espalhar a mudança e o afeto por aí. Porque bons ventos, apesar de tudo, sempre chegam, só cabe a nós saber enxergá-los e de fato transformar o nosso mundo a partir deles.

P.S. [Mensagem relacionada] Neste período de chuvas muitas pessoas estão sofrendo as consequências do descaso humano com o meio ambiente e com as cidades. Acho que já há alguns anos a humanidade tem percebido que os atos inconsequentes de só sugar da natureza sem restituí-la, ou seja, a falta de um manejo dos recursos naturais para que se possa usá-los sem devastar a natureza, tem causado muitos problemas para nós mesmos. É verdade que nem todos agem mal assim, algumas pessoas e empresas corajosas fazem a sua parte no todo. Mas, infelizmente, os anos de descuido mostram todos os dias suas consequências. Infelizmente, alguns sofrem mais diretamente as consequências disso. Mas, no dia a dia, nas pequenas como nas grandes coisas, cada um pode ser a mudança que espera no outro, como pensava Gandhi. E pode aí ser o bom vento de alguém, aproveitando-se das oportunidades que aparecem como brisas na nossa estrada, para que façamos ou não algo a partir daí. Então, pegue roupas que você não quiser mais, mas que ainda podem ser usadas por outras pessoa, alimentos e água, se você puder, e doe. Procure postos de coleta mais perto de você: http://pe360graus.globo.com/noticias/cidades/chuvas/2010/06/23/NWS,515506,4,214,NOTICIAS,766-CRESCE-NUMERO-DOACOES-VITIMAS-ENCHENTE-PERNAMBUCO.aspx.
Preces e pensamentos positivos também são ajuda e medicação e não medem distância, nem necessitam de um posto de coleta. O pouco que você faça, pode ser muito para quem precisa.

Manuella Mirna