segunda-feira, 30 de maio de 2011

O peso de um "e se..." - abra suas janelas

"Querida Clair,
Eu não sei como a sua história terminou, mas se o que você sentia naquela época era amor verdadeiro, então nunca é tarde demais. Se era verdadeiro, então por que não seria agora? Você só precisa de coragem para seguir seu coração.'e' e 'se' são palavras que por si só não apresentam nenhuma ameaça, mas se colocadas juntas, lado a lado, elas têm o poder de nos assombrar a vida toda: 'e se...', 'e se...', 'e se...'
É difícil imaginar um amor como o de Julieta, um amor que nos faça abandonar entes queridos, que os faça cruzar oceanos. Mas eu gostaria de acreditar que se eu um dia sentir esse amor, terei coragem de persegui-lo. E Clair, se não o fez naquela época, espero que ainda o faça um dia.
Com todo amor, Julieta." retirado de cena do filme "Cartas para Julieta"

Começamos com uma carta. O tema? Amor. Sim. Aqui estamos nós de novo falando de amor, se é que é possível falar. E por que não? Este filme é definitivamente uma carta direto para o coração, porque não tem endereço mais apropriado e receptivo. A maioria das pessoas, no entanto, tem uma visão estreita sobre o amor ou sobre amar. Teimo em chamar atenção para que amemos, nos apaixonemos: por alguém, por um sonho, por uma causa, pelos dias, pelas estações ou por uma só, pelo ser, pela vida. Então, partindo do amor mais óbvio e apaixonante, mais popular e sentido, lá vai um exemplo do filme para ficarmos bem amolecidos:

Pedaço da cena em que ela está no balcão de Julieta refletindo e ele chega e sobe numa árvore para alcançá-la.
Ele: - [...] o mais importante é que só tem uma Sophie [...] Presta atenção, presta bastante atenção, eu moro em Londres, uma cidade histórica, linda e vibrante, na qual eu amo viver. E você em Nova York, que é super estimada [...] Como o Atlântico é largo demais para atravessar todos os dias a nado, de barco ou de avião, vamos decidir na moeda [...] Mas se você não quiser aceitar isso, eu deixo Londres com todo prazer se você estiver me esperando do outro lado. Porque a verdade, Sophie, é que eu te amo, loucamente, profundamente, verdadeiramente e apaixonadamente. [...]
Olhos e sorrisos falam mais que palavras e neste momento ele cai da árvore.
Ele: - Por favor, me diga que ninguém viu isso. Ela: - Ninguém viu. (mas todos olhando) Ele: - Que bom, é muito bom. Ela: - consegue se mexer? Ele: - só os meus lábios (eles se beijam).

Você deve estar pensando: "ela acredita mesmo em contos de fada!" Não, acredito no conto da vida. E realmente acredito na incrível capacidade de contistas que temos cada um de nós. Vejo isso nos contos de não-fada, nos contos da vida, de formas únicas e bonitas, às vezes até estranhas e engraçadas. Esse é apenas um exemplo hollywoodiano, mas que sai das telas para amolecer nossos corações e nos dizer para sermos roteiristas melhores das nossas histórias de amor. De amor sim, mas no sentido amplo da palavra, no sentido que não se esgota e toca todos os cantinhos e áreas das nossas vidas.
E aí, não só no cantinho mais restrito e popular de amor, mas em todos os cantinhos, é importante tentarmos evitar os 'e se...'. Pararmos de imaginar o que poderia acontecer e fazermos o que acreditamos ser certo, ser necessário; o que sentimos que devemos e queremos fazer. O poder de mudar o rumo das histórias vem de nós, da caneta que escreve as nossas páginas todos os dias, e as deixarmos sentir o peso de um ' e se...' é muito doloroso e desnecessário para o ser que pôde chegar na lua.
Para mim esse filme, como tantos outros, é só uma dica, que se resume em quebrarmos as barreiras que criamos; em corrermos atrás do que acreditamos e amamos, ou sabemos que podemos vir amar; em contornar algumas dificuldades, como a água faz; em derrubar as que precisam ser derrubadas, como os heróis fazem; em ousarmos mais e nos culparmos menos; em fazermos mais e calcularmos menos; em evitar nossos tão presentes 'e se...'.
Não é que devemos agir sem pensar. Não se trata de impulsividade, mas de coragem. De permitir a nós mesmos sair da redoma aparentemente segura e enxergar as possibilidades, provando para a vida que sabemos, ou mesmo tentamos, dar valor a ela e escrevemos direitinho seus capítulos.
E fazer isso pela simples razão de que quando decidimos dar vazão ao amor, abrir as portas para seus encantos, seus mistérios, suas lições, seus confortos... quando decidimos aplicar a maior capacidade humana, a de amar: pessoas e não pessoas, momentos e natureza, sonhos e ideais, atitudes e sociedade, a vida veste seu sentido pela raiz e se encarrega de trazer do inesperado as suas magias.

Manuella Mirna

Tua face, Minha face... na face do Mundo

Como um dia comum.
Como uma tarde dessas.
Sem uma razão convincente.
Somos uma face não tão boa de nós.
Perdemos o tato ou o olhar, meigo, atento.
Perdemos a audição ou a atenção, fiel, leal.
Nos perdemos do que somos nós.
Daquela face rara.
A melhor.
E tratamos com indiferença ou insensibilidade o diferente de nós.
Não melhor ou pior.
Mas diferente.
Tendência humana cega que encontra o erro só no oposto. Encontrando todas as razões para justificar a razão própria. E se desconhece o significado de "compreensão"... ou só de um pouco mais de humanidade.
Muitas vezes não se quer falar nisso.
Muitas vezes não se encontra ''tempo'' para pensar nisso.
Muitas vezes não encontramos oportunidades de agir assim.
Muitas vezes justificamos a nossa falta de vontade com qualquer uma dessas coisas.
Não se trata de incapacidade, ou predisposição genética; nem mesmo de maldade.
Não. É somente a nossa cegueira, pelo orgulho bobo e egocentrismo imaturo.
E quando nos recusamos a observar o que está na nossa frente, nos perdemos de nós mesmos, esquecemos do que somos, ou poderíamos ser; esquecemos o melhor que somos ou poderíamos ser.
Quando passamos pelas ruas, pelos momentos, pelas pessoas... sem tentar notar a necessidade dos olhares ou o brilho dos sorrisos, perdemos oportunidades de sermos a luz de alguém ou de deixar que alguém seja a nossa luz naquele dia.
Às vezes precisamos olhar para fora para então olharmos para dentro com maturidade. Às vezes precisamos enxergar o outro para nos enxergamos na proporção certa. Às vezes precisamos nos permitir, não tratar uns aos outros como lobos desconfiados, mas como aliados de um mesmo ideal. Por mais impossível que pareça, se começa dos próximos mais próximos.
Não é tão difícil. Às vezes basta um espelho iluminado pelo sol e inclinado na diagonal. Às vezes basta que se admita os próprios defeitos e limitações para compreender os dos outros. Que se pise no chão sem pedestais ou saltos de madeira. Que nos percamos de si... Sim, mas dos nossos medos, dos nossos entraves, dos nossos argumentos, dos nossos "nãos". Que se encare o próximo com humanidade, face a face. Que nos encaremos com maturidade, face a face.
Que entendamos que muitas vezes na tua face, está refletida a minha, e na minha face está a do mundo.
Olhe. E queira ver.

Manuella Mirna