domingo, 26 de dezembro de 2010

... e Isso É Natal

Era dia 24 de dezembro de 2010, quando voltava para casa para me preparar para a ceia e de uma das pontes da cidade avistei uma minúscula parte do mundo, do nosso mundo.
Era pôr do sol e além de toda cor que havia do céu sobre as pessoas, havia algo mais, uma magia, uma ternura no ar, um sonho, vários sonhos...
Pensei sobre aquilo e percebi que aquele ar abraçava a todos, era parte da paisagem, era parte da janela de quem via, era parte da respiração das pessoas e parte do sentimento de quem era capaz de sentir o que há de verdade em dias assim.
Percebi que assim como o Sol nasce para todos, aquele ar, aquela magia, aquela sensação se colocava a disposição do mundo, em dias como aquele, em dias que podem ser todos os dias, se assim quisermos.
Pensei um minuto nas pessoas, nas suas vidas e quantas histórias diferentes, umas boas outras não tão boas, o vento compartilhava em silêncio, trazia um pouco da magia própria, mas levava em troca um pouca da vida de quem ele via.
Pensei em quantas pessoas estavam sentindo a mesma coisa que eu, pensei em quantas pessoas não conseguiam sentir isso, por diversos motivos.
Pensei nos que têm cegueira mesmo às claras e são indiferentes à vida, aqueles que não permitem ser tocados pelas magias do mundo, pelas sensações de momentos mágicos que podemos fazer durar o ano inteiro.
Pensei nos que não alcançam a importância de dias assim, que não se importam, que estão ocupados demais com outras coisas, que não acreditam em ninguém e nada além de si, do que vêem, do que ganham, do que têm.
Pensei nos que de tantas dores e tantas privações não mais conseguem se encantar, se permitir à mudança pela apreciação, pela conexão com um dia especial que traz uma mensagem subliminar.
Pensando em diversos tipos de pessoas, em tipos de vida, em todas as vidas que o vento devia ver num pavor mudo ou num entusiasmo contido, percebi o quanto é difícil universalizar um sentimento, uma lembrança, uma mudança.
E refleti que diante de um quadro assim deve ser bem mais fácil ficar triste, não acreditar, se acomodar ou fingir nada ver.
Mas lembrei que pensar assim é invalidar toda positividade, carinho e solidariedade que, no meio de todo esse aparente caos, continua ativa e operante no mundo e quantas boas ações assim ainda pretendem se instalar.
E por isso pensei no desperdício que é colocar sonhos à deriva, amor à deriva, fatos bons à deriva por um punhado de realidade ainda necessitada de reformas.
Porque, afinal de contas, sempre existiu e existe dois quadros num mesmo quadro, e se nos focamos só em um, que grita mais ao nosso desespero humano, perdemos os encantos e motivações de mudança que o outro quadro pode nos dar, nos levando inclusive a pintar por cima daquele horror uma bela imagem reformada.
E assim pensei no poder que esse dia tem de colocar à disposição de todos um mesmo ideal e influenciar a maioria acerca dele.
Porque embora não sejam todos que pensem realmente nele, são todos que o recebem, e a maioria que o abraça, deixando entrar a magia em seus corações, em seus lares, em suas vidas, renovando a esperança e a mudança por mais um ano.
E sei que é dessa forma que vai se pintando por cima do horror uma imagem mais bonita, reformada, uma vontade inerte em todos, uma realidade necessária para todos.

E isso é Natal: toda aquela sensação que ví da ponte, toda ela que se dispõe às pessoas, toda ela que apela por mudanças no mais íntimo de cada um;
todos os sorrisos que devem haver dos mais escondidos cantinhos aos mais altos edifícios;
todas as lágrimas que sentem-se agora confortadas por esperança, por solidariedade, por amor de qualquer forma que seja;
todas as histórias que há numa fila de supermercado á procura de um tender às 20 horas da noite de 24 de dezembro;
todas as felicitações que desejamos dos nossos familiares aos mais desconhecidos ambulantes na rua, num desejo consciente ou inconsciente, mas intrínseco, de que eles realmente encontrem a melhor forma de serem felizes;
todas as luzes na cidade que prefiro acreditar que custam mais que milhões de watts, custam sonhos que se inspiram ao ver tanta luz ao seu redor, sorrisos que se abrem de encanto quando a vontade é de chorar, esperanças que se acendem nos planos frustrados, porque várias lâmpadas acesas não podem apenas iluminar a cidade, mas conseguem acalentar nosso coração;
todo o esforço de cada um em se ligar a família que, embora maquinal algumas vezes, é uma tentativa do mundo todo ano de fazer com que um olhe nos olhos do outro, com que um pense no outro na hora de comprar um presentinho ou na hora de escrever um cartão, fazer com que se juntem mãos amigas, às vezes o ano inteiro longe, para servir à mesa, para lavar os pratos, para dar um abraço.

Uma tentativa que não cansa de tentar fazer as pessoas acreditarem a todo custo, a todo caus, a todo vapor de vidas cada dia mais ocupadas de que o amor existe, a paz pode existir, o bem existe, a esperança existe, os amigos são importantes, as famílias são fundamentais, o sorriso move montanhas, a solidariedade é possível, o bom exemplo pega, a mudança é necessária, a reflexão é bem vinda e que alguém a 2010 anos atrás veio nos demonstrar tudo isso e muito mais na doce vontade que dessemos as mãos aos estranhos e aos irmãos e nos amássemos.

E isso é Natal! Hora de lembrar que isso é o que tem valor.
Papai Noel é bom enquanto somos crianças e enquanto vemos filmes bonitos de Natal, mas ele não é o centro das atenções nessa época, pelo menos não deve ser, os presentes que sua imagem nos leva a dar também não devem ser.
Se é difícil ele ser esquecido, então o lembremos por suas virtudes, esqueçamos o consumismo e o lucro que sua imagem entrelinhas carrega e sobretudo lembremos mais do real homenageado da noite.
Assim, junto com os presentes que daremos por lembranças sim a quem nós temos apreço, ofertemos um pouco da solidariedade que ele nos inspira e da sua doçura, porque isso não só nos ensina ele, mas principalmente o aniversariante da noite de Natal.
Ontem, hoje, amanhã, depois de amanhã... o ano inteiro, tenha um bom Natal, porque todo dia é dia de renascer, de renovar-se, de fazer os outros acreditarem que tudo pode ser melhor, fazendo as coisas serem melhores começando por nós, mostrando que é tempo de dar as mãos, de desatar os corações, de abrir os olhos e não fechar diante de alguém e de sua súplica ou de seu sorriso.
Comprimente o mundo, acorde para si mesmo todos os dias e mostre para toda essa magia que vale o esforço de ela colocar-se a disposição em épocas assim, para que sejamos um pouco mágicos, um pouco melhores, um pouco mais apaixonados, para que nos lembremos de que apenas devemos ser um pouco mais humanos.

E um Feliz Natal a todos, todos os dias!

Manuella Mirna

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Versões (Mais do Mesmo)

Sentimos, pensamos, falamos, agimos.

Vemos, ouvimos, reproduzimos.

Entendemos, não entendemos.

Tiramos conclusões.

Versões. Mais interpretações da mesma coisa a todo tempo.

Todos os dias convivemos com as propriedades de um mundo que é novo a cada novo olhar, é diferente a cada nova intenção. Mas é o mesmo, o mesmo ar meu é o ar seu e o oceano é nosso, é de todos. Assim corre a mesmice de uma terra que se reinventa a cada pessoa. Sábia é ela que se dá a chance de novas faces, de flexibilidade, de novas idéias e novos sentimentos. Sábio de nós se soubermos, a cada dia, enxergar as coisas a nosso modo, mas respeitar os outros diversos modos que uma mesma coisa pode ser vista; se soubermos, como o mundo, ser multifacetados, nos dar a oportunidade de ter novas versões a cada nova situação, de nos reinventar e descobrir, talvez, um novo lado oculto e saudável de nós mesmos; se soubermos discernir a melhor opção, o que não passa de farsas do que é realmente uma boa face.
No entanto, há um perigo na multiplicidade das coisas que é praticamente tão presente quanto o saldo positivo disso. Porque o homem tem tanto a capacidade de enxergar coisas boas quanto as más. Geralmente, por interesses próprios ele tende a ver primeiramente o pior lado e muitas vezes inventar a pior versão. Quando ele consegue entender que ninguém vive só, que ele não está fadado a uma única alternativa na vida ou a um único 'eu' de si mesmo e que o "essencial é invisível aos olhos", ele vê melhor, vê aquele lado, entende aquela versão, sonda aquela face aparentemente discreta e desimportante, mas que com interesse se torna a melhor versão, sua ou de outrem, pois sempre existe um novo, talvez melhor, jeito de ver as coisas, de ver aos outros, de se ver.
Não é ingenuidade tentar ser amiga das versões e enxergá-las belas. Ingenuidade é insistir em algo ou em alguém ou numa visão que não tem mais alternativas, não tem perspectivas melhores, não mostra sorrisos para você, só dores que você escolheu sentir por não abrir mão de uma idéia, de um sentimento, de uma atitude caduca.
Assim, ver outras opções não implica não ver a realidade e sermos 'dom quixotes' vulgares, o que acontece é que a realidade pode ser mais agradável do que você a enxerga. Pois não significa que a forma que você vê as coisas seja a verdade absoluta, muitas vezes vemos pior ou melhor do que é, dificilmente vemos como é. A diferença de níveis de percepção, no entanto, é importante para posteriromente aprendermos com os extremos. Só que podemos entender de uma forma mais equilibrada sem ter que passar por esses extremos tão intensamente, podemos mudar de opção quando percebemos a bancarrota de uma, podemos nos encorajar em seguir novos rumos quando o desgaste já tomou conta de uma versão antiga.
O mundo é fênix, somos fênix. O mundo tem muito mais caminhos do que imaginamos, há muito mais formas de olhar a vida que somente da sua janela, há outras janelas, há outros olhares. Você tem muito mais possibilidades de criação que supõe, você tem muito mais capacidades do que um dia já contabilizou, há sempre um novo 'eu' em 'nós'. A vida não perderá a essência por ter outras possibilidades, as pessoas não perderão a essência por terem outras faces de si mesmo, continua vida, continuamos nós. Um rio não deixa de ser o rio com suas curvas sinuosas, suas árvores misteriosas, seus ciclos mais singulares só porque uma chuva caiu e ele foi obrigado a abrir um caminho pela floresta para escoar sua água ou a cortar algumas árvores para adaptar as águas.
As versões são necessárias, várias delas, de muitos outros além de você. Não teríamos uma vida tão malandra de experiências, tão esperta de oportunidades, tão inocente por espectativas se não fosse os muitos olhares tão particulares e elaborados acerca da vida e das pessoas. Por isso, não tenha medo ou acomodação de encarar o novo, um novo sentimento, uma nova idéia, uma nova atitude, porque muito há dentro de uma mesma esfera, muitas são as possibilidades, muitas são as formas, pois muitos são os olhares. Encare as versões, encare o que a vida ainda pode dar, o que os outros podem ser sem você ainda saber, encare as faces que você tem sem perceber. Sempre vai haver uma maneira ao mesmo tempo realista e mágica de ver a vida, então reinvente e chegue a melhor versão de ser feliz.

Manuella Mirna